Bom Retiro: menos lojas de roupas e mais cafés e dark stores

Neste mês, há 112 lojas fechadas em dez ruas do bairro, que vive período de diversificação de negócios. Valor dos aluguéis chega a ser até 25% menor do que antes da pandemia

Fátima Fernandes
26/Fev/2024
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Bom Retiro: menos lojas de roupas e mais cafés e dark stores

Um dos bairros mais tradicionais do comércio de atacado e varejo de roupas de São Paulo volta a exibir um retrato que demonstra que esses negócios não vão nada bem neste início de 2024.

Levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro revela que, em 10 das mais importantes ruas de comércio do bairro, existem 112 lojas fechadas neste mês.

Como base de comparação, em junho do ano passado havia 77 lojas vagas nessas mesmas ruas e, em fevereiro de 2020, antes da pandemia, 60.

O segundo semestre de 2020 e todo o ano de 2021 foram uns dos piores da história do bairro para as confecções. Em setembro de 2020 havia 190 lojas fechadas e, em maio de 2021, 181.

Em 2022, para alívio dos lojistas, parecia que o período ruim havia ficado para trás. Os espaços vagos começaram a diminuir, chegando a 64 lojas fechadas em dezembro de 2022.

Em junho do ano passado, ao contrário do que previam os lojistas, esse número voltou a subir para 77 e, agora, em fevereiro, para 112, ou 35 a mais em menos de um ano.

Rua tradicionalmente disputadíssima pelos lojistas, a Professor Cesare Lombroso possui 21 lojas fechadas, das quais 11 somente no shopping Lombroso.

Na Rua José Paulino, a mais famosa do bairro, há 20 imóveis com as portas fechadas, das quais seis no primeiro quarteirão e seis no último, de acordo com o levantamento da CDL.

Como consequência, os preços dos aluguéis caíram de 20% a 25% em relação a antes da pandemia, de acordo com Jaime Rabinovitsch, sócio-proprietário da Rebeca Imóveis.

Espaços de 200 metros quadrados que eram alugados por R$ 30 mil a R$ 40 mil por mês, de acordo com ele, hoje são locados até por R$ 25 mil.

“O bairro está passando por um processo de diversificação, que se intensificou depois da pandemia”, diz Christos Kritselis, vice-presidente da CDL e sócio-diretor da Ginestra.

Com uma confecção que está há mais de 50 anos no bairro, diz ele, é visível o processo de encolhimento do seu setor no Bom Retiro.

O bairro que, tradicionalmente, tinha cerca de 2 mil confecções para vendas no atacado e no varejo, de acordo com Kritselis, não deve ter hoje mais do que 1,2 mil.

A Ginestra, que possui duas lojas de atacado no Bom Retiro e uma de varejo na Alameda Lorena, no Jardins, decidiu fechar a loja que tinha há 15 anos no Mega Polo Modas, no Brás.

A produção da confecção, diz Kritselis, reduziu uns 10% depois da pandemia. “O perfil de consumo mudou e a procura por vestuário diminuiu também por conta do home office”, diz.

“O mercado consumidor mudou muito, não apenas no setor de confecção. O movimento no comércio está muito fraco”, afirma Nelson Tranquez, conselheiro da CDL.

Uma combinação de fatores, diz, pode estar levando o bairro a sentir uma mudança de perfil. O avanço do e-commerce, o alto endividamento das famílias e os gastos em outros setores.

“As praias ficaram lotadas neste ano, as pessoas voltaram a viajar e também estão mais cuidadosas com as compras. Tudo isso tem impacto no setor de confecção”, diz.

Outro movimento que se vê nas confecções no bairro, de acordo com Rabinovitsch, é o fato de a segunda geração de coreanos não dar sequência aos negócios da família.

A Hai Imóveis, imobiliária que atua na região, possui cinco imóveis para locação na Rua Cesare Lombroso.

“O aumento de imóveis vagos nessa rua surpreendeu”, afirma Adriana Weizmann, sócia-diretora da Hai.

Muitos proprietários, diz ela, ainda tentam manter os preços dos espaços à espera de uma reação do mercado com a chegada do inverno. 

Mas é fato que o pagamento de luvas, prática que sempre existiu para entrar em pontos mais cobiçados no bairro, não é mais assunto nas negociações entre locadores e locatários.

DIVERSIFICAÇÃO

Ao mesmo tempo, lojas mais populares, como de acessórios para celulares, assim como cafés e restaurantes, estão surgindo cada vez mais na região, preenchendo os espaços vagos.

Na Rua Três Rios, uma pequena mercearia, a Otugui, se transformou em um supermercado que já é considerado o maior importador e distribuidor de alimentos coreanos do Brasil.

Muitos dos negócios ativos no Bom Retiro são tocados por coreanos, que passaram a entrar no setor de alimentação, abrindo supermercados, cafés, restaurantes. Há até praça na região com o nome Brasil-Coreia

 

Na Rua Correia de Melo, o restaurante de comida judaica Shoshana Delishop, há mais de 30 anos no bairro, que quase fechou as portas durante a pandemia, retomou com força.

Um grupo de empresários da região decidiu se unir e comprar o restaurante do casal Adi e Shoshana Baruch, que abriu o estabelecimento em 1991.

Também na rua Correia de Melo está para inaugurar o shopping Mamãe Cheguei, com toda a linha de produtos para bebês.   

“Os coreanos estão entrando fortemente no setor de alimentação no Bom Retiro, abrindo supermercados, cafés, restaurantes. Tem até praça com nome Brasil-Coreia”, diz Aldo Macri, presidente do Sindilojas- SP.

Chineses também estão aproveitando imóveis vagos, de acordo com lojistas, para montar as chamadas dark stores, espaços para armazenamento de produtos para distribuição.

Somente neste ano, imobiliárias alugaram mais de 200 imóveis no bairro para chineses.

ANÁLISE

O que se vê no Bom Retiro é um movimento que permeia o varejo como um todo, na avaliação de Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da Gouvêa Malls.

“Há uma diluição de canais de venda, e o varejo físico não precisa mais ter tantas lojas como no passado. Os espaços vagos passam a ter novas funções”, afirma.

Com o retorno gradual de pessoas aos escritórios, diz, a demanda por bares e restaurantes volta a crescer, até porque o ser humano continua valorizando a convivência, os encontros.

Assim como está acontecendo nos shoppings, faz muito sentido, na avaliação de Marinho, que nos bairros comerciais também comece a ter um equilíbrio entre lojas, serviços e restaurantes. 

“Ambos os movimentos têm origem na mesma tendência, que é o aumento do digital, a redução de lojas físicas e a maior fragilidade do lojista pequeno diante do grande.”

Tudo isso, diz, faz com que os negócios migrem para alimentação e serviços, que continuam tendo uma demanda mais aquecida, já que o digital não entra tão forte nesses setores.

 

IMAGENS: Fátima Fernandes/DC

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