Economia

O país saiu da recessão. E agora?


Economistas da Associação Comercial de São Paulo avaliam que a tendência é de continuidade da recuperação, mas a velocidade será determinada pela aprovação de reformas importantes para o país


  Por Redação DC 01 de Junho de 2017 às 20:00

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


O avanço de 1% do Produto Interno Bruto (soma das riquezas do país) no primeiro trimestre deste ano na comparação com os três meses anteriores mostra que o país saiu tecnicamente da recessão e entrou em uma rota de recuperação, depois de oito trimestres consecutivos de quedas. 

Do ponto de vista da oferta, o resultado positivo foi puxado pela produção agropecuária, que subiu 15,2% no trimestre, na comparação com igual período de 2016.

Para isso, colaborou o clima e os ganhos de produtividade, resultando na melhor safra dos últimos 20 anos, principalmente no caso das culturas de milho e soja.

O economista Roberto Macedo, coordenador do Conselho de Economia da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que a questão é saber se existe perspectiva de crescimentos expressivos no PIB nos próximos trimestres.

Segundo ele, os números positivos que se referem à colheita da safra agrícola, ocorrida no início deste ano, tendem a se diluir nos cálculos dos próximos trimestres. 

"O que devemos acompanhar é se haverá um efeito da venda desses produtos sobre a renda de produtores, fornecedores e trabalhadores do setor agrícola".

"E se isso será repassado ao consumo interno nos próximos trimestres, beneficiando a indústria e o comércio", afirma. 

Por enquanto, indústria e serviços, incluindo o comércio, são setores que apresentam resultados negativos. Na comparação com o primeiro trimestre de 2016 a atividade industrial apresentou retração de 1,1% nos primeiros três meses deste ano. 

Trata-se de uma contração menor do que a observada no primeiro trimestre de 2016 (-7,0%), e segundo análise de economistas da ACSP, é explicada basicamente pelos aumentos da produção e distribuição de eletricidade, gás e água (4,4%) e do setor extrativo mineral (9,7%). 

Os serviços - principal setor produtivo da economia - encolheram 1,7% nos primeiros três meses do ano, na mesma base de comparação.

Neste caso, a intensidade foi menor do a registrada em igual período de 2016 (queda de 3,5%), em razão das reduções da renda e do emprego.

Dentro do setor de serviços, todos os segmentos exibiram contração, especialmente os relacionados com atividades de intermediação financeira (-4,0%) e comércio (-2,5%) ante igual período de 2016.

Segundo Macedo, que acredita em um crescimento de 1% do PIB neste ano, o Brasil está subindo os primeiros degraus da escada que o retira do fundo do poço. 

O fator crucial para a retomada do consumo e do investimento será a elevação dos índices de confiança. 

"Se a crise política afetar a confiança passaremos por outra forma de instabilidade, como a observada no governo Dilma, na qual consumidores tinham medo de consumir e empresários, medo de investir", diz. 

A equipe de economia do Instituto Gastão Vidigal da ACSP avalia que a perspectiva para 2017 é de continuidade da recuperação da economia, já que a produção agropecuária deve seguir contribuindo para a retomada do crescimento do PIB. 

Segundo a análise, a maior produção de alimentos no campo acentuará a redução da inflação, que deverá prosseguir em patamar baixo, abrindo espaço para a continuidade da redução dos juros por parte do Banco Central. 

"Ao mesmo tempo, as exportações também poderão continuar contribuindo positivamente para elevar a atividade, ainda que sua evolução dependa do comportamento do câmbio."

No entanto, ressaltam em relatório que, mesmo com a manutenção da atual política econômica, a crise político-institucional, embora não mude a tendência de recuperação, poderá reduzir a sua velocidade. 

Além da produção do agronegócio, as exportações foram o único item da despesa a dar contribuição positiva ao, aumentando 1,9% no trimestre sobre igual intervalo de 2016.

Na análise dos economistas, isso foi produto da elevação da taxa de câmbio ocorrida durante o ano passado, que aumentou a competitividade da produção nacional, e da recuperação da economia mundial.

Apesar do recorte positivo, o PIB no trimestre ainda permaneceu em queda de 0,4% se comparado ao mesmo período de 2016. 

 

Ou seja, ainda há indicadores que puxam o resultado da atividade econômica para baixo em termos interanuais. O consumo das famílias, principal componente, apresentou queda de 1,9% no trimestre sobre igual período do ano anterior. 

Apesar disso, o recuo foi menor do que o registrado em 2016 (de -5,8%), em decorrência das reduções da renda, do crédito e do aumento do desemprego.

No caso dos investimentos produtivos e em infraestrutura (formação bruta de capital fixo), a contração foi de 3,7%, na mesma base de comparação, decorrente da falta de confiança dos empresários, da paralisação das empresas envolvidas na Operação Lava Jato e da diminuição do investimento público. 

"A participação destes investimentos sobre o PIB (taxa de investimento) diminuiu para a apenas 15,6%, que além de constituir o percentual mínimo histórico, está muito abaixo da média para os países emergentes (25% do PIB)."

De acordo com a análise, o consumo do governo, que corresponde basicamente às despesas com servidores nas três esferas governamentais, apresentou redução de 1,3%, mais intensa do que a observada durante o ano passado (-0,8%), refletindo esforço de contenção dos gastos públicos.

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