Presente e passados

Os registros deixaram de ser um meio de reviver lembranças no futuro para se tornarem fins em si mesmos: o ato de registrar convertido na própria experiência (ou talvez em uma não-experiência)

Vitor França
29/Mai/2026
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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Presente e passados

Dia desses, vivenciei uma experiência que deve ter soado banal para a grande maioria dos presentes, mas que me deixou bastante perplexo. Estávamos em uma cerimônia de casamento, em nada diferente até então das tantas a que já havia ido, quando o mestre de cerimônias convocou todos os convidados ao salão, para assistir a uma surpresa que os noivos carinhosamente prepararam.

No telão, esperava por aquela sessão de fotos antigas de sempre, a noiva e o noivo bebês, depois crianças, adolescentes, os primeiros anos de namoro, as viagens, a família, os amigos, o choro fácil. Fui surpreendido, contudo, por fotos e vídeos da própria cerimônia a que havíamos acabado de assistir, pelas cenas da festa que ainda estava acontecendo. 'Como assim?', indaguei a mim mesmo.

Não é novidade a crítica ao imediatismo e ao excesso de registros do nosso tempo, milhares de celulares gravando a mesma cena de um show, o mesmo quadro em um museu lotado, as mesmas luzes da Torre Eiffel na virada do ano. Os registros definitivamente deixaram de ser um meio de reviver lembranças no futuro para se tornarem fins em si mesmos: o ato de registrar convertido na própria experiência (ou talvez em uma não-experiência).

A distância entre o registro e a recordação, porém, nunca havia me parecido tão mínima quanto naquele casamento. Ainda estávamos ali na festa, afinal, mas assistindo ao registro de uma cerimônia a que havíamos acabado de assistir, alguém provavelmente registrando também essa sessão – o que deve ter virado um post nas redes sociais, os convidados na festa assistindo às cenas gravadas da cerimônia a que havíamos acabado de assistir.

Até hoje gosto de folhear o álbum de casamento dos meus pais. Adoro aquelas fotos cafonas, uma fila de versões repetidas do meu pai em frente a uma fila de versões repetidas da minha mãe; uma versão brava, enciumada do meu pai, olhando para a minha mãe, cujas mãos são seguradas por outro homem, que por acaso é também o meu próprio pai, em uma versão mais alegre. Em um tempo de escassez de registros e limitados recursos tecnológicos, aquelas fotos se davam ao luxo de serem também fantasia.

No álbum, há uma foto dos presentes de casamento espalhados na cama. O conjunto de porcelana com detalhes vermelhos e dourados, presente de uma tia-avó, irmã do meu avô paterno, nos acompanhou durante toda a minha infância e adolescência – e hoje guardo uma das últimas daquelas peças no armário lá de casa.

Naquele casamento da festa reprisada na própria festa, por sua vez, a lista de presentes não trazia objetos, mas experiências pasteurizadas como “drinks exóticos na praia” ou “um passeio ensolarado de barco”, que no fundo nada mais são do que uma forma de arrecadar recursos para os noivos gastarem como quiserem.

Talvez o dinheiro arrecadado até tenha virado mesmo “drinks exóticos na praia” ou “um passeio ensolarado de barco”, que também devem ter sido registrados em incontáveis fotos e vídeos – que um dia, quem sabe, até sejam assistidos por alguém. De material concreto, para compor a arqueologia familiar, porém, talvez nada tenha surgido de novo do casamento – e tudo bem.

Ou não. Quando começo a reconstruir memórias da minha infância e juventude, em um primeiro momento costumo ficar frustrado ao me dar conta do quão pouco me lembro. Mas, muitas vezes, são as lembranças de objetos, como aquele conjunto de porcelana, que funcionam como fios condutores nesse processo, exercendo papel fundamental na reconstrução de cenas e histórias, conforme relatei na crônica Passado e Presentes, aqui no Diário do Comércio – quando falei de presentes exóticos que tenho guardados com carinho na memória e das lembrancinhas das quais nem me lembro mais.

Tendo sido criança nos anos 1980 e 1990, não tenho tantos registros, fotos e vídeos da infância e juventude (especialmente quando comparados ao volume de registros dos últimos 10 ou 20 anos); sem falar na dificuldade de separar o que realmente aconteceu do que seria apenas imaginação da infância guardada como memória. O excesso de registros dos tempos atuais, por outro lado, parece deixar pouco espaço para a experiência, para os acontecimentos depois respirarem, deixarem lacunas, mistérios, serem esquecidos, para então serem reconstruídos como memória.

Quando o registro e a recordação se fundem, na verdade parece não haver mais recordação, mas apenas registro. Não lembramos mais das experiências, dos sabores, cheiros, impressões, sentimentos – revisitamos apenas o próprio registro, numa espécie de confinamento das lembranças. Nas lembranças confinadas, por sua vez, parece sobrar pouco espaço para o mistério e a imaginação. 

E muito mais valiosos que as recordações factuais são os sentimentos que as lembranças despertam - inclusive na forma de falsas recordações, como no poema “Feliz!” do Mário Quintana:

“Deitado no alto do carro de feno... com os braços e as pernas abertos em X... e as nuvens, os voos passando por cima... Por que estradas de abril viajei assim um dia? De que tempos, de que terras guardei essa antiga lembrança, que talvez seja a mais feliz das minhas falsas recordações?”


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