1º de julho de 1994, o Plano vira Real

Após habituar a população ao dinheiro estável com a URV, o governo Itamar inicia a circulação das primeiras cédulas de real. Nas ruas, onde a teoria econômica é colocada em prática, a reportagem do Diário do Comércio constata confusão e queda nas vendas

Renato Carbonari Ibelli
12/Abr/2024
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1º de julho de 1994, o Plano vira Real

A desconfiança era generalizada, afinal, não foi a primeira vez que um governo anunciava um plano de estabilização monetária. Nos anos de 1980, durante o governo Sarney, pelo menos três foram lançados: Plano Cruzado, Bresser e Verão. Todos fracassaram em conter a inflação. Assim, quando o Plano Real foi anunciado, em 1994, consumidores e empresários ficaram na defensiva. 

Hoje, às vésperas de se completar 30 anos desde que a primeira nota de real circulou - em 1º de julho -, podemos afirmar que o plano emplacado pelo governo Itamar Franco foi bem-sucedido. Conseguiu derrubar uma inflação que batia 47,5%, em junho de 1994, para 6,8% no mês seguinte (atualmente é de 3,93%). E baixou a taxa básica de juros de 15.405,60% ao ano para 179,96% (hoje em 10,75%).

Mas, como toda mudança, o Plano Real esteve sujeito a solavancos. Nas ruas, onde a teoria econômica é posta em prática, os consumidores desconfiavam do valor da nova moeda e os empresários reclamavam da interferência do governo nos preços. 

Um mergulho nas edições do Diário do Comércio que circularam à época permite compreender como estava o clima nas ruas nos dias que antecederam a troca do cruzeiro real pelo real, e nos que se seguiram à implantação da nova moeda.  

“Só saiu às compras ontem quem realmente precisava. O fraco movimento no comércio indicou que o consumidor tinha pouco interesse em fazer negócios com o velho cruzeiro. Os poucos supermercados que abriram ficaram praticamente às moscas. Nas lojas, vendedores aproveitaram para limpar vitrines e preparar tabelas de conversão”

O parágrafo acima abre a matéria principal da página 6 do DC de 1º de julho de 1994, e retrata o clima no comércio da cidade de São Paulo em 30 de junho, dia que antecedeu a adoção do real. Os supermercados ficaram fechados para remarcação dos preços, os estoques das lojas não foram recompostos porque os fornecedores não apareceram, os caixas eletrônicos foram desligados para serem abastecidos com a nova moeda.  

 

As tabelas de conversão, citadas entre as aspas acima, eram necessárias para ajudar consumidores e comerciantes a lidarem com os novos valores da moeda. O real comeria três zeros do cruzeiro real (CR$), mas a conta era mais complexa. 

Cinco meses antes da nova moeda entrar em circulação, o governo criou a Unidade Real de Valor (URV), uma pré-moeda atrelada ao dólar, cuja cotação era divulgada diariamente e aplicada ao cruzeiro real. No dia anterior à troca da moeda, uma URV valia CR$ 2.750,00. No dia da mudança, esses CR$ 2.750,00 foram convertidos para R$ 1,00.

Em 1º de julho, era comum ver pessoas paradas em frente às vitrines de lojas fazendo contas. Alguns consumidores denunciavam que os preços tinham subido da noite para o dia. 

“Um cafezinho expresso, que custava CR$ 900,00 quinta-feira, já estava valendo R$ 0,50. Assim não há plano econômico que dê certo”, reclamou para a reportagem do DC a advogada Helenice Alexandre Nunes. Pela tabela de conversão divulgada à época no jornal, o cafezinho deveria custar cerca de R$ 0,30. 

Na hora do troco, outro problema. O cruzeiro real conviveria com o real até o dia 15 de julho, mas logo de início os consumidores começaram a rejeitar a moeda antiga. 

“Desconfiados, os consumidores acompanhavam de perto o cálculo da conta com a nova moeda e, num primeiro momento, chegaram a rejeitar, quando portavam reais, o troco em cruzeiros reais”, descreve matéria do Diário do Comércio publicada em 2 de julho.  

Nesta mesma reportagem, representantes dos lojistas de São Paulo relataram quedas nas vendas que, a depender da região da cidade, variaram de 20% a 40% no dia em que o real entrou em cena. 

 

O governo federal, por sua vez, pressionava os empresários a não elevarem os preços na transição da moeda. Os supermercados eram os principais alvos das críticas do presidente Itamar, que os ameaçava de autuação e interdição, segundo matéria do DC publicada em 2 de julho de 1994. 

Para se defender, a Apas (Associação Paulista de Supermercados), argumentava que alguns preços subiram por uma questão de mercado, como a queda na oferta de hortifrútis causada por geadas. 

As queixas da população também eram direcionadas ao transporte público municipal. Até 30 de junho, o preço médio da passagem de ônibus na cidade de São Paulo era de CR$ 1.292,50, o equivalente a R$ 0,47. Em 1º de julho, já se cobrava R$ 0,50. 

A explicação da gestão Paulo Maluf para o reajuste, segundo matéria do DC de 5 de julho de 1994, foi compensar o aumento dos salários de motoristas e cobradores praticado pela gestão anterior, de Luiza Erundina. E o governo federal, mais uma vez, ameaçava. Neste caso, com corte nos repasses às prefeituras que aumentaram as passagens.

Mais detalhistas do que nunca, os fiscais da Sunab (Superintendência Nacional de Abastecimento), extinta em 1997, identificaram alta no preço do pão, que deveria ser vendido a R$ 0,09, mas era comercializado a R$ 0,10. Itamar ameaçou tabelar o preço do produto.

 

Em meio a esse ambiente de desconfiança, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) pedia cautela aos atores econômicos e distribuía, via Diário do Comércio, uma cartilha para responder às dúvidas dos empresários sobre a nova moeda, como a necessidade de alteração nas impressoras fiscais, que teriam de substituir o CR$ pelo R$, ou o cálculo dos salários dos funcionários.

O real é a décima moeda em circulação no Brasil. Desde o réis, a primeira e mais duradoura, todas sucumbiram para a inflação. O real vem resistindo, garantindo estabilidade monetária, ainda que com sobressaltos. 

O Plano Real original precisou ser ajustado ao longo dos anos. Para conter a inflação, o governo Itamar adotou medidas que inibiram o consumo. O real ancorado ao dólar se mostrou um problema, pois havia a necessidade de atrair capital estrangeiro ao país, algo feito via elevação dos juros, o que causa impacto negativo nos investimentos e no crédito.

Em 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o país se encontrava quase sem reservas internacionais na tentativa de manter dólar e real equiparados. O Banco Central foi obrigado a trocar o regime de câmbio fixo, um dos motivos do sucesso inicial do Plano Real, pelo câmbio flutuante. Nesse momento, o país passa a adotar o chamado tripé macroeconômico. 

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IMAGENS: Biblioteca/ACSP e Paulo Pampolin/DC

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