Antes do recesso, um sussurro
O Congresso esvaziou e Brasília baixou a voz. Em tom de sussurro, pergunto ao leitor: quem leva o posto de protagonista do semestre?

O Congresso entra em recesso, Brasília muda de volume. Os painéis se apagam, os corredores esvaziam, os discursos esperam agosto. Sobra o silêncio, que por aqui nunca é vazio: é o horário nobre das conversas que não são para todos. Eu sou dos que aproveitam para olhar o retrovisor e fazer as minhas próprias observações. Desta vez, reflito sobre quem leva o posto de protagonista em Brasília no semestre que acaba, mas sob uma régua um tanto quanto específica: a do poder. Quem mostrou mais capital político?
Para começo de conversa, este foi o semestre em que o Executivo perdeu o comando da agenda do País. O governo abriu o ano com o pior apoio na Câmara de todo o mandato e reagiu com uma agenda de popularidade que, no papel, até que funcionou – subsidiou o diesel, renegociou dívidas, propôs um teto novo para o MEI e abraçou o fim da escala 6x1, mobilizando diversos setores. O que deixou de existir foi a capacidade de transformar tudo isso em lei sem pedir licença.
Na economia, quem é governista até tem o que contar: o desemprego está no piso da série histórica para o período e a arrecadação bate recorde atrás de recorde. Sob outra ótica, a inflação voltou a rodar acima do teto da meta, a atividade desacelera sob juros no patamar mais alto em quase vinte anos, as famílias batem recorde de endividamento e inadimplência, e a dívida pública cruza a marca de 80% do PIB. Que os otimistas não me levem a mal, mas entendo perfeitamente quem diga que a economia azedou. E é nesse azedume que a balança do poder pende, cada vez menos, para o lado do governo.
Imagino que devam pensar que eu já tenha descartado qualquer pessoa do governo no papel de protagonista, certo? Isso mesmo, estão certíssimos.
Também descarto o Supremo da disputa, sem cerimônia, e explico o porquê: nenhuma instituição sai fortalecida de um semestre centrado na defensiva. O Tribunal atravessou um dos maiores escândalos da sua história, com Ministros citados no noticiário e uma relatoria trocando de mãos por constrangimento. Assistiu ao relatório final de uma CPI pedir o indiciamento de três dos seus, parecer que a comissão só derrubou depois de uma troca de integrantes na véspera da votação. Convive com 80 pedidos de Impeachment que se acumulam na gaveta da Presidência do Senado. O detalhe mais eloquente, porém, é o mais simples: o Supremo termina o semestre incompleto, com dez cadeiras ocupadas, porque a indicação para a décima primeira foi rejeitada e nenhum nome novo prosperou até o recesso.
No Congresso, a perspectiva é um pouco diferente. Os dois Presidentes que ali vivem não dependem de manchete de economia: comandam um Legislativo com orçamento próprio, decidem o que é votado ou o que não será, e têm, em especial em ano eleitoral, um governo que precisa deles muito mais do que eles precisam do governo. Arsenal importante na mão de quem, em outubro, não será julgado pelo preço do arroz, mas pela emenda que virou asfalto no seu estado base.
Entre os dois, aliás, o tira-teima é honesto. O presidente da Câmara, Hugo Motta, fez um semestre grande: entregou a votação mais expressiva do ano, destravou pautas que dormiam há anos e estreitou com um aliado importante, o Presidente da República. Se a régua fosse produtividade, o troféu com certeza seria dele. Mas a régua é poder, e aí a assimetria aparece: para andar, Motta precisou votar, e cada votação racha o plenário e deixa fatura. O seu vizinho, no caso, precisou apenas esperar. E esperar não racha nada, não deve nada e ainda valoriza tudo o que ficou preso na gaveta. Há ainda o detalhe cruel do trajeto: quase tudo o que a Câmara aprovou com estrondo foi parar na mesa do outro lado, à espera de carimbo.
Sim, é dele, do nosso protagonista que estamos falando. O homem do maior capital político do ano de 2026, nosso Presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Aconteceu na noite de 29 de abril. Minutos antes do painel do Senado registrar uma derrota histórica do governo, o Presidente da Casa se inclinou até o líder governista e avisou, num sussurro, que a indicação de Jorge Messias ao Supremo ia perder por oito votos. O painel acendeu: 42 a 34. Oito, cravados. Alcolumbre abraçou o derrotado e deixou o plenário. Registro, portanto, que não fui eu que escolhi o tom deste texto: os créditos são todos dele.
A rejeição de Messias, a primeira de um indicado presidencial ao Supremo desde 1894, foi apenas a peripécia mais vistosa. Mas o protagonismo dele no semestre é feito de agendas que, na verdade, não aconteceram. E é justamente isso que o diferencia dos demais personagens desse jogo.
Comecemos pela CPI do caso Master, o caso mais didático. O requerimento reuniu assinaturas de sobra, mas entre a assinatura e a instalação existe um ato mínimo, quase burocrático: a leitura do requerimento em plenário. Quem lê é o Presidente. Alcolumbre simplesmente não leu. O bastidor explica o silêncio: num escândalo que respinga em governo, oposição, centrão e Supremo ao mesmo tempo, o Presidente da Casa prestou a todos o serviço de segurar sozinho. Cobram-lhe em público o que lhe agradecem no cafezinho.
Depois, a 6x1. A PEC atravessou a Câmara com 472 votos e chegou ao Senado embalada por sete em cada dez brasileiros. Pela lógica da urna, era imparável; pela lógica da mesa, parou. O despacho à comissão, um carimbo que se dá em minutos, já leva semanas. O bastidor, aqui, é anterior: a relação com o Planalto já não é a mesma há um tempo e, desde a vaga do Supremo, quando ele defendia outro nome e avisou o Planalto do risco, a relação com o governo azedou de vez. O desfecho disso tudo alguns já previam, outros ainda eram céticos quanto à coragem do nosso protagonista: no fim do semestre, a pauta mais popular do ano segue guardada num cofre que não pertence ao governo.
E há o caso mais silencioso dos três: os pedidos de impeachment contra Ministros do Supremo, que se acumulam às dezenas na mesa dele. Cabe só ao Presidente do Senado decidir se um dia serão lidos. Ele não os pauta; repare, porém, que também não os arquiva. Nessa fresta mora uma das relações de poder mais finas de Brasília: um pedido de impeachment engavetado vale mais do que um votado. Votado, ele se gasta num placar; engavetado, é uma espada permanente, e quem segura o cabo é um homem só. Não por acaso, o Supremo tentou mexer no rito de impeachment e teve reação do Senado em bloco raro.
A lista segue, mais discreta: o programa de datacenters, prioridade do governo, morreu de prazo à espera de pauta; a PEC da autonomia do Banco Central tem parecer pronto e segue sem calendário.
Nenhum desses casos rendeu manchete de capa, mas ele esteve lá, em todos esses não-acontecimentos. Em ano eleitoral, o segundo semestre legislativo é ficção: entre convenções e campanha, o que não passou até julho não passa em 2026. A lista do que não existiu diz mais sobre o poder no Brasil do que a lista do que foi aprovado, e todos os itens têm a mesma caligrafia. O ponto não é o mérito do que dorme na gaveta: é quem ficou com a chave.
O cargo dá a ele o controle da pauta. Mas nosso protagonista é muito mais do que isso. É o faro de quem canta placar de votação secreta no ouvido do adversário, o carisma calibrado para um público de exatas 81 pessoas e vinte anos de entregas que construíram, gabinete a gabinete, lealdades que discurso nenhum compra. Enquanto o País inteiro disputa outubro, ele disputa fevereiro, quando um Senado que ainda não existe, com 54 cadeiras novas, decidirá sua recondução. Cada gesto deste semestre também foi isso: campanha. Em outubro, na noite da apuração, o País vai esperar um nome no painel da televisão; ele vai esperar outros 54. E sobre essa, a de fevereiro, arrisco um único palpite: conhecendo o personagem, o resultado chegará ao ouvido de alguém num sussurro, e o derrotado ganhará um abraço.
Era o que eu tinha para contar antes de Brasília voltar a falar alto. Pode passar adiante. Só não levante a voz.
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