Amigos e negócios: é sucesso ou é 'cilada, Bino'?

No Dia do Amigo, conversamos com Michelle de Stefano Sabino (esq.), consultora de negócios do Sebrae-SP, e Amanda Ramalho, advogada especializada em direito empresarial, sobre as regras de ouro para transformar a confiança em bons negócios sem destruir a amizade

Melina Dias
20/Jul/2026
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Amigos e negócios: é sucesso ou é 'cilada, Bino'?

O Dia do Amigo, em 20 de julho, também celebra parcerias que saíram do pessoal para o empresarial. Pesquisa do Indeed Brasil mostra que 54% dos profissionais têm um melhor amigo no trabalho e 52% dizem que a relação aumenta a satisfação. Afinidade e confiança podem virar negócio sólido.

A Minha Quitandinha é exemplo. Os sócios Guilherme Mauri e Douglas Pena se conheceram no mercado corporativo e, em 2020, criaram a rede de minimercados autônomos. Hoje são 870 unidades em 23 estados e no DF, abertas 24h. Após mais de uma década de amizade, transformaram a parceria em uma das referências do varejo autônomo no país.

 

Amigos e sócios, Guilherme Mauri e Douglas Pena se conheceram no mercado corporativo e, em 2020, criaram uma rede de minimercados autônomos

 

Mas empreender com amigo é seguro? Como evitar que a sociedade acabe com o negócio e a amizade? Como evitar que a sociedade destrua o negócio e a amizade? Para responder a essas questões, o Diário do Comércio ouviu Michelle de Stefano Sabino, consultora de negócios do Sebrae-SP, e Amanda Ramalho, advogada especializada em direito empresarial e compliance. Com perspectivas diferentes, mas complementares, elas analisam os desafios dessa parceria. Confira a entrevista:

Diário do Comércio – O que observar no futuro sócio/amigo?

Michelle - Complementariedade importa mais que semelhança. Dois vendedores sem controle financeiro quebram a empresa. Observe como o amigo lida com pressão e frustração. Resiliência pesa mais que simpatia.

Amanda - Proatividade, liderança e responsabilidade definem os papéis na empresa. Personalidades precisam estar alinhadas para o negócio prosperar.

 

DC – O que não pode faltar no contrato?

Michelle - O Acordo de Sócios é o escudo. Defina papéis, pró-labore, divisão de lucros, critério de desempate e regras de saída ou falecimento.

Amanda - Redija como se fosse para um estranho. É obrigatório prever resolução de impasses e metodologia clara para apuração de haveres.

 

DC – Dividir 50/50 é boa ideia?

Michelle - Romântico e perigoso. Gera 'síndrome do empate' e trava decisões. Melhor definir que o especialista da área dá a palavra final, criar voto de minerva ou dividir 51/49.

Amanda - Divisão igual leva a impasse judicial. Acordo de sócios mitiga, mas não resolve tudo.

 

DC – O que escrever sobre saída de sócio?

Michelle - O 'divórcio societário' se assina no 'casamento'. Defina como avaliar a empresa e garanta direito de parcelar a compra da parte em 24, 36 ou 48 vezes. Protege o caixa.

Amanda - Preveja prazos de permanência e aviso, forma de pagamento e metodologia de cálculo. Inclua marca, propriedade intelectual, não aliciamento de equipe e clientes e cláusula de não concorrência.

 

DC – Maior erro de amigos que viram sócios?

Michelle - Fugir das conversas difíceis. O ressentimento cresce em silêncio. Quando estoura, perdem-se empresa e amizade.

Amanda - Falta de diálogo e achar que amizade é carta branca. Maturidade é o que separa sócios bem-sucedidos de amizades desfeitas.

 

DC – Como checar alinhamento sobre dinheiro, trabalho e risco?

Michelle - Façam uma 'entrevista de emprego' mútua. Coloquem cenários na mesa: 6 meses no vermelho, pega empréstimo ou fecha?, Lucrou R$ 100 mil, reinveste ou troca de carro?. Respostas muito diferentes indicam visão incompatível.

Amanda - Conversas exaustivas antes do CNPJ. Monte plano de negócios e análise de riscos. Consultoria jurídica e de governança desde o início acelera a maturidade.

 

DC – Existe teste antes do CNPJ?

Michelle - Sim. Faça o 'Test Drive Empreendedor': um piloto de 30 a 60 dias. Venda em evento, workshop ou loja online com estoque baixo. Teste como o sócio lida com cliente difícil, estresse e fechamento do caixa.

Amanda - Legalmente, não. Negócio precisa ser registrado. Testar informalmente traz riscos. Ainda assim, é o que muitos fazem. Misturar amizade e negócios exige planejamento e transparência. Na amizade, vale a afinidade. Na sociedade, vale a competência.

 

DC – Sociedade entre amigos dá mais certo ou mais errado?

Michelle - Tem potencial de ser a melhor, porque nasce da confiança. Desanda com informalidade: atraso relevado para não chatear ou caixa misturado com churrasco. Funciona quando, da porta para dentro, são profissionais.

Amanda - Não há regra. A amizade pode facilitar ou complicar. O que faz prosperar não é o vínculo, é a gestão.

 

IMAGEM: divulgação

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