A volta para casa!
Enquanto seleções menores celebram a dignidade em campo, o luxuoso e desunido futebol brasileiro esbarra na falta de obstinação e no paradoxo freudiano do sucesso

Encontrar formas de citar Millôr Fernandes, autointitulado Guru do Meyer, já diz sobre o texto, dificilmente não se procurará um ângulo diferente. Esta coluna segue falando de Copa do Mundo, ainda que ela tenha acabado há poucos dias. Foi merecido? Está cada dia mais difícil falar sobre futebol dentro do campo.
Tomara que os dirigentes sejam acometidos de algum senso de caráter e questionem o presidente da FIFA, um pedido de um país não pode ser atendido da forma que foi, a presença em campo do jogador que teve seu cartão suspenso foi vergonhosa, inclusive para o time.
Por mais que não pareça até aqui, vou falar de caráter e das poucas surpresas ainda possíveis nesse esporte que se transformou num negócio multibilionário, que vai perdendo ou ganhando as similitudes com a vida, dizia Millôr:
“A vida é igualzinha ao futebol. Mas o campo não é demarcado, vale impedimento, a canelada marca ponto a favor, a bola é quadrada, o gol não tem rede, e o Supremo Juiz é um ladrão que expulsa do jogo quem bem entende, sem qualquer explicação.”
Ele se foi sem saber da existência do VAR. Sarcástico demais? Talvez! Mudemos o cenário para a chegada dos atletas de Cabo Verde ao seu país. Segundo a Wikipedia a estimativa da sua população para 2017 era de 560.899 habitantes.
O arquipélago conseguiu sua independência de Portugal apenas em julho de 1975 e tem 4.033 km2, quase metade da extensão territorial da Grande São Paulo, de onde escrevo, e boa parte disso, de difícil ocupação.
O avião da delegação, momento de celebração da Cabo Verde Airlines, chegou no Dia da Independência e foi uma festa linda de ser ver nas redes sociais. Eles acabaram eliminados pela campeã Argentina na prorrogação, mas apenas na prorrogação, depois de três empates contra a celebrada Espanha, o decepcionante Uruguai e a Arábia Saudita.
A nova celebridade Vozinha, o goleiro que foi de perto de 50 mil seguidores para quase 28 milhões, lembro que Novak Djokovic tem 16,6 milhões, estava junto com o time e deve ter curtido o país em festa, se enchido de orgulho, ainda que tivesse um salário de “apenas” 50 mil reais, a estimativa da folha de todos os titulares é de 2,5 milhões de reais.
Muitos jogadores da seleção canarinho ganham sozinhos mais do que todos eles. Não é aconselhável analisar o futebol pelo dinheiro. É um big business! Em contrapartida, o avião fretado pela complexa CBF trouxe apenas um jogador. Sinal da desunião e falta de compromisso do grupo? Também!
Mas quero falar de compromisso, garra, orgulho e caráter. Freud escreveu alguns textos discorrendo sobre o caráter e seus impactos. Tomemos caráter como uma espécie de padrões de comportamento diante dos desafios e conflitos da vida, internos e externos. Em 1916 ele escreveu Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica.
Oito anos antes, tinha escrito um pequeno texto, Caráter e erotismo anal. No segundo texto, o pai da psicanálise buscava descrever tipos de pessoas com as seguintes características: ordeiras, parcimoniosas e obstinadas.
Não tenho dúvidas que a obstinação fez falta ao time brasileiro, talvez um tanto de ordem para marcar o Haaland, também. E a parcimoniosidade em deixarem de se achar a última bolacha do pacote. No mínimo, um século depois, resta firme a questão do reter e do dar, entregar a quem pede, descobrir um certo prazer no controle e outras conexões.
Freud também correlacionou o dejeto humano ao dinheiro, numa oposição entre o desprezível e o valioso e lembra que o dinheiro não faz parte da infância das pessoas, chegando depois e ocupando um lugar.
Para Freud naquela época, os traços de caráter que permaneciam eram continuações inalteradas dos instintos originais, sublimações ou formações reativas. No segundo texto ele apresenta os três tipos: as exceções, os que fracassam no triunfo, e os criminosos por sentimento de culpa.
No primeiro tipo estão os que se sentem exceção e, portanto, possível de solicitarem prerrogativas sobre os demais. Encaixa-se aí, Ricardo III e suas palavras: ”A natureza cometeu uma grave injustiça comigo, ao me negar as belas proporções que conquistam o amor humano. A vida me deve por isso uma reparação, que eu tratarei de conseguir. Eu tenho o direito de ser uma exceção, de não me importar com os escrúpulos que detém os outros. Posso ser injusto, pois houve injustiça comigo.”
Precisa dar mais exemplo? O segundo é quando a pessoa não suporta as próprias conquistas, não se julga merecedora e meio que se autoboicota, queria, se esforçou, batalhou, e quando alcança, fica doente ou tem alguma outra reação inconsciente. Freud traz Lady MacBeth e seu desejo pelo poder. No terceiro tipo, os criminosos por sentimento de culpa, a pessoa acredita que fez algo errado, não precisa ser um crime, aí ela encontra formas de ser punida, não suporta guardar para si o fato.
Talvez nossa seleção nessa Copa tenha sido apenas um caso de falta de garra, de conexão, de união de equipe. O final foi melancólico, não senti desespero, vontade, inconformismo. Faltou obsessão, uma pressão absurda, o dar a vida em campo. E aí veio outro sentimento que pode e deve ser tratado na análise: a vergonha!
A vergonha de voltar para casa, mesmo que com os bolsos cheios, inclusive de grana de bets e ter que falar, desculpa aí, não dei meu máximo, independente das razões. Errou o técnico, erraram os jogadores, sofremos todos nós. Se o tetra parecia encantado, o hexa, está muito mais. Enquanto não houver disposição e planejamento, seguimos distantes.
Estou curioso para assistir A Odisseia, versão do Christopher Nolan. Odisseu se esforçou um pouco mais para voltar para casa, levou tempo, não desistiu! Talvez os jogadores precisem inverter Millôr e deixar o futebol igualzinho à vida: tem que ralar e correr mais! Ficar atento, se antecipar! Não ter vergonha!
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