Estratégia multimarca ganha força, mas exige clareza de crescimento
Para evitar a perda de identidade e a competição interna, a expansão por meio de múltiplos portfólios exige arquitetura clara, governança rígida e diferenciação real entre os públicos

A estratégia multimarca deixou de ser assunto de grandes grupos e virou alternativa concreta de crescimento para empresas de portes muito diferentes. Não porque ter mais marcas virou moda. Porque expandir deixou de ser sinônimo de levar a mesma marca para mais lugares.
A disputa ficou mais fragmentada. O consumidor decide por critérios que mudam de uma categoria para outra, os canais se multiplicaram e mercados antes tratados como um só passaram a cobrar propostas de valor distintas. Uma marca só, esticada além do seu território natural, tende a perder o que a tornou relevante: nenhuma identidade atende bem a públicos e ocasiões que pouco têm em comum.
Construir marca forte segue sendo um dos maiores ativos de uma empresa. Ainda assim, crescimento e fortalecimento de marca nem sempre andam pela mesma estrada. Em muitos casos, preservar relevância passa por reconhecer o limite de uma marca e montar um portfólio que ocupe oportunidades diferentes sem diluir a identidade de cada negócio.
É aí que a lógica multimarca ganha sentido.
Com uma arquitetura clara, cada marca ocupa um território próprio. Uma conversa com o consumidor mais sensível a preço; outra entrega uma experiência especializada; outra opera em formatos compactos ou faz sentido em mercados regionais específicos. No franchising, o mesmo raciocínio abre espaço para modelos aderentes a perfis distintos de investidor e a diferentes momentos de expansão da rede.
O risco aparece quando novas bandeiras são tratadas como oportunidades avulsas, e não como peças de um desenho maior. Sem esse alinhamento, cresce a complexidade, marcas do mesmo grupo passam a competir entre si e recursos que poderiam sustentar vantagem competitiva se pulverizam.
Por isso a pergunta central não é quantas marcas uma empresa consegue administrar. É porque cada uma existe. Se a nova marca não ocupa um espaço claramente distinto, não atende o que a principal já não alcança, nem amplia a capacidade de competir, ela acrescenta complexidade, não crescimento.
Há um fator que costuma ficar em segundo plano e acaba decidindo o resultado: a governança. É ela que impede a expansão de destruir valor. Quanto maior o portfólio, mais importa separar o que se ganha compartilhando do que precisa permanecer exclusivo de cada bandeira. Tecnologia, inteligência de mercado, expansão, compras e desenvolvimento de pessoas rendem mais quando operam de forma integrada. Já posicionamento, proposta de valor e relação com o consumidor só se sustentam com identidade própria.
Encontrar esse equilíbrio talvez seja o maior desafio do modelo. Não basta enxergar a oportunidade de expansão. É preciso entender qual marca faz sentido em cada mercado, qual formato responde melhor ao potencial de cada região e qual proposta conversa com cada perfil de consumidor. Com frequência, posicionamentos diferentes convivem, de forma complementar, sob a mesma estrutura empresarial.
Mais do que um modelo de expansão, a estratégia multimarca é uma forma diferente de pensar crescimento. Crescer deixou de ser ampliar presença. Passou a ser a capacidade de ocupar mercados distintos sem perder identidade, coerência e foco competitivo, e de fazer com que cada marca, no seu lugar, some ao conjunto em vez de disputar com ele.
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