Vestuário, calçados, máquinas: impacto do novo tarifaço em quem ficou de fora da lista de exceções

Relações comerciais com os EUA cada vez mais deterioradas devem trazer prejuízos de mais de US$ 11 bilhões aos exportadores brasileiros

Estela Cangerana, dos Estados Unidos
16/Jul/2026
  • btn-whatsapp
Vestuário, calçados, máquinas: impacto do novo tarifaço em quem ficou de fora da lista de exceções

Setores que ficaram de fora da lista de exceções do novo tarifaço confirmado na noite de quarta-feira (15) pelos Estados Unidos estão refazendo os cálculos do prejuízo, enquanto ainda aguardam que o diálogo possa prevalecer entre os dois países. A Câmara Americana de Comércio (Amcham) estima que a nova medida deve afetar US$ 11 bilhões em exportações indústrias e do agronegócio brasileiro. O impacto, porém, deve ser muito diferente entre os setores.

Vestuário, calçados, máquinas agrícolas e industriais, etanol, açúcar orgânico e papel são alguns dos penalizados pela taxa de 25%, aplicada após a conclusão da investigação comercial da Seção 301 sobre práticas desleais do Brasil. Vários desses setores já haviam sofrido com a taxação adicional de 40% imposta no ano passado e derrubada em fevereiro último. Livres da penalização anterior, esperavam uma retomada, ainda que lenta, dos negócios até o final de 2026.

É o caso da indústria calçadista, que após um início de ano ruim, enxergava estabilidade no segundo semestre. Agora, as expectativas voltaram a se deteriorar. Com a entrada em vigor da nova tarifa de 25%, a Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados) projeta uma piora de 3,5 pontos percentuais nas exportações totais do ano. Se antes calculava uma retração média de 3,6% nesses embarques, esse percentual passou para 7,1% ao final de 2026.

Os Estados Unidos são o principal destino do setor no mercado externo. “A aplicação desta tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos EUA e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde fevereiro deste ano”, afirma Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados. “Trata-se de uma medida que penaliza não apenas os exportadores brasileiros, mas também importadores, marcas, varejistas e consumidores norte-americanos, dada a interdependência produtiva e comercial entre os dois países.”

A associação participou das audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR na semana passada, ao lado de representantes da Footwear Distributors and Retailers of America (FDRA), da American Apparel & Footwear Association (AAFA), da United States Fashion Industry Association (USFIA), além de importadores e varejistas norte-americanos, representados pelo JPT Group LLC Bernardo Footwear e Dillard’s Inc.

Segundo Ferreira, eles alegaram que “o diferencial tarifário que se amplia entre o calçado exportado pelo Brasil e demais países exportadores reforçará a concentração das compras norte-americanas em origens já dominantes, especialmente asiáticas, em sentido contrário aos interesses dos Estados Unidos de diversificação, resiliência e segurança das cadeias de suprimentos”. Atualmente, os EUA consomem 2 bilhões de pares de calçados por ano, e produzem apenas 1% disso, 20 milhões de pares.

Vestuário

No setor de vestuário, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) também vem mostrando preocupação. Em nota, a instituição ressaltou que “medidas dessa natureza (tarifação) aumentam a insegurança no comércio internacional, reduzem a competitividade das empresas e geram impactos sobre investimentos, produção, emprego e integração das cadeias produtivas”.

Assim como no setor de calçados, os EUA são o principal parceiro do Brasil no ramo de vestuário. “Brasil e Estados Unidos mantêm uma longa e relevante relação econômica e comercial, construída ao longo de décadas, que sempre se caracterizou pelo diálogo e pela complementariedade em diversos setores”, reforça a Abit.

Em alguns segmentos, como a moda praia brasileira, o mercado norte-americano chega a representar mais de um terço do total exportado para o mundo. Em 2025, dos quase US$ 10 milhões de mercadorias de moda praia vendidos ao mercado externo, 35% foram para lá. O número, porém, já representa uma queda em relação a 2024, quando o percentual atingiu 40%. Agora, a situação tende a ficar ainda pior.

Máquinas

Os EUA são, ainda, o principal parceiro do Brasil no ramo de máquinas e equipamentos, em uma relação de forte interdependência produtiva, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Segundo dados levantados pela entidade, a balança do setor em 2025 registrou US$ 3,2 bilhões em vendas brasileiras para os norte-americanos e US$ 4,8 bilhões no sentido contrário, evidenciando essa ligação.

Em nota, a Abimaq lembra que “parcela significativa desse comércio ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico (intercompany), refletindo investimentos produtivos realizados por empresas norte-americanas no Brasil e por empresas brasileiras nos Estados Unidos. Nesse contexto, a elevação de tarifas tende a aumentar custos, reduzir a competitividade, comprometer investimentos e afetar a eficiência das cadeias produtivas instaladas nos dois países, produzindo efeitos que vão além da relação comercial.”

Exposição

A preocupação apresentada pelas instituições reflete as disparidades da exposição brasileira à dependência de determinados mercados. Levantamento feito pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) revela como o redesenho dos fluxos de comércio exterior brasileiro é irregular.

O estudo mostra que certos tipos de madeira de coníferas são o artigo com maior vulnerabilidade, com 97,6% de todas as suas exportações destinadas aos EUA, seguidos por sebo bovino (96,1%), filés de tilápia (94,3%) e mel natural (84%). Do outro lado, açúcar e etanol têm exposição de apenas 2,6% ao mercado norte-americano, revestimentos cerâmicos possuem 18,3% e couros registram 14%.

No geral, as vendas para os EUA vêm caindo ano a ano, enquanto crescem os embarques para a China. Em 2002, os EUA eram o principal parceiro do Brasil, com 27,5% do total embarcado, posição que perdeu em 2008 para China, em uma curva que continuou se intensificando. Em 2025, a China recebeu 28,9% de todos os embarques brasileiros, enquanto o segundo colocado, os EUA, ficaram com apenas 12,1%, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

Efeitos no mercado

“Os setores mais expostos continuam sendo aqueles com elevada dependência do mercado americano e menor flexibilidade para redirecionar suas exportações. Nesses segmentos, a medida pode pressionar margens, reduzir competitividade e exigir renegociação de contratos ou abertura de novos mercados”, afirma o consultor Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset. “Empresas mais expostas às tarifas, com margens pressionadas, maior alavancagem ou elevada dependência de capital de giro podem enfrentar maior seletividade e custo de financiamento”, alerta.

Segundo o analista, o principal fator a ser acompanhado daqui para frente não será apenas a tarifa em si, mas a capacidade de adaptação das empresas de suas cadeias comerciais, de diversificação de mercados e preservação de rentabilidade. “É essa capacidade de adaptação que deve definir quais companhias sairão mais fortalecidas desse novo cenário”, conclui.

 

IMAGEM: DC

O Diário do Comércio permite a cópia e republicação deste conteúdo acompanhado do link original desta página.
Para mais detalhes, nosso contato é [email protected] .

 

Store in Store

Carga Pesada