Abril de 64 nas páginas do Diário do Comércio

A ação militar que demoveu João Goulart da presidência da República completa 60 anos em 2024. Notícias publicadas pelo DC à época dos acontecimentos mostram como estava o clima no país nos dias que antecederam, e nos que se seguiram à tomada do poder pelos militares

Renato Carbonari Ibelli
07/Mar/2024
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Abril de 64 nas páginas do Diário do Comércio

O clima era de absoluta tensão no país no início de 1964. Uma parte da sociedade brasileira, mais conservadora, estava insatisfeita com os rumos do governo de João Goulart. O então presidente ensaiava implantar uma série de medidas que desagradavam a esse grupo.

Em 13 de março daquele ano, as intenções de Jango ganharam forma. No Comício da Central do Brasil, que mobilizou 200 mil pessoas no Rio de Janeiro, o presidente, alinhado ao Trabalhismo da era Vargas, anuncia a necessidade de mudanças na Constituição e ações como a estatização de refinarias de petróleo, tabelamento do preço dos aluguéis e a desapropriações de terras para o início de uma reforma agrária. 

Era a fagulha que faltava. A reação dos grupos conservadores, incluindo a classe produtora apoiada pelas Forças Armadas, foi imediata. Os fatos apresentados a partir de agora, que culminaram na mobilização militar que removeria João Goulart do poder, são narrados a partir de registros feitos pelo Diário do Comércio à época.

Em 17 de março de 1964, quatro dias após o Comício de Jango, a capa do DC estampa a manchete “São Paulo repudia medidas de JG”, seguida de apuração da reportagem que antecipava uma forte mobilização pelas ruas de São Paulo prevista para 19 de março. De fato, na data ocorreu a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que levou 500 mil pessoas às ruas apontando que havia sustentação civil para a deposição do presidente. 

Um pouco mais abaixo na página, o jornal ilustra como o país se assemelhava a um barril de pólvora. Sob o título “Estudantes expulsaram Pinheiro Neto: comunista aqui não fala”, a reportagem narra a reação de parte dos alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco à chegada do advogado João Pinheiro Neto, ministro de Jango, para uma palestra. 

Munidos de cassetetes e fogos de artifício, os estudantes impediram o ministro de descer do carro. Em oposição, descreve a reportagem, alunos de perfil progressista, ladeados por dirigentes sindicais adeptos do palestrante, partiram para o confronto. “O distúrbio prolongou-se por várias horas, com luta pessoal entre estudantes, de um lado, e a polícia fortemente armada, de outro, disparando rajadas de metralhadoras para o ar.”    


 

Foi nesse clima de animosidade que o país chegou ao dia 31 de março, quando militares mobilizaram as tropas no Rio de Janeiro com a intenção de depor João Goulart da presidência.

Carlos Lacerda, então governador do Rio, deu apoio à rebelião, assim como o governador mineiro Magalhães Pinto e o paulista Adhemar de Barros. Em 1º de abril, Jango já não governava mais o país. 

A capa do Diário do Comércio do dia seguinte à rebelião militar trazia a manchete “Democratas dominam a situação”. Na notícia seguinte, o jornal descreve a população com os ouvidos grudados no rádio aguardando informações. “Por volta das 15 horas foi noticiada a renúncia do sr. João Goulart ao cargo de Presidente da República, o que provocou intensa manifestação de alegria em toda a cidade. Populares, das janelas dos edifícios centrais, fizeram cair verdadeira chuva de pedaços de jornais, dando vazão à sua satisfação.” 

O texto ainda descreve que o clima em São Paulo era de tranquilidade, “com os transportes e a indústria funcionando normalmente”. Algumas faculdades estavam fechadas, caso da USP, onde estudantes se aglomeravam em frente. Outras continuavam normalmente com as aulas, caso do Mackenzie. 

A capa do DC de 2 de abril também registrava a posição da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que edita o Diário do Comércio desde 1924, favorável à deposição de Jango.

“A Associação Comercial de São Paulo, fiel às suas tradições de civismo e coerente com suas anteriores atitudes sobre o momento sócio-político nacional, comunica aos seus associados e ao comércio em geral que a sua diretoria acha-se em reunião permanente, desde ontem, atenta aos acontecimentos e cooperando com o governo do Estado, II Exército e com todos os que lutam contra o comunismo.”

Na mesma mensagem, a ACSP pede aos comerciantes que mantenham seus estabelecimentos funcionando. 

 

A partir de então o país passa a ser dirigido pelo “Comando Supremo da Revolução”, formado pelos três comandantes das Forças Armadas. Figurativamente, a cadeira de presidente foi dada ao deputado Ranieri Mazzilli, que ficaria apenas 13 dias no posto. 

Nota publicada na capa do DC de 4 de abril de 1964 mostra que os militares seriam implacáveis com a oposição: “Arraes (destituído), preso na ilha Fernando de Noronha”. A chamada da matéria se referia a Miguel Arraes, governador de Pernambuco, que se recusou a entregar o cargo e acabou preso. Solto um ano depois, se exilou na Argélia. 

Assim como Arraes, outros governadores, prefeitos e parlamentares considerados opositores foram sacados de seus mandatos.

Em 8 de abril de 1964, o Diário do Comércio noticia que o presidente interino Mazzilli havia sancionado lei que regulamentava eleições indiretas no país, permitindo que o novo presidente fosse escolhido pelo Congresso Nacional. No dia seguinte, o “Comando Supremo da Revolução” decretou o Ato Institucional (AI-1), que daria ao presidente escolhido o direito de cassar mandatos e suspender direitos políticos de qualquer cidadão por 10 anos. Foi o primeiro de uma série de AIs decretados pelo regime militar.

Na edição 10 de abril de 1964, sob a manchete “Em vigor o Ato Institucional”, o DC apresentava a íntegra dos artigos que compunham o AI-1. Na mesma página, noticiava apoio integral das classes produtoras à candidatura do general Castelo Banco, líder da mobilização militar, ao cargo de presidente da República.

Àquela altura dos acontecimentos, o DC reportava que mais de duas dezenas de opositores do regime militar já se encontravam asilados nas embaixadas do Paraguai, Uruguai, Chile e Peru, entre elas, deputados, jornalistas e estudantes.

 

A eleição indireta aconteceria dia 11 de abril, confirmando o general no posto de presidente com mais de 90% dos votos dos parlamentares. A capa do Diário do Comércio do dia seguinte, 12 de abril, estampa: “Congresso elege Castelo Branco”. O texto que se segue detalha a votação, mostrando que 361 parlamentares escolheram o general. Ele havia “concorrido” contra outros dois militares, Juarez Távora, que recebeu três votos, e Eurico Gaspar Dutra, com dois. Houve ainda 72 abstenções, segundo a reportagem.

Mais abaixo na mesma página, o jornal transcreve as primeiras palavras do recém-eleito presidente Castelo Branco:

“... Quero também, em ajudando o espírito de colaboração de todos os brasileiros, nos sentimentos da gravidade da hora presente, poder entregar à Nação, ao iniciar-se o ano de 1966, a outra pessoa legitimamente eleita pelo povo, em eleições livres, com o País coeso.”

A história nos mostra que as intenções do general Castelo Branco ficaram nas palavras. Nos 21 anos que se seguiram, os militares se mantiveram no poder. A distância entre o discurso de posse e a realidade veio em 1965, com a edição do AI-2, que reforçava a manutenção de eleições indiretas no país.

A partir de então, antigos apoiadores da rebelião militar, que esperavam que o movimento fosse transitório, se posicionaram contra o regime. Foi o caso do governador paulista Adhemar de Barros, que acabou despejado do Palácio dos Bandeirantes. Assim como ele, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto perderam seus direitos políticos. 

O povo só voltaria a eleger um presidente em 1985, após o movimento das Diretas Já. 

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IMAGENS: Biblioteca ACSP

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