Nos corredores de Brasília | EUA atacam Irã, mas bomba (fiscal) explode no Brasil
Câmara libera R$ 10 bilhões ao Ministério de Minas e Energia para bancar subvenção ao diesel até 31 de dezembro. Governo teme os efeitos da alta dos combustíveis na inflação, que pode frear a queda dos juros

Inflação de volta
A nova escalada entre Estados Unidos e Irã devolveu o petróleo ao centro da preocupação econômica. Na quarta-feira (8), o Brent chegou a superar US$ 80, com alta de mais de 8% durante o dia, após Donald Trump sinalizar novos ataques ao Irã. No Brasil, o alerta é imediato: petróleo mais caro pressiona combustíveis, fretes, dólar e expectativas de inflação. O conflito externo pode virar problema interno para o governo e travar a queda dos juros justamente quando o Planalto tenta vender melhora na economia.
Combustível vira queda de braço
A disparada do petróleo, em meio à escalada entre Estados Unidos e Irã, colocou mais pressão sobre a pauta dos combustíveis na Câmara. Hugo Motta manteve o PLP 114/2026 na fila de votação e deu prazo ao governo: se a retirada gradual da subvenção ao diesel e à gasolina não sair até quinta-feira (9), o texto vai ao plenário. Motta transformou o preço dos combustíveis em instrumento de pressão sobre o Planalto. Para o governo, o risco é duplo: segurar a conta no Tesouro e, ao mesmo tempo, evitar que a alta do petróleo reacenda a inflação justamente às vésperas da queda dos juros.
Hugo é do governo
O embate sobre o endividamento rural expôs o alinhamento de Hugo Motta com o Planalto. Após o PL 5.122/2023 ser aprovado pelo Senado com ampla maioria, o presidente da Câmara segurou a proposta a pedido do ministro Dario Durigan, da Fazenda. Para reduzir a temperatura com a bancada ruralista, marcou reunião com o setor, anunciou o encontro nas redes sociais, mas não apareceu. Depois da conversa dos ruralistas com a equipe econômica, Motta recebeu o governo sozinho. Nos bastidores, o gesto foi lido como escolha de lado.
PL em modo desgaste
A tentativa de Valdemar Costa Neto de justificar a extinção do cargo que foi de Michelle Bolsonaro no PL abriu nova frente de constrangimento para a pré-campanha bolsonarista. Ao dizer que “mulher arruma enguiço com 20”, o presidente do partido transformou uma decisão interna em problema público. O episódio se soma a outra fala recente, de um aliado que afirmou que mulher “vota muito mal”. A foi lida como tentativa de conter a crise com a ex-primeira-dama, mas acaba alimentando uma narrativa de machismo em plena disputa pelo eleitorado feminino.
Diesel eleitoral
A Câmara aprovou nesta quarta-feira (8) a MP 1.344/2026, que libera R$ 10 bilhões ao Ministério de Minas e Energia para bancar a subvenção ao diesel até 31 de dezembro. A justificativa é amortecer o impacto da alta do petróleo, pressionado pela escalada entre Estados Unidos e Irã. Na prática, o governo troca inflação por gasto público: usa o Tesouro para segurar combustível, frete e alimentos, enquanto tenta preservar o discurso de queda dos juros. O texto ainda precisa passar pelo Senado até 16 de julho para não perder validade.
IMAGEM: Lula Marques/Folhapress

