Harmonização facial e desarmonização urbana

Por que o brasileiro se preocupa tanto com a estética corporal enquanto parece se importar tão pouco com a feiura das nossas cidades?

Vitor França
12/Jun/2024
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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Harmonização facial e desarmonização urbana

Acho que não é novidade para ninguém que o Brasil é um dos países onde mais são realizadas cirurgias plásticas no mundo. Sétimo mais populoso, com a nona maior economia do globo, em 2022 o país só ficou atrás dos Estados Unidos em número de cirurgias plásticas, segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. Em 2018 e 2019, de acordo com a mesma entidade, chegamos a ocupar a primeira posição – a qual, tenho certeza, não tardaremos a recuperar (vai, Brasil!).

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica estima que, em 2023, mais de 2 milhões de procedimentos devem ter sido realizados pelos brasileiros, sendo a lipoaspiração e o aumento da mama os dois mais procurados pelos pacientes.

Arriscaria dizer que não somente nas cirurgias plásticas, mas também nos procedimentos estéticos, de maneira geral, o Brasil deve ocupar uma posição bem destacada no ranking mundial. E, apesar de acompanhar pouco o tema, tenho notado que, entre os procedimentos não cirúrgicos, um dos que está mais em voga, ao menos entre as celebridades, é a tal da harmonização facial.

A cantora sertaneja Paula Fernandes em 2021 (esquerda) e em 2023, após a realização da harmonização facial (Foto: Reprodução/Instagram/Revista Quem)

 

Confesso que não procurei me aprofundar muito a respeito dos detalhes do procedimento, mas, pelo pouco que pesquisei, deu para ver que seus resultados, em alguns casos, são, no mínimo, questionáveis, conforme notei na polêmica de 2023 envolvendo a cantora sertaneja Paula Fernandes.

Sim, verdade, beleza é um conceito subjetivo (ela está nos olhos de quem vê, já reza o clichê). Além disto, como liberal, vou sempre defender o direito das pessoas de fazerem o que bem entenderem com seus corpos.

Já não posso dizer a mesma coisa, porém, a respeito das edificações nas cidades, uma vez que, neste caso, se tratam de escolhas individuais que podem ter impacto negativo no bem-estar coletivo. E, enquanto os brasileiros parecem cada vez mais preocupados com a harmonização de seus rostos e corpos, o que mais observo ao caminhar por São Paulo é uma completa desarmonia entre as edificações.

A estreita, arborizada e valorizada Rua Harmonia, no Sumarezinho, que vem passando por um intenso processo de verticalização: apesar de contar com muitos edifícios que, individualmente, são bem interessantes, eles não formam um conjunto lá muito harmonioso – as árvores, é verdade, acabam por embelezar a rua e suavizar o impacto da descontinuidade das fachadas

 

E, quando falo em desarmonia, não me refiro à diferença de estilos arquitetônicos – que, por sinal, pode ser até desejável –, mas, sim, à falta de padrão na relação que edifícios vizinhos estabelecem entre si e com a rua. Em um mesmo quarteirão, por exemplo, é possível observar charmosas casinhas e predinhos construídos antes da década de 1970, colados uns nos outros e sem recuos em relação à calçada, ao lado de enormes torres da década de 1990 isoladas no lote, recuadas, desalinhadas e protegidas por grades; ou ao lado de muros altíssimos que cercam espaçosos condomínios-clube da década de 2010 a ocupar quase toda a quadra. Também não é incomum observamos prédios sem recuos laterais ao lado de prédios mais novos, com recuos, deixando empenas cegas que, infelizmente, nem sempre são preenchidas por grafites.

Ainda que haja uma ou outra edificação recente bonita, interessante, o que vemos no conjunto é uma verdadeira colcha de retalhos, ilhas completamente desconexas, prédios altos e enormes condomínios ensimesmados, erguidos a partir da década de 1970 sem qualquer sinal de esforço para estabelecer uma relação harmoniosa com os vizinhos e sem a menor preocupação com seu impacto no entorno.

Sim, também quando o assunto é cidade a questão da beleza é subjetiva, mas, assim como eu, há muita gente especializada no tema a defender que certa harmonia entre as edificações parece uma condição importante para a criação de ruas e avenidas mais bonitas e agradáveis.

No episódio do São Paulo nas Alturas em que elege a São Luís como a avenida mais bonita da cidade, por exemplo, Raul Juste Lores destaca nela características como simetria e continuidade entre os prédios, que não têm recuos frontais e laterais – e, consequentemente, não têm guaritas, muros ou grades, mas “olhos na rua”, além, é claro, de contar com prédios de arquitetura de qualidade, verdadeiros ícones paulistanos, que, por mais que se destaquem individualmente, não deixam de fazer parte de um todo simétrico e harmonioso.

O episódio do The School of Life sobre os aspectos fundamentais por trás das cidades bonitas e atraentes também destaca características como ordem, simetria e regularidade na tipologia – com variação nas fachadas, o que ele chamou de “complexidade organizada”, que vemos, por exemplo, na Avenida São Luís analisada por Lores.

Por fim, em artigo publicado no Caos Planejado, Antonhy Ling destaca que as cidades brasileiras são feias não exatamente [ou não apenas, no meu entender] por causa de um suposto mal gosto ou má fé de construtores e incorporadores, mas, sim – ou principalmente –, por causa de regras de planejamento urbano equivocadas, como as que estabeleceram recuos e vagas de garagem obrigatórios.

É possível tentar corrigir esses equívocos e promover maior harmonização das edificações nas nossas ruas e avenidas? Creio que sim, e um primeiro passo, no caso de novas construções, seria ajustar as leis de forma a tentar respeitar algumas das regras de ocupação que orientaram os imóveis vizinhos mais antigos – no caso, é claro, de terem sido construídos antes da imposição dos recuos –, garantindo-se, com isso, maior alinhamento dos edifícios. Incentivar fachadas ativas e áreas de fruição pública no lugar dos muros e grades também seria outro passo importante. Implantar muito verde, árvores nas calçadas, instalar portões mais bonitos e incentivar arte em muros e empenas cegas seria ainda uma forma de ao menos tentar maquiar a falta de continuidade das fachadas.

Foto com meu filho mais novo na Praça Roosevelt, na Consolação, em 2023. Ao fundo,
um bom exemplo de harmonia entre as edificações. Há continuidade, simetria
e belos prédios, como o Edifício Icaraí, de 1956, projeto do arquiteto alemão
Franz Heep. Para mim, uma das paisagens mais interessantes de São Paulo
 
Há, contudo, uma questão anterior a ser respondida: será que realmente queremos harmonizar nossas ruas e avenidas tanto quanto nossos rostos? Por que, afinal, o brasileiro se preocupa tanto com a estética corporal enquanto parece se importar tão pouco com a feiura das nossas cidades?
 
Muito já se falou sobre futilidade, narcisismo, do culto ao corpo em um país tropical, sobre o patriarcalismo e a objetificação do corpo feminino, fatores estes que estariam por trás da enorme demanda por cirurgias plásticas no Brasil. Contudo, em uma sociedade que cultua tanto a beleza física, por que parecemos não dar muita bola para o horror em que se transformaram nossas cidades? Excesso de individualismo? Falta de senso de coletividade? Falta de conhecimento e repertório a respeito dos fatores que tornam uma cidade bonita? Visão extremamente utilitária das cidades e das edificações? Medo? Insegurança? Valorização excessiva do que é privado e desprezo pelo que é público, de todo mundo? Será que de dentro do automóvel a cidade não parece tão feia assim? Ou o problema é só mal gosto mesmo, como vemos em alguns casos de harmonização facial?
 
A resposta, é claro, não é óbvia, mas de nada adianta falarmos em medidas para a criação de uma cidade mais bonita e harmoniosa se a população – e a elite local, em particular – não se mostrar realmente interessada ou disposta a adota-las, se a beleza da própria cidade não for uma questão relevante para os moradores que mais influenciam as decisões políticas. Afinal, por mais que haja equívocos no planejamento urbano, ele não deixa de espelhar, ainda que de forma imperfeita, os anseios e preferências da parcela mais influente da sociedade.
 
Seja como for, vou continuar sonhando com o dia em que o país não será somente o vice-campeão mundial em cirurgias plásticas, mas também uma referência internacional em iniciativas que tornem nossas cidades mais bonitas e harmoniosas.
 
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio
 
IMAGEM: Leonardo Rodrigues/DC

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