Tarifas de Trump buscam dominação política e não reequilíbrio comercial, diz Abraham Newman

Para o cientista político de Georgetown, o Brasil virou alvo prioritário devido à lógica "neomonarquista" do governo americano, que usa o comércio para extrair concessões, blindar aliados e beneficiar o círculo de poder de Trump

Agência Brasil
20/Jul/2026
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Tarifas de Trump buscam dominação política e não reequilíbrio comercial, diz Abraham Newman

As tarifas adotadas por Donald Trump deixaram de ser um instrumento para reequilibrar o comércio internacional e passaram a funcionar como uma ferramenta de pressão política. A avaliação é do cientista político Abraham Newman, professor da Universidade Georgetown, para quem o governo americano utiliza a política comercial para enfraquecer adversários, beneficiar aliados e ampliar sua capacidade de impor exigências a outros países.

Newman diz que o Brasil exemplifica essa mudança de lógica. Apesar de os Estados Unidos registrarem superávit comercial na relação bilateral, o país se tornou um dos principais alvos das tarifas por motivos que vão além da economia.

O pesquisador afirma que a aproximação entre Trump e a família Bolsonaro ajuda a explicar parte dessa estratégia, embora avalie que ela possa acabar fortalecendo politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para ele, Trump não busca negociar um novo equilíbrio nas relações comerciais. "O objetivo não é redefinir a relação. O objetivo é criar um sistema de dominação", diz. Para ele, a sucessão de ameaças tarifárias funciona como um mecanismo permanente para obter concessões de governos estrangeiros.

Newman, que falou com a reportagem após o novo tarifaço de 25% contra o Brasil, diz que agora é o momento de o governo atuar para ajudar setores e, no longo prazo, olhar para outras potências comerciais em busca da promoção de "um sistema de comércio baseado em regras previsíveis de interação, fundamentado não na coerção, mas na prosperidade coletiva".

Como o senhor avalia o impacto geral da política tarifária do governo Trump até agora?

Abraham Newman - Essas tarifas não têm realmente a ver com manufatura. Existem narrativas dizendo que esse é o objetivo, mas, na verdade, elas estão relacionadas a objetivos políticos. Seja para arrecadar dinheiro para compensar os cortes de impostos, atingir adversários políticos ou extrair recursos em benefício de aliados próximos de Trump, há uma série de impactos envolvidos. Mas não se trata de reequilibrar o déficit comercial como um todo.
O Brasil é um caso perfeito. Os Estados Unidos têm superávit comercial com o Brasil. Portanto, não faz muito sentido mirar o Brasil ao mesmo tempo em que se elevam tarifas contra a China, por exemplo.

O governo Trump demonstrou disposição para recorrer repetidamente às tarifas como instrumento de política pública. Governos e empresas ao redor do mundo já devem partir do princípio de que as tarifas vieram para ficar, pelo menos durante o governo Trump?

Os Estados Unidos não querem mais subsidiar um sistema global de comércio para o resto do mundo. E isso não é apenas um fenômeno do Trump. Quando o governo Biden estava no poder, manteve muitas das tarifas impostas pelo primeiro governo Trump. Também aplicou medidas contra a China e criou uma série de controles de exportação sobre semicondutores.

A ordem multilateral de comércio aberto que existia anteriormente, eu não acho que exista muito apoio político para ela, nem entre democratas nem entre republicanos. E acredito que os próprios americanos, em geral, perderam a confiança na OMC (Organização Mundial do Comércio) e na ideia de que deveria haver simplesmente livre-comércio.

A diferença é que o atual governo Trump utiliza essas ferramentas para aquilo que eu chamaria de interesses políticos paroquiais. Ou seja, para enfraquecer adversários políticos e extrair benefícios para pessoas próximas ao governo. O governo Biden estava realmente tentando conter a China. Isso é algo bastante diferente.

O Brasil se tornou um dos principais alvos das tarifas americanas. Depois dessa tarifa de 25%, passamos a ser o segundo país com as maiores taxas, atrás apenas da China. Por que o senhor acha que o Brasil se tornou o novo foco? E por que agora?

Acho que parte disso se deve ao fato de que o governo está procurando novas maneiras de restabelecer tarifas. Em parte porque precisa dessa arrecadação para lidar com as pressões orçamentárias criadas pelos próprios cortes de impostos. Então veremos uma série de novas tarifas sendo implementadas nos próximos meses com base nessas novas investigações da Seção 301.

Mas acho que o Brasil é um alvo principalmente porque o governo está usando essas ferramentas não apenas para reequilibrar fluxos comerciais, mas para atingir ou apoiar aliados políticos. Nesse caso, a família Bolsonaro foi muito ativa ao tentar convencer o governo americano, especialmente Trump, a pressionar o governo brasileiro.

Tenho um trabalho em que desenvolvo o conceito de neomonarquismo ("neo-royalist", em inglês), segundo o qual caminhamos para um mundo em que a política deixa de ser guiada pelos interesses nacionais e passa a ser orientada pelos interesses de líderes personalistas e de seu círculo mais próximo. Acho que o Brasil está exatamente no centro dessa realidade.

O caso dos EUA com o Brasil pode ser explicado por esse conceito?

É um exemplo bastante apropriado. A ironia é que, pelo menos neste momento, não tenho certeza de que esses esforços realmente ajudem a família Bolsonaro em um momento politicamente tão sensível. Talvez no início do governo Trump isso pudesse ter prejudicado a popularidade de Lula.

Agora, acredito que Lula utilizará isso para dizer que está enfrentando Trump. Portanto, acho que o momento talvez não seja o mais útil. Para Trump, porém, isso faz parte de uma campanha contra adversários e de uma tentativa de demonstrar domínio.

Você vê isso na escolha dos alvos no caso brasileiro. O foco está no sistema de pagamentos, nos serviços digitais, nas discussões sobre liberdade de expressão no Brasil. Essas não são questões comerciais tradicionais. Na verdade, trata-se de atacar áreas nas quais o Brasil tenta manter independência em relação aos interesses do círculo próximo de Trump.

O objetivo não é criar um novo equilíbrio. É criar uma sequência constante de exigências cada vez maiores. Basta observar o que aconteceu com a Europa. A Europa fechou um acordo com os Estados Unidos, que inclusive foi ratificado pelos parlamentos europeus. Mas isso não impediu o governo Trump de apresentar novas ameaças. Se a Espanha fizer determinada coisa, haverá novas tarifas. Se houver novas regulações digitais, haverá novas tarifas. Ou seja, o objetivo não é redefinir a relação. O objetivo é criar um sistema de dominação e extração. [É como se ele dissesse:] "Você me dá alguma coisa. E, se me der alguma coisa, eu vou pedir mais. Por que eu deixaria de pedir?"

O que o Brasil deveria fazer a partir de agora?

Este é um novo jogo, jogado sob regras diferentes. Não faz sentido tratar essa situação como uma negociação comercial típica dos anos 2000. Em vez disso, trata-se de um movimento relacionado a poder e influência.

No curto prazo, o governo deve atuar de forma ativa para ajudar os setores mais afetados a redirecionarem seus produtos para outros mercados. Foi exatamente isso que a Austrália fez quando enfrentou a pressão da China e, no fim, Pequim foi obrigada a recuar. O Brasil também está em uma posição singular, pois é um comprador líquido de produtos dos Estados Unidos, o que pode ser usado como instrumento de pressão.

No longo prazo, o Brasil tem a oportunidade de trabalhar com outras potências regionais -como a União Europeia, o Japão e a Austrália - para promover um sistema de comércio baseado em regras previsíveis de interação, fundamentado não na coerção, mas na prosperidade.

E, no caso do Brasil, além da vantagem política, o senhor acredita que Trump também busca outros objetivos estratégicos ou geopolíticos mais amplos?

Acho que existem dois aspectos. Um é o político, ligado à relação paralela com Bolsonaro. Mas existe um outro aspecto político, que diz respeito à forma como mercados e governos devem organizar suas sociedades.

Trump tem um conjunto de interesses fortemente apoiado por empresários da tecnologia, especialmente do Vale do Silício, que reagem contra intervenções nos mercados digitais. Eles também querem maximizar sua influência sobre as infraestruturas tecnológicas. É por isso que tanto a regulação de conteúdo quanto essas outras questões se tornaram pontos de atrito.

A regulação digital também toca na questão Bolsonaro, porque foi utilizada contra a extrema-direita na política brasileira. Mas trata-se de um tema muito mais amplo. Se você observar a narrativa do governo americano, verá que eles dizem coisas muito semelhantes sobre a regulação digital europeia.

Portanto, isso não diz respeito apenas a Bolsonaro como aliado político. Também envolve uma disputa maior sobre quem controla as infraestruturas financeiras e digitais. E essa é uma tentativa de pressionar o Brasil.

O senhor espera que essa estratégia tarifária acelere a integração econômica regional? Blocos como o Mercosul podem sair fortalecidos à medida que os países buscam alternativas ao mercado americano?

À medida que os Estados Unidos recuam dos esforços em favor do livre-comércio, temos visto um aumento significativo da integração regional. A Europa, por exemplo, vem assinando acordos com Indonésia, Japão, Índia e Mercosul. Na verdade, acelerou rapidamente seus esforços nessa área, em grande parte por causa das políticas de Trump. O mesmo vale para o Japão, que passou a ocupar uma posição central em diversas iniciativas de integração regional.
A questão para a América Latina é outra. Historicamente, a região sempre olhou para os Estados Unidos como seu principal mercado. Então, qual será o caminho daqui para frente? A aproximação será com Europa e Japão? Ou com a China? Isso me preocupa caso a resposta seja China. Porque tudo o que eu disse sobre Trump e os Estados Unidos poderia ser aplicado igualmente à China. A China também poderia jogar exatamente esse mesmo jogo.

O senhor acredita que já estamos vendo distorções importantes no comércio internacional, nos investimentos ou nas cadeias globais de suprimentos como consequência dessas tarifas?

Sabemos que não estamos vendo um renascimento da indústria manufatureira nos Estados Unidos. Não há evidências de que os empregos industriais tenham crescido rapidamente por causa das tarifas. Também há muitos relatos de empresas preocupadas com o ambiente de investimentos. Especialmente empresas internacionais, que não sabem se devem ampliar seus investimentos.

Outra consequência que já observamos é o desvio de comércio. Empresas chinesas estão instalando fábricas no Vietnã, por exemplo. Assim, o comércio entre Estados Unidos e China diminuiu em alguns setores, mas aumentou muito com o Vietnã e outros países. Portanto, existem, sim, distorções acontecendo. As tarifas nunca tiveram como objetivo promover eficiência econômica. Porque esse nunca foi o propósito delas.

Olhando para o quadro geral, quem parece ser o maior beneficiário da estratégia tarifária do governo Trump? Os Estados Unidos são os grandes vencedores?

Trump e seu círculo mais próximo foram enormemente beneficiados por essa estratégia. Se você observar o conjunto de concessões que eles obtiveram, é algo impressionante.
Veja o caso do Vietnã. Às vésperas das negociações comerciais com os Estados Unidos, o país autorizou um enorme campo de golfe da Trump Organization. Portanto, não devemos pensar apenas em vencedores e perdedores nacionais. Também existe um grupo de pessoas próximas ao poder que está se beneficiando diretamente.

Em termos mais tradicionais, um dos vencedores tem sido a China. Ela simplesmente observa enquanto os Estados Unidos deterioram sua credibilidade diante de seus principais aliados.
Os EUA ameaçam repetidamente a Europa. A Europa estava preparada para endurecer sua posição em relação à China nos próximos anos. Agora, isso se tornou muito mais difícil, porque ela está sendo pressionada de um lado pela China e, do outro, pelos Estados Unidos. O mesmo raciocínio vale para Tailândia, Indonésia e outros países. Muitos deles estariam bastante dispostos a apoiar uma ordem internacional baseada no comércio e teriam os Estados Unidos como referência. Mas agora estão sendo empurrados para longe desse tipo de futuro. Isso é interessante.

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