Cidades doentes?

A expansão do varejo farmacêutico, o documentário “Retratos Fantasmas” e um breve roteiro para refletir sobre o adoecimento de São Paulo

Vitor França
29/Set/2023
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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Cidades doentes?

Apaixonado por cinema e cidades, confesso que estava ansioso para assistir “Retratos Fantasmas”, documentário do Kléber Mendonça Filho (de “O som ao redor”, “Aquarius” e “Bacurau”, entre outros) recentemente indicado pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais para tentar uma vaga na disputa pelo Oscar na categoria de melhor filme internacional.

Afinal, não é todo dia que um dos maiores cineastas do país nos presenteia com uma riquíssima compilação de imagens históricas, em um relato íntimo e apaixonado abordando as transformações do Recife desde a década de 1970, em particular do entorno do prédio onde viveu grande parte de sua vida, do centro da cidade e de seus cinemas de rua, e como tudo isto se relaciona com a sua filmografia.

“Eu amo a rua” é a famosa frase que abre o clássico “A alma encantadora das ruas” do João do Rio. “Eu amo o centro do Recife”, repete duas vezes Kléber Mendonça Filho em seu documentário. Eu, que amo o centro de São Paulo, aproveitei então a ida ao Espaço Itaú de Cinema na Augusta para percorrer as ruas da cidade e também refletir sobre suas recentes transformações.

Da minha casa, na Pompéia, caminhei até a Rua Turiaçu (também grafada Turiassu), pela qual cruzei o bairro de Perdizes até a Cardoso de Almeida, e de lá fui até o Minhocão. O abandono da região central da cidade parece fazer parte de um fenômeno mais amplo não exclusivo de São Paulo, mas também observado em muitas outras capitais do país – entre as quais Recife, conforme bem mostra “Retratos Fantasmas”. O Minhocão paulistano, contudo, sem dúvida contribuiu – e muito – para agravar a situação.

A medonha estrutura elevada de concreto armado inaugurada em 1971, uma via expressa para carros que rasga a cidade ligando as regiões leste e oeste, trouxe muito barulho e poluição para os moradores dos prédios do entorno; e sombra, degradação e insegurança para as até então belas praças, ruas e avenidas da região. 

Desde 2016 o elevado ao menos é aberto para pedestres aos fins de semana, quando se transforma no Parque Minhocão. Com o aumento da população em situação de rua, especialmente nos últimos anos, ele também serve hoje de proteção para pessoas sem-teto.

Para tentar reverter os impactos urbanos negativos do elevado, o atual Plano Diretor Estratégico da cidade prevê sua desativação até 2029 e define que a estrutura deve ser demolida ou transformada definitivamente em parque. Será que esta transformação realmente sairá do papel? Pois dias atrás foi noticiado que a Prefeitura lançou um edital de R$ 60 milhões para reformar o Minhocão. Faz sentido? Não seria mais razoável utilizar este vultoso montante de recursos já pensando na destinação da via prevista no Plano Diretor – que pode envolver questões estruturais específicas, no caso de ele ser transformado em parque? Enfim...

Caminhei então pela Barra Funda até a Galeria São Paulo Flutuante na Brigadeiro Galvão, onde está sendo realizada uma exposição de obras do artista plástico Gregório Gruber (entrada gratuita, até 14 de outubro), famoso por suas pinturas de uma São Paulo noturna, esvaziada de carros e pessoas.

Pintura de Gregório Gruber exposta na Galeria São Paulo Flutuante

 

Logo depois de passar pelo barulho e pela degradação do Minhocão, portanto, fui de repente apresentado a uma São Paulo ao mesmo tempo onírica e real, estranha, vazia e silenciosa, mas ainda assim reconhecível, principalmente por sua arquitetura, vias famosas e prédios icônicos. Uma improvável São Paulo fantasma a caminho do cinema onde assistiria ao documentário do Kléber Mendonça.

Dali para o cinema o caminho mais curto seria subir a Avenida Angélica até a Rua Maceió e dali seguir pela Matias Aires até a Augusta. Mas quem disse que o caminho mais curto é necessariamente o melhor? Em uma das passagens mais deliciosas de “Retratos Fantasmas”, Kléber Mendonça relata para o motorista do carro de aplicativo seu hábito de marcar vários pontos de parada na solicitação da viagem, para poder contemplar alguns de seus lugares preferidos da cidade na volta para casa.

Pois eu, em vez de subir a Angélica, preferi seguir pelos fantasmagóricos Campos Elíseos até a região da República, onde fiz questão de cruzar a Avenida São Luís, eleita pelo Raul Juste Lores em seu canal São Paulo nas Alturas a mais bonita da cidade por causa de suas calçadas largas, grandes árvores, muito verde, prédios sem recuos frontais ou laterais, de uso misto e considerados verdadeiras referências arquitetônicas.

A despeito da atual crise da região central, a visita à avenida revela como, até a década de 1960 – antes dos planos diretores, do aumento da sensação de insegurança e do predomínio da lógica do automóvel, portanto –, o centro da cidade crescia de forma charmosa, eficiente e sustentável...

Da São Luís peguei a Martins Fontes até a Praça Roosevelt e aproveitei para conhecer o recém-inaugurado Belvedere Roosevelt, um novo mirante com vista para a Avenida Radial Leste-Oeste, onde desemboca o Minhocão. A despeito de quaisquer críticas, é sempre louvável a abertura de novos espaços de lazer e convivência no centro da cidade.

Vista geral do Belvedere Roosevelt (Imagem: Prefeitura de São Paulo)

 

Por outro lado, enquanto R$ 4 milhões foram investidos em um novo espaço, a vizinha Praça Roosevelt segue bastante degradada, o que acaba suscitando a preocupação de que o Belvedere, em pouco tempo, também se encontre na mesma situação de abandono – o Belvedere, por sinal, não seguiu plenamente o projeto original, que previa um deque sustentável e placas fotovoltaicas, entre outras coisas.

Da Praça Roosevelt peguei a Rua Gravataí – onde está prevista já há cinco anos a implantação de um boulevard interligando os espaços públicos da região – até o Parque Augusta, um respiro de verde e sombras nesta cidade cinza, especialmente naquele dia ensolarado.

Não sei se foi o cansaço da longa caminhada, mas a subida da Augusta se revelou talvez o momento mais deprimente do passeio. No final de “Retratos Fantasmas”, Kléber Mendonça roda de carro pelo centro de Recife à noite e a paisagem urbana é então tomada por uma melancólica sequência de imagens de lojas de grandes redes farmacêuticas. Qualquer cidade que vê seus cinemas de rua desaparecerem enquanto não param de surgir novas farmácias só pode mesmo estar doente.

Considerando apenas os principais segmentos do setor de comércio e serviços que costumam ter lojas de rua, nenhum cresceu tanto quanto o varejo farmacêutico em quinze anos, conforme mostra o gráfico a seguir, elaborado a partir dos dados da Pesquisa Anual do Comércio e da Pesquisa Anual de Serviços do IBGE. Entre 2007 e 2021, a receita operacional líquida do setor de “Produtos farmacêuticos, perfumaria e cosméticos e artigos médicos, ópticos e ortopédicos” apresentou aumento de 537,4%, mais que o dobro da alta de 247,3% registrada nas “Atividades culturais, recreativas e esportivas”, por exemplo

É verdade que parte da alta do faturamento das farmácias pode ser atribuída a fatores estruturais, como o envelhecimento populacional, e à própria pandemia de Covid. É importante ter em mente, contudo, que as duas categorias de medicamentos mais vendidos no Brasil são as de antidepressivos e ansiolíticos.

 

Cidades doentes parecem ser uma causa e uma consequência de um mundo doente, e na Augusta a doença de São Paulo se revelou no comércio de portas fechadas, nas placas de aluga-se, nos moradores de rua, nas calçadas estreitas em péssimo estado de conservação, na falta de verde, de árvores, bancos, nas grades e nos muros altos dos novos condomínios, no arame farpado, no lixo jogado no chão, nos recentemente construídos prédios bege ou cinza recuados, sem graça e sem qualquer relação com o entorno.

O maravilhoso documentário se revela ao final ao mesmo tempo belo, irônico e melancólico, nos falando do passado, do presente, mas também do futuro. Assim que as luzes do cinema se acenderam ao final do filme, tive vontade de comprar um novo ingresso e já voltar para a próxima sessão. Em plena emenda de feriado, para minha surpresa, não havia muita gente ali na sala comigo, não muito mais do que vinte ou trinta pessoas.

Logo depois, enquanto tomava um café no quase extinto Café Fellini, no Anexo do Espaço Itaú do outro lado da Augusta, eu pensava no pequeno público da sessão, na recente notícia de que o Belas Artes deve novamente perder seu patrocinador, no documentário a que eu acabara de assistir mostrando antigos cinemas de rua do Recife simplesmente abandonados, transformados em templos religiosos ou mantidos a duras penas pelo governo (que é o caso do Cinema São Luiz, o mais antigo e icônico de Recife, venerado no documentário, mas que está fechado desde 2022 para reformas...); enfim, tudo parecia apontar para uma tendência talvez irreversível; e uma cidade que conheci ou com que sonhei talvez esteja mesmo condenada a desaparecer.

Pensativo, ainda dei uma última caminhada por ali, atravessei pelo Shopping Center 3 até a Frei Caneca e cruzei a “Pracinha do Spot”, agora mais vazia do que antigamente, quase sem bancos, recentemente cercada por questões de segurança...

Até pensei em pedir um Uber (ou um antidepressivo), mas preferi me refugiar um pouco nos subterrâneos da cidade e voltar enfim para casa, de metrô.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 

Imagem principal: Patrícia Cruz/DC