Juros altos inibem investimentos e refletem na desaceleração do mercado de trabalho
A perda de ritmo na abertura de vagas formais em abril e maio, pelos dados do Caged, acende o alerta para o risco de queda na massa salarial nos próximos meses

O mercado de trabalho abriu 72.960 postos com carteira assinada em maio. Apesar de positivo, o resultado é o pior para o mês desde 2020 e representa uma queda de 51% na comparação com o mesmo período de 2025, quando foram criados 148.992 postos formais, segundo dados divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho.
O cenário reflete um ambiente marcado por uma taxa de juros elevada, com efeito direto sobre crédito, investimento e consumo, além de uma maior cautela dos empresários brasileiros. Os dados do Caged mostram que, apesar de o mercado de trabalho ter registrado 2,207 milhões de admissões em maio, houve 2,134 milhões de desligamentos.
De acordo com o professor de Economia Mário Marques, da Skema Business School, a elevada taxa de juros encarece o crédito e aumenta o custo do capital de giro, reduzindo a atratividade de novos investimentos. Dessa forma, os empresários se tornam mais cautelosos na hora de contratar novos funcionários, avaliando a demanda do mercado antes de abrir novas vagas, uma vez que se torna muito caro investir em mais lojas e, consequentemente, contratar mais trabalhadores.
"Além disso, a Selic alta aumenta o custo de oportunidade. Em muitos casos, o capital aplicado em renda fixa oferece retorno elevado, com risco menor do que ampliar a produção, abrir lojas, investir em máquinas ou contratar equipes", afirma Marques. "O Copom reduziu a Selic para 14,25% ao ano em junho, mas esse ainda é um patamar muito restritivo para a atividade produtiva. A consequência é clara: as empresas não param completamente de contratar, mas passam a contratar apenas o indispensável", explica.
O comércio foi um dos setores com resultados fracos em maio, ficando praticamente estagnado, com saldo positivo de apenas 40 postos de trabalho. "Dentro do comércio, o varejo teve saldo negativo de 1.286 postos, compensado parcialmente pelo segmento de comércio e reparação de veículos", diz Marques.
Termômetros da economia
O economista José Roberto Rodriguez Silva, especialista em economia aplicada ao empreendedorismo, explica que os setores cuja elasticidade do emprego é maior (que abrem ou fecham vagas com mais intensidade conforme o desempenho da economia) são os que mais sentem os efeitos dos juros sobre o crédito e da renda disponível das famílias. É o caso da indústria de transformação e da construção civil, que costumam ser termômetros da economia, uma vez que são intensivos em capital (dependem de investimentos pesados para operar) e estão amarrados a financiamento de longo prazo.
Os dados evidenciam uma cautela por parte dos empresários, que deve continuar nos próximos meses. "Abril também teve resultado fraco, com 85.888 vagas formais abertas, e maio veio abaixo, configurando dois meses seguidos de perda de ritmo. Quando olhamos o acumulado do ano, o Brasil ainda gerou 767.326 empregos formais, mas esse desempenho é inferior ao observado no mesmo período do ano anterior. Portanto, o mercado não está parado, mas está menos dinâmico", diz Marques.
A desaceleração das vagas formais, se continuar nos próximos meses, pode afetar a massa salarial, conforme explica o professor da Skema Business School. "A massa salarial depende de duas variáveis: quantidade de pessoas ocupadas e rendimento médio. Se a criação de vagas desacelera, a expansão da renda total das famílias também tende a perder força. Isso afeta diretamente o consumo, especialmente em uma economia na qual muitas famílias já estão endividadas e enfrentam crédito caro", diz.
A massa de rendimento ainda mostra crescimento na comparação anual. Segundo dados do IBGE, a massa de rendimento real habitual foi estimada em R$ 377,7 bilhões no trimestre encerrado em maio, estável em relação ao trimestre anterior e 4,8% maior do que no mesmo período de 2025, segundo Marques.
"Mas há um sinal de atenção: o salário médio real de admissão no Caged caiu 0,75% em maio ante abril, para R$ 2.384,10. Isso sugere que as novas contratações podem estar ocorrendo com salários mais contidos. Se esse movimento persistir, a desaceleração do emprego pode chegar ao consumo das famílias com algum atraso", diz o professor.
Mais produtividade
De acordo com Eliane Aere, presidente da ABRH-SP (Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seccional São Paulo), as empresas estão buscando maior produtividade sem alterar o quadro de funcionários. Em vez de os empresários investirem em mais mão de obra, eles têm focado na automação e na formação de pessoas por meio da requalificação e do aprimoramento de profissionais.
Mas essa é uma realidade que ainda tem de ser muito trabalhada, diz a presidente da ABRH-SP. "O desenvolvimento de lideranças e a cultura organizacional são os maiores desafios enfrentados pelas empresas na hora de encontrar um novo funcionário". Na visão de Eliane, "o apagão de mão de obra qualificada persiste e se consolida como um desafio estrutural para o Brasil."
Perspectivas para o segundo semestre
Com a desaceleração do mercado de trabalho, a expectativa é que o segundo semestre de 2026 seja mais desafiador, especialmente para aqueles que estão entrando no mercado de trabalho, como jovens e recém-formados. Apesar de ainda operar com saldo positivo, a expectativa é por resultados mais estreitos, com as empresas tendo dificuldades para absorver o crescimento demográfico da força de trabalho.
"Se mantivermos a atual governança da política monetária, o segundo semestre não terá forças para reverter essa tendência de queda no ritmo de abertura de vagas", diz o economista Rodriguez Silva. "O grande risco é a consolidação de um fenômeno de subocupação crônica, em que as vagas com carteira assinada se tornam escassas e o mercado se fragiliza."
Marques compartilha de opinião semelhante e projeta um segundo semestre mais seletivo na geração de empregos. Enquanto o setor de serviços deve continuar sustentando boa parte das contratações, setores como comércio e indústria, principalmente em seus segmentos mais dependentes de crédito, devem seguir mais pressionados.
"O Focus tem projetado em julho crescimento do PIB de 1,99% em 2026 e Selic em 14% ao fim do ano, o que sugere uma economia ainda crescendo pouco e com custo de capital elevado. Portanto, a palavra-chave para o segundo semestre é moderação. O emprego formal deve continuar positivo, mas sem o mesmo vigor dos anos anteriores", diz Marques.
De acordo com Rodriguez Silva, quando o emprego formal desacelera, o trabalhador é empurrado para o chamado "empreendedorismo por necessidade", aumentando a informalidade e o número de "MEIs de baixa renda", o que resulta em um encolhimento da massa salarial real e, consequentemente, afeta o consumo das famílias. "Isso gera o pior dos cenários macroeconômicos: o consumo das famílias despenca, as empresas vendem menos, lucram menos e contratam ainda menos, retroalimentando o ciclo recessivo", diz o economista.
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IMAGEM: Rafael Neddermeyer/ Fotos Publicas

