Entregador cria app para mapear atrasos de restaurantes
Edinilton Matos criou o Grana Certa, uma plataforma que ajuda entregadores a prever o tempo de espera no balcão e já alcança 85 cidades

Poucos fatores são tão determinantes para o lucro de um entregador de aplicativo quanto o tempo. Nas ruas, o profissional aceita a corrida calculando a distância e o valor do frete, partindo da premissa de que o pedido estará pronto no balcão. Mas nem sempre essa expectativa vira realidade.
Em média, a cada dez corridas, duas podem acabar em uma espera forçada de 20 a 40 minutos na porta do estabelecimento – tempo esse que, além de não remunerado, ainda corrói a produtividade do trabalhador.
Foi justamente para dar visibilidade a esse gargalo que o entregador Edinilton dos Santos Matos, de 22 anos, desenvolveu o aplicativo Grana Certa. Programador autodidata, ele lançou o aplicativo oficialmente no início de junho para funcionar como uma espécie de termômetro em tempo real da eficiência logística dos restaurantes, permitindo que os entregadores saibam o tempo médio de espera antes mesmo de aceitarem a rota.
"Todo entregador pensa que o problema é a rota, mas, na verdade, é a espera na loja", diz.
Mesmo sem investimento em tráfego pago, ele diz que o aplicativo viralizou organicamente no LinkedIn e em grupos de mensagem. Hoje, a plataforma já monitora 2,3 mil estabelecimentos e conta com uma base inicial de 200 entregadores ativos, espalhados por 85 cidades em 20 estados.
Atualmente, Matos divide a sua rotina em três turnos: roda pelas ruas de São Paulo como entregador pela manhã, dedica as tardes ao desenvolvimento do código e retorna às entregas durante a noite para custear o projeto. "Me sustento com as entregas", conta o desenvolvedor, que investe cerca de R$ 1 mil mensais do próprio bolso para manter a infraestrutura digital do aplicativo (servidores em nuvem, cursos e ferramentas de automação). O primeiro passo para o desenvolvimento veio há cerca de três meses, impulsionado pelo avanço das ferramentas de IA.
Apesar de tocar em uma dor de grandes plataformas, ele explica que o Grana Certa roda de forma totalmente independente e sem integração com a API do iFood ou do Rappi. O aplicativo reconhece a tela de chegada do iFood no celular do entregador para registrar o check-in e o check-out no restaurante. Por isso, ele indica que o tempo de espera não pode ser burlado porque a operação não é manual.
Esses dados, que vão sendo gerados espontaneamente pela comunidade de entregadores do Grana Certa, começam a traçar um mapa inédito do setor de food delivery. De acordo com os registros do app, o maior problema da operação não está necessariamente no restaurante em si, mas na oscilação dos fluxos ao longo do dia. “No horário do almoço, o fluxo de expedição flui com velocidade; por volta das 14h, a operação registra um travamento severo, voltando a se equalizar uma hora depois."
O modelo de negócios do estabelecimento também dita o ritmo da entrega, segundo Edinilton. Ele aponta que restaurantes que operam exclusivamente no modelo de dark kitchens (apenas para entrega) são significativamente mais rápidos. Já as casas que dividem a atenção entre o salão e o delivery tendem a preterir o fluxo da rua.
Nesse viés, o entregador revela que hamburguerias e culinária japonesa lideram os atrasos. Nomes como Z-Deli, Poke Garden e a padaria Villa Grano costumam demorar até 15 minutos para despachar a comida. De acordo com o entregador, redes como o McDonald's enfrentam desafios puramente logísticos de fluxo de balcão, enquanto operações de hamburguerias artesanais e culinária japonesa sofrem pela complexidade e tempo natural de preparo dos pratos.
Embora exponha publicamente as fraquezas operacionais dos restaurantes, ele acredita que a ferramenta tenha muito potencial para ser recebida por parte do mercado como uma ferramenta pedagógica.
"Alguns donos de restaurantes, como o do Vip Sushi, têm se mostrado super abertos. Eles enxergam o aplicativo como um indicador importante para melhorar os processos internos da própria cozinha", afirma o fundador.
A movimentação nas redes sociais também já acendeu o radar das grandes empresas do setor, já que suas publicações geraram conversas internas dentro do iFood, embora o gigante do delivery ainda adote uma postura de observação, ele diz.
"O iFood equilibra três pratos: o cliente, o restaurante e, por último, o entregador. Criar uma funcionalidade interna que mostre a demora não é a prioridade imediata deles, porque o foco é a retenção de quem compra. Se eles forem incorporar essa tecnologia no futuro, será depois que eu já tiver testado e validado o modelo nas ruas", analisa.
Atualmente gratuito, ele diz que, no momento, o Grana Certa foca no adensamento de dados para a resolução de outras dores da categoria, como o tempo de retenção de entregadores em portarias de grandes condomínios residenciais e empresariais, que costumam segurar os entregadores por mais de 15 minutos.
Ainda que a monetização tenha ficado para uma segunda fase, Matos diz seguir a dinâmica do ecossistema de startups e não esconde que sua meta final é a venda da tecnologia. Após a repercussão do projeto, o jovem já abriu conversas para atrair um cofundador institucional para desenhar a segurança jurídica do negócio e preparar a empresa para rodadas de investimento.
"O intuito é mostrar que essa oferta está validada, escalar, pegar investimento e vender o negócio. Quero usar essa bagagem para criar algo ainda maior no futuro".
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