Inflação surpreende e fica abaixo das projeções em junho
O IPCA foi puxado para baixo pela queda dos preços do grupo alimentação e bebidas (-0,24%)

A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), desacelerou a 0,16% em junho, após marcar 0,58% em maio, apontou nesta sexta-feira, 10/07, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O resultado surpreendeu o mercado financeiro ao ficar bem abaixo das projeções de analistas.
A mediana das estimativas para junho era de 0,31%, conforme a agência Bloomberg. A taxa de 0,16% ficou abaixo até do piso das previsões coletadas pela agência (0,26%).
A variação de 0,16% é a menor para meses de junho em três anos, desde 2023 (-0,08%), no início do governo Lula (PT).
Segundo o IBGE, o IPCA foi puxado para baixo pela queda dos preços do grupo alimentação e bebidas (-0,24%). O recuo do segmento ocorreu após altas superiores a 1% nos três meses anteriores.
A baixa de 0,24% foi a maior de alimentação e bebidas para meses de junho desde 2023 (-0,66%).
O recuo foi mais intenso do que o previsto e, conforme analistas, explica grande parte da surpresa com o IPCA.
"As coletas já indicavam uma acomodação importante dos preços ao final de junho, mas esse movimento era esperado com mais força para julho", afirma o economista Leonardo Costa, da instituição financeira Asa.
Para o economista-sênior da Genial Investimentos, Gabriel Pestana, a surpresa com o IPCA foi "relevante e relativamente incomum", sobretudo porque as estimativas estavam "bastante concentradas".
"A composição [do índice] também foi favorável, com resultados melhores em alimentação, serviços e preços administrados. Além disso, a surpresa não ficou restrita a poucos itens voláteis, alcançando componentes importantes e mais persistentes da inflação."
IPCA segue acima do teto da meta
No acumulado de 12 meses, o IPCA desacelerou a 4,64% até junho. A variação era de 4,72% até maio.
Apesar da trégua, o índice ficou pelo segundo mês consecutivo acima do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central).
A meta é considerada descumprida quando o IPCA acumulado permanece por seis meses seguidos de divulgação fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto). O centro é de 3%.
Oferta e combustíveis aliviam alimentos
O grupo alimentação e bebidas teve a primeira queda desde o leve recuo em novembro de 2025 (-0,01%).
Conforme o gerente do IPCA, Fernando Gonçalves, a redução pode ser explicada por uma combinação de fatores.
A lista inclui maior oferta de parte dos produtos, devolução das altas anteriores e baixa dos combustíveis (-0,48%).
O óleo diesel, que abastece o frete rodoviário, mostrou reduções em junho (-1,19%) e maio (-2,34%). O insumo, contudo, ainda não compensou os fortes avanços de abril (4,46%) e março (13,9%).
Esses aumentos refletiram os impactos iniciais da guerra no Irã. O conflito provocou escalada das cotações do petróleo.
Dentro de alimentação e bebidas, a alimentação no domicílio mostrou redução em junho (-0,39%), após alta em maio (1,65%).
Houve influência das quedas do café moído (-3,72%), das frutas (-1,58%) e das carnes (-0,64%) no mês passado. Do lado das altas, o IBGE destacou o feijão-carioca (8,31%) e a batata-inglesa (3,57%).
A alimentação fora do domicílio, em locais como bares e restaurantes, ainda subiu em junho (0,15%). O avanço, porém, foi inferior ao de maio (0,49%).
A energia elétrica residencial também desacelerou. A conta de luz subiu 1,53% em junho, após avançar 3,67% na divulgação anterior.
Ainda assim, a energia exerceu a maior pressão individual do lado das altas no IPCA (0,06 ponto percentual).
A passagem aérea (0,05 p.p.) veio na sequência do ranking de impactos. Os bilhetes subiram 7,12% no último mês.
Guerra, juros e El Niño
Uma das questões no radar de analistas é a retomada dos ataques dos Estados Unidos ao Irã.
Com o fim do cessar-fogo, as incertezas sobre a guerra e os preços de commodities energéticas seguem em curso, diz Claudia Moreno, economista do C6 Bank.
"No Brasil, medidas adotadas pelo governo, como subsídios e redução de impostos, compensam parte dos efeitos desse cenário internacional sobre os preços. Mas o mercado de trabalho aquecido e a desvalorização do real tendem a manter a inflação pressionada no segundo semestre."
O C6 prevê IPCA de 5% em 2026. Apesar da surpresa gerada pelo índice de junho, a inflação ainda elevada, as projeções acima da meta e o emprego aquecido dificultam a redução da taxa básica de juros (Selic) pelo BC, segundo Claudia.
Na visão do C6, a Selic, atualmente em 14,25% ao ano, deve terminar 2026 em 14%, com apenas um corte adicional.
Gabriel Pestana, da Genial Investimentos, também prevê juros em 14% neste ano, mas avalia que o IPCA de junho "aumenta bem" a chance de a taxa ficar abaixo disso.
O El Niño é um dos riscos para a inflação a partir do segundo semestre. O fenômeno climático desafia o agronegócio ao alterar a distribuição das chuvas.
Conforme analistas, eventuais dificuldades para a produção de alimentos podem elevar os preços para o consumidor no final do ano.
Na mediana, as projeções do mercado financeiro indicam IPCA de 5,3% para o acumulado de 2026, conforme o boletim Focus mais recente, publicado pelo BC na segunda (6).
A estimativa recuou frente ao boletim da semana anterior (5,33%). Foi a primeira queda depois do início da guerra no Irã, que começou em 28 de fevereiro.
Inflação supera 5% em parte das metrópoles
O IPCA subiu 5% ou mais no acumulado dos 12 meses até junho em 4 das 16 capitais e regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE.
Foram os casos de Goiânia (5,41%), Aracaju (5,25%), Recife (5,24%) e Fortaleza (5%).
São Paulo (4,98%) e Vitória (4,97%) vieram logo na sequência. Curitiba, por outro lado, mostrou a menor inflação no mesmo período (3,61%).
IMAGEM: Newton Santos/DC

