Copa do Streaming muda consumo de celulares e abre espaço para aparelhos premium
Fabricantes e varejistas identificam consumidores buscando dispositivos com mais desempenho para vídeo, IA, memória, 5G e conectividade para ver jogos fora da TV, como fez o estudante Léo Miwszuk (foto)

A Copa do Mundo de 2026 pode ter marcado uma mudança importante na forma como os brasileiros acompanham o futebol. Se nas edições anteriores a televisão era praticamente a única tela para assistir aos jogos, o avanço do streaming e do consumo de conteúdo pelo celular tipo smartphone fez com que fabricantes e varejistas começassem a chamar o evento como a “Copa do Streaming”.
Telas OLED/AMOLED, conectividade 5G, bateria de longa duração, maior capacidade de armazenamento e melhor desempenho para streaming e redes sociais são os recursos que têm feito as pessoas procurarem um celular novo, em especial os jovens. Mas não é só isso. A TV ainda pode ser a escolha principal dos usuários, mas o fato é que cresceu consideravelmente o acesso por plataformas, como o YouTube.
Segundo levantamento da Kantar, entre os 77% dos brasileiros que disseram que acompanhariam a Copa do Mundo de 2026, 73% ainda preferem ver na TV, porém, o consumo está cada vez mais fragmentado: 39% disseram assistir pela TV por assinatura, 31% via streaming, 23% pelas redes sociais e 4% pelo rádio.
Outro levantamento encomendado pela CBF também revela que 27% dos brasileiros acompanham futebol por plataformas de streaming.
Na estreia do Brasil na Copa, o canal de transmissões CazéTV registrou 12,7 milhões de dispositivos conectados simultaneamente no YouTube, estabelecendo um recorde para uma transmissão ao vivo de futebol na plataforma e reforçando o peso do consumo digital durante o Mundial.
A Motorola, patrocinadora oficial da FIFA, tem explorado esse movimento em sua estratégia comercial. O presidente da empresa no Brasil, Rodrigo Vidigal, afirma que “a Copa do Mundo deixou de ser uma experiência de uma tela só” e que o smartphone passa a ocupar papel central na experiência do torcedor.
Para o consumo de aparelhos, isso muda bastante. A fabricante lançou celulares premium destacando recursos como telas AMOLED de alta taxa de atualização, brilho elevado, baterias de longa duração, conectividade 5G e inteligência artificial, atributos pensados para quem pretende assistir às partidas pelo celular.
Embora ainda não haja comprovação de um aumento no volume de smartphones vendidos por causa da Copa, o mercado já observa uma mudança no perfil do consumo.
Em uma busca pelas lojas no centro de São Paulo, o Diário do Comércio encontrou o mesmo cenário. Uma vendedora de uma loja do Magazine Luiza na República comentou que vendeu muitos celulares nos últimos três meses. “Todo mundo quer aparelhos que façam bom processamento para carregar vídeos e vários comentaram que iam ver a Copa do Mundo no Cazé TV.”
Outro vendedor de uma loja da Americanas acredita que muita gente que estava pensando em trocar de aparelho há meses foi impactada pelas promoções e pela Copa. “Não é que a Copa venda mais, mas é uma oportunidade que pode ser vantajosa devido a promoções, pacotes etc.”
Silvio Stagni, diretor-presidente da distribuidora de eletrônicos Allied, afirma que o mercado de celulares permanece relativamente estável em quantidade de aparelhos comercializados, mas cresce em valor, indicando que os consumidores estão migrando para modelos mais sofisticados.
A Allied é uma das principais distribuidoras de smartphones e eletrônicos do país, atuando no fornecimento de aparelhos para grandes redes varejistas e marketplaces.
O movimento observado no Brasil acompanha uma tendência internacional. Segundo a consultoria IDC, o mercado mundial de smartphones deverá registrar queda de 13,9% no volume de aparelhos vendidos em 2026, mas crescimento de 3,8% em valor, impulsionado pela venda de modelos premium. Para a consultoria, consumidores têm migrado para aparelhos mais caros, com maior capacidade de memória e processamento.
Esse movimento, segundo Stagni, ocorre porque o smartphone passou a concentrar cada vez mais atividades do dia a dia, como entretenimento, produtividade, criação de conteúdo e acesso a serviços digitais.
Essa mudança também já aparece nas vendas da empresa. Em 2025, a Allied comercializou mais de 196 mil smartphones da categoria premium, volume 2,6% superior ao registrado no ano anterior, refletindo a busca por aparelhos que entreguem uma experiência mais completa.
O armazenamento, acrescenta Stagni, tornou-se um dos principais critérios de escolha. “Os modelos de 64 GB estão desaparecendo do mercado, uma vez que os aplicativos, a produção de conteúdo e os próprios recursos de inteligência artificial exigem cada vez mais memória disponível”, diz.
A decisão de compra também deixou de estar concentrada em apenas uma característica técnica. “Hoje, o consumidor avalia o conjunto da experiência. Desempenho, qualidade da câmera, autonomia de bateria, conectividade e funcionalidades baseadas em IA trabalham em conjunto. A decisão de compra é muito menos baseada em uma única especificação técnica e muito mais na experiência que o aparelho entrega ao longo de sua vida útil”, diz o executivo.
Esse cenário levanta uma hipótese interessante: em vez de gerar novos compradores, a Copa do Mundo pode ter antecipado a troca de celulares por modelos mais preparados para streaming, consumo de vídeo e recursos de IA.
Na avaliação de Stagni, o Mundial reforçou uma tendência que já vinha sendo observada no mercado.
“A Copa reforça uma transformação que já vinha acontecendo: o consumo de conteúdo está cada vez mais conectado, simultâneo e distribuído em diferentes telas. A televisão continua tendo um papel importante, especialmente na experiência coletiva de assistir aos jogos, mas o smartphone ganhou protagonismo dentro dessa jornada.”
Ele afirma que o aparelho deixou de ser apenas uma segunda tela. “Hoje, o torcedor acompanha estatísticas em tempo real, interage nas redes sociais, produz conteúdo e acessa diferentes plataformas durante a experiência esportiva. Esse comportamento impulsiona a demanda por aparelhos com maior capacidade de processamento, conectividade avançada e recursos que acompanham essa nova forma de consumir entretenimento.”
Antes do campeonato, grandes varejistas já anunciavam celulares mais tecnológicos com valores e pacotes atrativos. O estudante Léo Miwszuk Azevedo, de 16 anos, foi um dos torcedores que comprou um celular novo para assistir aos jogos da Copa do Mundo. “Eu já estava para trocar de aparelho há algum tempo, mas agora foi a hora certa”, diz.
A melhoria da tecnologia e das novas atualizações dos aplicativos foi indispensável na decisão e também uma realidade da nova geração, que não se limita a assistir às partidas pela TV aberta.
“Escolhi o iPhone 17 porque os vídeos ficam mais rápidos para carregar e com melhor qualidade. Eu também vejo pela televisão, porém, nem todos os jogos passaram nos canais abertos, então já conecto direto no YouTube pela TV ou pelo celular quando estou em casa, na escola ou na rua”, diz.
Vidigal, da Motorola, acrescenta: “o jovem brasileiro adotou o streaming e essa mudança cultural não tem retorno.”
Stagni, da Allied, projeta como serão os próximos anos e Copas. “O mercado segue em evolução, com os smartphones incorporando cada vez mais tecnologias que ampliam sua capacidade de uso. Recursos de IA, conectividade mais avançada e maior integração entre dispositivos devem continuar influenciando a evolução dos aparelhos.”
A tendência é que o consumidor continue buscando produtos que entreguem mais conveniência, desempenho e uma experiência mais completa, acompanhando a mudança na forma como as pessoas trabalham, se comunicam e consomem entretenimento.
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IMAGEM: DC

