Enquanto Blaze fatura R$ 1,9 bi, custos sociais de apostas no Brasil podem superar R$ 38 bi ao ano
Documento inédito expõe a escala financeira da plataforma de jogos, que é alvo de projeto de lei que quer proibir anúncios e conter epidemia de endividamento no país

O cassino online Blaze destinou R$ 330 milhões à propaganda de caça-níqueis digitais e apostas esportivas entre janeiro e novembro de 2025, mostra balancete da empresa obtido pela reportagem. O documento mostra pagamentos a empresas dos influenciadores Virginia Fonseca, Jon Vlogs e Renato Garcia - todos com milhões de seguidores na internet.
Blaze e Virginia são alvos de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) por práticas abusivas e publicidade enganosa. O MPDFT estimou que a receita bruta da empresa fosse de R$ 600 milhões para calcular uma multa de R$ 120 milhões, mas o balanço da bet mostra um faturamento antes da dedução de impostos de R$ 1,9 bilhão, obtido a partir de depósitos na casa dos R$ 11 bilhões (entenda como funciona o faturamento das bets aqui).
A Blaze é a sexta maior plataforma de apostas do Brasil, de acordo com levantamento feito pela consultoria H2 Gambling Capital. A companhia também esteve no alvo da CPI das Bets por causa de anúncios de caça-níqueis online como o Aviator e o Fortune Tiger, chamado popularmente de jogo do tigrinho.
A Blaze disse que ainda não foi intimada por causa da ação do MPDFT. "A empresa reitera que suas parcerias com influenciadores são pautadas pela estrita conformidade com a legislação e as regulamentações vigentes no país", afirmou a companhia em nota.
A bet acrescenta que não comenta cláusulas contratuais nem valores por questões de confidencialidade comercial. O balanço da empresa aponta que gastos com publicidade e programas de fidelidade (oferecimento de bônus e rodadas grátis) são os principais custos da plataforma.
A Blaze desembolsou R$ 89 milhões em bônus, R$ 388 milhões em programas de fidelidade, enviados em newsletters e "textos-foguetes" aos jogadores cadastrados e R$ 330 milhões com publicidade externa - o que inclui contratos com influenciadores, pagamentos para impulsionar publicações e peças publicitárias na mídia tradicional.
A acusação da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor (Prodecon) é de que a empresa utiliza padrões enganosos e técnicas de gamificação para induzir consumidores vulneráveis ao risco. Os autos reúnem publicações de Virginia e peças de marketing interno distribuídas aos jogadores cadastrados, que os promotores obtiveram ao se infiltrarem nas plataformas de apostas.
O balancete também mostra obrigações contratuais de R$ 6,4 milhões da bet com uma das empresas de Virginia, a VF Digital, sediada em Goiânia. Segundo o documento, a Blaze já havia pago R$ 2,77 milhões à influenciadora e precisava quitar R$ 3,6 milhões. O documento não detalha a relação contratual.
A Prodecon pediu acesso aos contratos celebrados entre a casa de apostas e Virgínia, mas ainda não obteve a documentação. A assessoria da influenciadora pediu que a Folha formalizasse o pedido por email, mas não respondeu à mensagem enviada às 14h desta terça, o contato foi reforçado na tarde desta quarta (15).
Uma publicação feita por Virginia durante a Copa do Mundo 2026 foi o gatilho da ACP, disse à Folha o promotor Paulo Roberto Binicheski. A influenciadora compartilhou nos stories do Instagram uma aposta na vitória de Cabo Verde sobre a Argentina sem identificar de forma clara que se tratava de publicidade.
"Ela induziu as pessoas a apostarem em Cabo Verde, isso precisa respeitar um limite legal", afirmou Binicheski. "Independentemente do Ministério da Fazenda, as empresas precisam respeitar o Código de Defesa do Consumidor, um texto derivado diretamente da Constituição."
"A conduta da Blaze, em coautoria com Virginia Fonseca e demais agentes de seu ecossistema empresarial, não se limita a ilícitos pontuais, mas estrutura uma engenharia predatória de exploração de vulnerabilidades cognitivas em escala massiva", afirma um trecho da ação.
A Blaze também pagou R$ 952 mil de indenização por rescisão de contrato ao cantor Zé Felipe, filho do sertanejo Leonardo e ex-marido de Virginia, conforme os registros contábeis. O balancete também mostra obrigações contratuais com o influenciador Jon Vlogs (R$ 2,8 milhões) e com o youtuber Renato Garcia (R$ 5,3 milhões). Este último mantém um canal em que promove sorteios de carros e motos esportivos.
Contatados por meio de suas redes sociais na terça, eles não responderam. A Prodecon pediu acesso ao contrato entre o jogador Neymar Jr. e a Blaze, celebrado em 2022 com o braço internacional da empresa. A assessoria do atleta disse que não comentaria por respeito a cláusulas de confidencialidade.
O balancete mostra ainda gastos na casa dos milhões de reais com instituições de pagamentos e provedores de internet. O documento também aponta a destinação de R$ 320 milhões a impostos, R$ 171 milhões à alíquota social cobrada pela Fazenda e R$ 2,3 milhões à taxa de fiscalização da SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas), subordinada ao ministério.
Descontando impostos e gastos para reter jogadores, a empresa declarou uma receita líquida de R$ 1,1 bilhão. Após cumprir obrigações com despesas operacionais e fornecedores, a Blaze teve uma margem de lucro de 33%, chegando a um resultado de R$ 361 milhões nos primeiros 11 meses do ano passado. Desse total, R$ 350 milhões foram enviados como dividendos para a sede da empresa no exterior.
RAIO-X - BLAZE
Criação: 2019
Receita bruta no Brasil: R$ 1,9 bilhão (janeiro a novembro de 2025)
Receita líquida no país: R$ 1,1 bilhão
Lucro: R$ 361 milhões
Depósitos dos jogadores: R$ 11 bilhões
Gasto com salários: R$ 8,6 milhões
Sede da matriz: Ilha de Man
MOVIMENTO BRASIL CONTRA BETS
Dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) apontam que os danos associados às apostas online podem gerar custos sociais superiores a R$ 38 bilhões anuais no Brasil, incluindo impactos relacionados à perda de qualidade de vida, depressão, suicídio e tratamentos de saúde mental.
Uma movimentação no Congresso Nacional faz frente ao bilionário mercado de apostas esportivas no país. A Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental apresentou o projeto de lei batizado como "Brasil Contra as Bets". A proposta, que tramita simultaneamente na Câmara dos Deputados (PL 2478) e no Senado Federal (PL 2470), visa a proibição total de anúncios, propagandas e patrocínios vinculados a plataformas de apostas.
A iniciativa é uma convergência de forças políticas tradicionalmente antagônicas. O apoio conta com 20 deputados federais e sete senadores, sinalizando que a preocupação com o impacto social das bets superou as barreiras ideológicas. Segundo o deputado Pedro Campos (PSB-PE), presidente da Frente Parlamentar, a sociedade brasileira atingiu um ponto de saturação.
"As pessoas estão sobrecarregadas com a publicidade agressiva. Para além do adoecimento e do endividamento, a onipresença desses anúncios tornou-se um incômodo generalizado".
Se aprovado, o impacto será drástico no cenário esportivo e midiático brasileiro. O texto prevê a proibição de publicidade em: Televisão e rádio; Internet e redes sociais (incluindo influenciadores); Plataformas de streaming; Outdoors e mídia física; Patrocínios em uniformes de clubes e eventos culturais.
Atualmente, as bets dominam os espaços de patrocínio máster nos principais clubes de futebol do Brasil. A proposta quer quebrar esse ciclo, alegando que a exposição contínua atua como um gatilho para o comportamento compulsivo, especialmente entre jovens e crianças.
Apesar do apelo popular e da saúde pública, o projeto enfrentará resistência pesada. A deputada Tabata Amaral (PSB-SP) alertou para a existência de um lobby "extremamente bem financiado" pelo setor. Há suspeitas, inclusive, de que empresas de apostas estejam financiando indiretamente campanhas e programas partidários, o que pode dificultar a tramitação.
Damares Alves, por sua vez, trouxe dados específicos sobre o público religioso: 41% dos evangélicos admitem jogar online, e destes, 35% já contraíram dívidas decorrentes da prática. O otimismo da senadora para a aprovação baseia-se na percepção de que a pauta é, acima de tudo, humanitária. A petição pode ser assinada aqui.

