Moda praia brasileira resiste à gangorra do tarifaço e marca posição no mercado dos EUA
Desistir nunca: presença contínua em feiras como a Miami SwimShow mostra resiliência e a estratégia de longo prazo de uma indústria que sofre com aumentos de custos e concorrência

No mesmo dia em que os Estados Unidos anunciaram a conclusão de sua investigação comercial, propondo taxação adicional de 25% sobre produtos brasileiros, uma comitiva de empresas de moda praia do país finalizava mais uma missão comercial a Miami (Flórida). Longe de ser o único obstáculo para o setor, o novo baque veio exatamente na semana em que vários novos negócios foram fechados. Vendas que serão entregues em mais um cenário tarifário desfavorável, diferente do que estava em vigor no momento da negociação.
A maratona de eventos da Miami Swim Week 2026, a principal plataforma global para o segmento de moda praia e resort, que encerrou em 1º de junho, definiu tendências e negócios para a próxima estação, com transações que serão entregues ao longo dos próximos 12 meses. A participação brasileira somou 46 empresas, que mostraram suas coleções e se dividiram em rodadas de negociações em eventos como o Miami SwimShow, Curve Miami, Colombiamoda Miami e Cabana Show.
Um mês e meio depois, as marcas se preparam para entregar as próximas levas de mercadorias com a nova taxação de 25% somada a seus custos, após o anúncio, no último dia 15 de julho, da penalização do Brasil no âmbito da investigação comercial do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301, relativa a práticas desleais. A atividade ficou, mais uma vez, de fora da lista de exceções à taxação.
As incertezas do último ano sobre o custo final das mercadorias vêm acompanhando vendedores e compradores, e impactando diretamente a competitividade. Mesmo assim, a moda praia brasileira tem se desdobrado em esforços para não perder seu principal mercado externo. Dos quase US$ 10 milhões exportados pelo setor no ano passado, cerca de 35% foram para os Estados Unidos, de acordo com dados do ComexStat, compilados pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
O dado revela uma pequena retração em relação a 2024, ano anterior ao tarifaço, quando os EUA absorveram 40% dos nossos embarques, equivalentes a US$ 4 milhões. O país, no entanto, permaneceu o primeiro no ranking dos nossos destinos.
Para não jogar fora um esforço de décadas
Apesar da moda praia ainda ser um segmento pequeno no universo da indústria têxtil, o Brasil é referência mundial na atividade. “A moda praia brasileira tem sua marca registrada. Nossos produtos são reconhecidos pelo design, inovação e qualidade. É o resultado de um trabalho profissional muito sério feito há décadas”, afirma Adriana D’Agostini, gerente de promoção comercial da Abit.
Em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), a Abit mantém há 25 anos o Programa de Internacionalização da Indústria Têxtil e de Moda Brasileira (Texbrasil).
Desde então, já foram 22 edições consecutivas do Miami SwimShow com a participação de comitivas brasileiras organizadas pelo programa. Segundo a executiva, há dois momentos muito importantes para o calendário da moda praia no país: em junho, em Miami, e em setembro, em Nova York. “Os EUA são o nosso principal mercado e, apesar de tudo o que aconteceu no último ano, não mudou. Temos um perfil de marcas que participam e apostam há anos nessa internacionalização, e elas já entenderam que continuidade é muito importante”, destaca.
Os Estados Unidos, e especialmente a Flórida, são estratégicos. Além de o país ser o maior mercado consumidor do mundo, é a partir do estado da Flórida que se alcançam resorts e compradores de todo o Caribe e América Central. Quando se fala de moda praia e resort, é importante ressaltar também que é do Porto de Miami que sai a maior parte dos cruzeiros para toda a região.
De acordo com a representante da Abit, mesmo no pior momento, quando as tarifas adicionais somavam mais de 50%, as exportadoras brasileiras não desistiram e confirmaram a intenção de seguir com as missões comerciais. Fora da lista de exceções do tarifaço, manter-se no mercado tem exigido um esforço dobrado em condições desiguais. Entre as principais concorrentes das marcas brasileiras na disputa pelos consumidores norte-americanos estão as colombianas, que chegam ao mercado com tarifa zero, por conta de um acordo comercial.
Competição desigual
“Está sendo muito difícil. Uma vez que você lança uma coleção com um preço, não pode mudar. No ano passado, nosso produto, que tinha 24,7% de tarifa, teve 10% adicionados, depois mais 40% e chegou um momento em que o total passava de 75%. Tive que absorver esse custo porque não pude repassar”, lembra a empresária gaúcha Camila Ckless, fundadora e diretora da Guria, há 19 anos presente nos EUA.
A empresa atua no atacado, fornecendo para diversas lojas multimarcas, e no varejo online, por meio de site próprio e em portais de grandes redes, como a tradicional Macy’s. Ckless revela que reajustou os preços da coleção deste ano em torno de 4% porque, além da questão das tarifas, os custos no Brasil subiram muito. “Mas não podemos elevar nossos preços mais do que isso, porque senão não vendemos. O mercado não aceita”, explica, ressaltando a forte concorrência com as marcas colombianas e australianas (que também possuem acordo comercial com os EUA).
As peças da Guria são totalmente produzidas no Rio Grande do Sul, com tecidos que vêm de São Paulo e Santa Catarina, depois são importadas pela empresária para o mercado norte-americano. “A sustentabilidade e a responsabilidade social fazem parte do DNA do nosso negócio. Atualmente, temos 10 famílias no Sul do Brasil que fazem a nossa produção e dependem totalmente desse trabalho. Não posso desistir”, revela. “A gente tem que seguir e eu tenho fé que a situação pode melhorar.”
Sobrevivendo em meio à tempestade
Assim como acontece com Camila Ckless, da Guria, apesar de toda a dificuldade do cenário atual, a ideia de desistir nem passa pela cabeça da também empresária Adriana Dranoff, designer e sócia-diretora da Planet Sea, marca há 26 anos nos EUA. A Planet Sea atua apenas no atacado, e enfrenta desafios ainda maiores por estar em um nicho bastante específico, o de moda praia infantil.
“Estamos tentando andar pela sombra e buscando nos proteger quando vêm as tempestades”, compara. “O mercado simplesmente não aceita nenhum aumento de preço no infantil. Os pais deixam de comprar”, revela.
A saída, no caso de Dranoff, foi rever toda a sua cadeia produtiva e logística, a fim de reduzir custos. Se antes sua fabricação era feita em São Paulo e no Rio de Janeiro, agora acontece em Pernambuco, Paraíba e Piauí. Da mesma forma, os embarques vêm sendo negociados, buscando as melhores alternativas logísticas. “Estou bastante preocupada com a situação atual. Temos feito o máximo para ter um controle maior da nossa cadeia, mas os valores subiram muito. O Custo Brasil impacta bastante; em outros lugares conseguiria fabricar com um terço do custo que tenho no Brasil”, diz.
Se o produto brasileiro sempre sofreu na questão de preço para mercadorias asiáticas, vindas de localidades como Vietnã, China e Bangladesh, agora chega a ter problemas até com uma concorrência nada tradicional nesse quesito. “Temos visto itens vindos até de Portugal com um custo melhor que o nosso”, conta a sócia-diretora da Planet Sea.
De acordo com dados levantados pelo programa Texbrasil, os Estados Unidos importaram aproximadamente US$ 837 milhões em artigos de moda praia em 2025, 72% das compras foram de maiôs e biquínis de malha com fibras sintéticas. Enquanto o país da América do Norte foi o principal destino das exportações brasileiras do setor, o Brasil foi apenas o 17º entre os maiores fornecedores do mercado norte-americano. O custo ajuda a explicar essa situação. No ano passado, o preço médio pago pelos EUA nas importações do setor foi de US$ 25,84 o quilo. Os mesmos produtos, vindos do Brasil, em igual período, custaram US$ 43,08 para os americanos.
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IMAGEM: Miami SwimShow/divulgação

