Não basta torcer e gritar: é preciso falar!
As oscilações da Seleção na Copa de 2026 nos convidam a encarar o futebol não como negócio ou meta, mas como o espelho de nossas próprias impossibilidades e paixões

Mantenho o hábito de ler tirinhas desde a juventude. Cresci acompanhando os cartunistas da Folha e é estranho ver a renovação, eles sendo trocados ou morrendo, não estando mais aptos a essa criação que é tão concisa. Da safra atual gosto muito do Andre Dahmer. Ele soltou esses dias um ser com duas cabeças que habitam o mesmo corpo: a razão e a emoção. Torço para que explore mais, até agora teve a razão reclamando que a emoção não a obedece e em outra, reclamando o quanto já passou de vergonha por causa dela. Não sei o que mais virá, como tampouco sei o que acontecerá com a seleção na Copa de 2026.
Escrevo essa coluna antes do jogo contra a Escócia, mas ela só vai ao ar depois da rodada das oitavas de final, pouco antes das quartas. Sobreviveremos até lá? Sinceramente não vejo futebol e nem vontade para chegarmos ao hexacampeonato, mas tampouco duvido que o futebol seja uma caixinha de surpresas... De um lado uma torcida saudosa de melhores momentos e carente de sentir-se melhor do mundo. É o futebol ainda uma paixão nacional? É possível paixão num setor que envolve números tão expressivos?
Fui ao Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, que se intitula o primeiro grande dicionário lacaniano: paixão – jubilatória ou dolorosa, entusiasta ou melancólica, extática ou colérica, toda paixão é desejo posto em tensão e emoções intensificadas, e até encenação dramatizada do que é experimentado, exigido, lamentado, esperado. No sentido do páthos, ela é, no entanto, mais subitamente sofrida que deliberadamente atuada.
De fato, é por não se possuir a si mesmo que um sujeito pode ser capturado por uma paixão que, se transborda os limites do eu, ou o leva à expansão narcísica ou o ameaça de dissolução. Em qualquer caso, o sujeito atravessa a cada vez um momento de fascinação em que é seduzido e em que o destino parece lhe acenar. Esse é o traço comum que permite identificar como paixão uma série de fenômenos: o enamoramento, a entrada em transe, a crença num oráculo, o encontro siderante, a excitação súbita, mas também a aposta do jogador, a obstinação do colecionador, etc.
Sugiro que releia a definição acima. Nunca tinha me detido em tantos aspectos da paixão. Sou um curioso sobre a duração desse estado, desconfio de quem se declara apaixonado por muito tempo o faz mais por obrigação do que sentimento, ela é fugaz, ainda que esse aspecto não esteja contido na definição. Brinco que tenho dúvidas se a métrica é dias, semanas ou meses. Mas é fato que ao entrar num estádio de futebol e ver um bando de loucos pulando, cantando, gritando e xingando, dá até para acreditar em paixão extensa. Mas se time é para a vida toda, com férias curtas, seleção não. E tem virado um negócio cada vez mais difícil de acompanhar, os clubes brasileiros participam pouco, tem se baseado mais no digital.
O país para para assistir o jogo da seleção, o país chora quando somos eliminados, o país não entendeu nada em 1998 e mesmo com tantas mudanças e confusões, queremos acreditar, precisamos acreditar. Se fosse uma empresa, estaria claro que a CBF não demoraria a pedir Recuperação Judicial, se vê pouca estratégia e visão de longo prazo, se tem mais improviso do que construção de uma meta em comum sendo comparada com o mercado o tempo todo.
E vivemos esse dilema de buscar equilíbrio entre razão e emoção em muitos lados de nossas vidas. A relação com o trabalho, a relação com nossos pares amorosos, com nossos familiares. Não é fácil não idealizar, encarar as coisas na dureza que são. Lacan tinha uma frase que não vira ditado popular nem foi incluída naquelas figurinhas do Amar é, disse ele “amar é dar o que não se tem a quem não o quer!”.
Assim de forma direta, essa impossibilidade, esse desencontro, o amor não é uma solução e sim uma tentativa de elaboração de algo impossível. Paixões nos movem, ainda que não garantam direção, não garantam chegada. Quem ainda não se lembra de toda a esperança que foi brutalmente eliminada naquele 8 de julho de 2014, poucos sabiam definir o que foi aquele atropelo.
Não vivi o tal maracanaço, mas vivi toda a impotência de explicar para a minha filha de então 10 anos o que tinha sido aquela situação vexatória, até hoje tendo a achar que foi 6 x 1, esquecendo que foram 7 gols. Foi um momento que mexeu com os corações de brasileiros, talvez tenhamos dado pouco espaço para a tristeza, pulamos para a vergonha e desde então não conseguimos nos vingar, não conseguimos botar uma pedra em cima e comemorar.
A contribuição da psicanálise é pelo não idealizar, pelo entender que há furos e impossibilidades com as quais precisamos lidar. A vida é diferente, não acontece num período determinado e onde um será ganhador e muitos outros ficarão pelo caminho. Ela é o dia a dia de treinos, sob sol e chuva, com contusões e fisioterapias, com regime e trabalhos, com novas táticas, uma tentativa de casar o racional e o emocional, de que aceitem ser impactados pela outra cabeça, uma possibilidade de aceitarmos nossa divisão, nossa necessidade de paixão, nossa impossibilidade de dar conta de tudo. Por isso é mais fácil torcer, esperar que outros acertem passes e façam a bula estufar a rede do adversário deixando a nossa segura. Nunca estaremos aptos a uma troca efetiva e completa, podemos dar o que temos, ampliar o que temos, mas nunca tendo o que queremos, vale se aproximar.
Se chegamos até aqui ou fomos eliminados eu não sei, se avançamos as fases, se estamos coletivamente tristes ou eufóricos, tampouco posso prever. Seremos campeões? Superados por quem? Doeu um bocado em 1982, aquele time encantou o mundo e não levou o caneco. Viver tem suas artimanhas e exige um tanto. Um conselho? Procure entender e lidar bem com seus desejos, sejamos ou não hexacampeões! Vale gritar, xingar, pular e cantar, mas encontre um tempo para por para fora partes do que habita o seu inconsciente!
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IMAGEM: Agência Brasil

