Taxações dos EUA atingem 23,1% das exportações brasileiras, diz governo
Duas tarifas já estão em vigor: uma de 25%, que começou a valer na última quarta-feira, e outra de 12,5%, imposta a partir de hoje

As duas novas taxações impostas nesta semana pelos Estados Unidos a diversos produtos importados do Brasil vão afetar diretamente 23,1% das exportações brasileiras ao mercado norte-americano. O cálculo foi apresentado nesta sexta-feira (24/07), pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Duas tarifas já estão em vigor: uma de 25%, que começou a valer na última quarta-feira (22), e outra de 12,5%, imposta a partir de hoje. Conforme a decisão dos Estados Unidos, a medida do dia 22 não se aplica a mercadorias embarcadas e em trânsito antes dessa data, desde que ingressem em território norte-americano até 29 de julho.
De acordo com a nota do ministério à imprensa, 4,7% das exportações são afetadas exclusivamente pela sobretaxa de 12,5%. Foram atingidos produtos como obras de pedra, gesso, minério, óleos essenciais, perfumaria e pescados. Unicamente pela tarifa de 25%, está 1,9% do que é exportado, a exemplo do açúcar.
As duas tarifas, simultaneamente, abrangem 16,5% das exportações aos EUA. Com isso, produtos como máquinas, equipamentos, madeira, óleos, calçados, móveis, confecções passam a ser sobretaxados em 37,5%.
Segundo o ministério, 52,7% das exportações brasileiras aos Estados Unidos permanecem sem tarifas adicionais setoriais ou específicas. Nessa categoria estão, por exemplo, café, carnes, ferro fundido, aeronaves, suco de laranja, frutas, produtos químicos e celulose.
Governo defende reciprocidade; empresas querem negociação
As sobretaxas foram decididas após duas análises realizadas pelo Escritório do Representante do Comércio dos EUA (USTR). A primeira refere-se à investigação que envolve, entre outros aspectos, o Pix, o mercado de etanol e o desmatamento ilegal. A outra é em relação à verificação de produtos supostamente fabricados com trabalho forçado que estariam entrando no mercado norte-americano.
“O governo brasileiro rechaça veementemente a decisão do governo norte-americano de impor mais uma tarifa indevida, baseada em fatos que não são reais, com fundamento que é indevido. Ou seja, mais uma tarifação imposta ao Brasil de maneira ilegítima, descabida e ilegal. O Brasil protesta, contesta e vai adotar todas as medidas para rechaçar a imposição de mais essa tarifa que deturpa o rigor do comércio internacional”, alegou o ministro Márcio Elias Rosa, em entrevista ontem à noite.
Além do Brasil, a sobretaxa no âmbito da investigação sobre trabalho forçado foi aplicada aos 60 maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos. Com isso, a tarifa de 12,5% atinge 41 nações, e outros 19 países serão taxados em 10%.
A sobretaxa, de 10% ou 12,5%, substitui a tarifa temporária de 10% aplicada desde 24 de fevereiro de 2026, que expirou nesta sexta-feira. A tarifa era geral e incidia sobre importações de diversos países e havia sido adotada com caráter temporário, pelo prazo máximo de 150 dias previsto na legislação norte-americana.
O governo afirma que pretende acionar a Lei de Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, e levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC). As empresas afetadas, por outro lado, defendem a negociação como principal caminho. Entre as estratégias avaliadas estão a busca por novos mercados, a negociação com setores importadores dos Estados Unidos e a ampliação da lista de produtos brasileiros que podem ficar de fora das tarifas.
Participação dos EUA nas exportações cai de 12,1% para 9,4%
Dados do ministério mostram que, após atingirem o recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024, as exportações brasileiras para o mercado norte-americano recuaram para US$ 37,7 bilhões em 2025 e mantiveram trajetória de queda ao longo deste ano devido ao tarifaço. A participação dos EUA nas exportações brasileiras diminui de 12,1% para 9,4% na comparação dos primeiros seis meses de 2025 e 2026.
“No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 17,4 bilhões, redução de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. O desempenho foi influenciado principalmente pela diminuição dos embarques de óleos brutos de petróleo, que registraram retração de 30,4%, e de produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço, cujas exportações recuaram 21,7%”, descreve a nota do MDIC.
Na avaliação do MDIC, os dados indicam uma desaceleração das trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos após os níveis historicamente elevados observados nos últimos anos. “Esse movimento tem ocorrido em um ambiente de crescente incerteza quanto à política comercial norte-americana, caracterizado pela ampliação do uso de instrumentos tarifários, pela adoção de medidas restritivas e indevidas e por frequentes revisões das condições de acesso ao mercado dos Estados Unidos”, argumenta o ministério.
R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento
Na última quarta-feira, o governo federal anunciou R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento destinadas a apoiar empresas brasileiras que atuam em setores estratégicos para a balança comercial, afetadas por tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos, por conflitos internacionais e pelo avanço de medidas protecionistas no comércio mundial.
Os recursos, que fazem parte da terceira etapa do Plano Brasil Soberano, poderão ser utilizados para capital de giro, aquisição de bens de capital, investimentos produtivos, inovação tecnológica, adaptação de produtos e processos, além de prospecção e abertura de novos mercados. A medida provisória para implementar o financiamento foi encaminhada ao Congresso Nacional.
IMAGEM: Reuters/Folhapress

