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Publicado em Quinta, 19 Julho 2012 19:40
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Escrito por Moisés Rabinovici
Entre renomados e enormes hotéis de cinco estrelas iguais nas principais cidades do mundo, e pequenos, aconchegantes, exclusivos, chiques e badalados, os hóspedes preferem... Claro!

Reação dos gigantes da hotelaria: o Hyatt criou o hotel-butique Andaz, em Londres, multiplicado mundo afora, e controla o californiano Joie de Vivre. O Marriott plantou a série Edition em dezenas de cidades. O Intercontinental fez o Indigo; Sofitel, o Modo. E Sonesta, o Kept.
Os viajantes se cansaram de hotéis que são os mesmos, não importa onde estejam. E o resultado, nos EUA, em 2011, o confirmou: os pequenos saíram da crise crescendo 10%, enquanto o restante, 6%.
O primeiro hotel-butique, The Blake, em Londres, nos anos 80, ficou mais famoso do que a atriz Anouska Hempel, que o idealizou. Seu bar cobrava o preço mais alto da Inglaterra. Em compensação, os hóspedes eram chamados pelo nome e recebidos com abraço ou aperto de mão.
Com sorte, veriam Virginia Woolf numa das mesas, até 1982, quando morreu. Mais que tudo, sentiam-se personagens de Funky Chic, ensaio que Tom Wolfe publicou na revista Rolling Stone e depois em livro, em 1976.
Funky é uma das palavras em inglês mais difíceis de definir com precisão. Pode ser a melancolia do jazz, blues e soul; foi cunhada para descrever o cheiro de queijo velho, daí a generalizar-se como mal-cheiro; hoje a usam como bizarro, sem gosto ou estilo – e até como sinônimo de hotel-butique. Tom Wolfe diz no ensaio que cada pessoa, ou sua psique, a sua alma, é o produto da moda e de outras influências externas.
Os gigantes que se apequenaram e se proliferam, focam em arquitetura arrojada, quartos com arte e tecnologia, conexão veloz e grátis para internet, lojinhas com produtos exclusivos, e talvez percam o ponto principal: a individualidade do hóspede, ou do dono, um ambiente com personalidade e o vaivém de celebridades (adorando ser) perseguidas por paparazzi, como nos três butique-hotéis que o convidamos a conhecer – um deles, o londrino Soho House, um clube fechado, está buscando espaço para abrir em São Paulo.
Viagem a Miami a convite do Miami Convention & Visitors Bureau
The Lowell

O taxista do JFK não parte ao ouvir The Lowell, please", como se fosse o Waldorf Astoria. Precisa do endereço. Já na rua 63, Leste, fica procurando uma placa do hotel, mas ela é discreta, ao gosto do Cidade Limpa numa Nova York que pisca e brilha com cartazes. Estamos no Upper East Side, melhor mordida na Big Apple. Chegamos. Discreto, a fachada art decô de tijolo e terracota. O prédio, de 1926, tem 17 andares.
Ao entrar no lobby, o mundo muda, mais Europa do que EUA. E com o registro, todos os funcionários o chamarão pelo nome. O concierge tem a fama de obter ingressos esgotados para peças na Broadway. Se algum brasileiro quiser, ele poderá falar em português.
Um bom vinho de boas-vindas, ou uma champanha, o esperam num dos 23 quartos luxuosos ou em alguma das 49 suítes. Madonna morou na suite Manhattan, antes que fosse redecorada em homenagem a Coco Chanel. Jennifer Lopez foi hóspede em fevereiro. E Tom Hanks, Tim Burton, Jo Malone, Gwyneth Paltrow... A noite na suíte Penthouse custa US$ 7.500. Os preços variam de US$ 750, no quarto Deluxe King, a US$ 3.275 na Lowell 2BR Suíte.
Há hóspedes brasileiros que voltam depois da primeira estadia. O hotel não faz inconfidências. Mas um empresário português sempre se encontra com "o amigo dono de haras" do interior de São Paulo. Ele próprio "vive aqui", porque de Lisboa a Nova York "são só seis horas de voo".
Todos os apartamentos têm lareira. E o hóspede escolhe se vai queimar eucalipto ou lavanda. Ao acordar, o New York Times estará à porta. Bebe-se água das ilhas Fiji. E usa-se, no banheiro, a coleção de cosméticos da Bulgari. Afundado num banho de espuma, dá para ver TV ou DVD numa tela de plasma, ou som do próprio iPod plugado no sistema Bose.

Ah, o minibar. Mais correto chamá-lo de máxibar. Contém tudo que deveria, e o inesperado. Nos anos 90, acirrada a guerra dos hotéis Golias contra o David dos butiques, o bar teve seu tempo de glória. Os hóspedes do Trump Internacional, de Chicago, pagavam US$ 25 por uma garrafa de água com cristais Swarovski. Um hotel de Vancouver, no Canadá, foi muito além das armas convencionais - chocolates, vinhos e destilados. Acrescentou tubos de oxigênio a seu arsenal.
Aos atletas, um fitness center completo. E para saudosistas e românticos, o chef pode preparar uma cesta para piquenique no Central Park. O restaurante, The Post House, serve um celebrado New York steak. E não só para humanos.
Sim, há um cardápio só para pets. Que tal o "Sophisticated Dog", filet mignon tartar (US$ 24)? Ou o peito de frango "The Lean Dog"(US$ 13), acompanhado de arroz, ou batata, ou sardinhas? Talvez o cachorrinho queira apenas snacks - um biscoito de osso, ou orgânico, chamado de Fresh Kisses. E tem também batata doce.
Se, numa emergência, o hóspede precisar de uma bolsa ou mala para levar o seu pet, aqui também poderá comprar, desde que avise um dia antes. São dois modelos, ambos Louis Vuitton.
Mas o melhor do The Lowell deixei propositadamente para o fim. É a porta, aberta para a incrível Nova York. E num ponto maravilhoso, perto de tudo o que realmente interessa.
The Lowell: 28 East 63rd Street (entre avenidas Madison e Park), Nova York,
www.lowellhotel.com.
Soho Beach House

Badala ou balada? No clube e butique-hotel Soho Beach House a troca de letras não fará diferença. Aqui, as duas palavras se sobrepõem, uma só. É sentar no lobby, e pronto. Ali a um canto está o âncora de tevê atualmente bombando. E as duas jovens passando de máxi-minissaias são modelos da hora. Os paparazzi estão a postos.
Badalação. Clima de balada. É Miami. Tanto quanto o sol na praia, glamour, sensualidade, "vibe", ou vibrações, devem pairar suspensas como partículas de deus. No Soho Beach House todos os respiramos. Mulheres siliconadas ou embotocadas são raras. Talvez estejam ali perto, no imenso hotel Fontainebleu, onde um dia repórteres brasileiros plantonaram para seguir o então presidente Itamar e sua namorada, a major Doralice. Já a maioria dos homens parece ter saído da Academia - a de malhação, evidentemente.
O repórter confessa que se sentiu um tanto deslocado. Mas persistiu, por dever de ofício. Um momento de confusão foi quando, debaixo do chuveiro "rainforest", uma verdadeira cachoeira, teve que decidir se usava gel para banho Knackered Cow, relaxante; ou Wild Cow, revigorante; ou Horny Cow, excitante, todos da grife inglesa Cowshed spa, parceira da rede Soho. Mais de dez garrafas sobre o minibar (mini?), entre copos de cristais, limas e limões, também geram dúvida atroz. Tantas, e tão preciosas, qual beber? Melhor convocar o bartender por telefone. Ele virá preparar o seu coquetel. Mas o serviço aparecerá na sua conta.

O primeiro Soho nasceu modesto, acima do restaurante Café Boheme, em Old Compton Street, no centro de Londres, em 1995. Hoje é um seleto clube frequentado por ricos e famosos em sete hotéis abertos em Nova York, Los Angeles, Berlim e Miami, mais 11 restaurantes e o pioneiro cinema londrino, Electric, em Notting Hill. São 4,5 mil associados e 3 mil candidatos na fila de espera, depois de um expurgo de cerca de mil membros "engravatados" em 2010. Sim, enforcados pela gravata.
"O clube estava se tornando ponto de negócios", explicou o responsável pela Beach House, em Miami. A maior parte das vítimas era do Soho House de Nova York, no Meatpacking District. Mas o sacrifício "doloroso" passou. Agora o foco é a expansão que incluirá Milão, Istambul e São Paulo, até já visitada para prospecção, sem sucesso. Buscam locais com pedigree. Ocuparam em Miami o prédio art decô do Sovereign Hotel. E em Berlim estão na casa que abrigou a Juventude Hitlerista, comprada dos donos judeus.
Os sócios da Soho House pagam de US$ 1.200 a US$ 2.400 por ano, dependendo da categoria escolhida entre cinco opções. A mais cara, Every House, dá direito a todos os clubes pelo mundo, mas não inclui a hospedagem. O sócio terá preferência no Cowshed Spa, talvez privilégio na mesa dos restaurantes, prioridade em reservas e receberá as revistas quadrimestrais de inovativo design, a Cookhouse e House Tonic.

Ganhei de cortesia uma massagem. E não uma qualquer, porque a massagista, brasileira há muito americana, foi quem atendeu o exótico Tom Cruise, no dia em que ele fechou o Cowshed Spa para a festa de seus 49 anos, ano passado, enquanto filmava Rock of Ages na cidade.
Se uma garrafa de água da piscina do Soho Beach em que Tom Cruise mergulhou está valendo US$ 130 na e-bay, por ser considerada milagrosa pelos cientologistas, a cotação da minha pele pode ter valorizado um pouquinho.
O charme britânico descontraído do Soho Miami tem certa nostalgia cubana pré-Fidel, anos 40. Fuma-se puros no Tiki Bar, pit-stop na trilha para a praia particular. Ventiladores de pé decoram 50 quartos com ar-condicionado. O sol é do Caribe. E o restaurante Cecconi, no térreo da badalação, ou das baladas, está invadido por trepadeiras.
Mondrian
A propaganda oficial sustenta que Miami já ganhou o título de A Capital Mundial dos Hotéis-Butique. Parabéns, com uma ressalva: o critério adotado para proclamar-se campeã, o de ter menos de cem quartos, não é unânime. Muitas espeluncas são bem pequenas. E muitos listados como lifestyle, de 250 a 300 quartos, são aconchegantes, bons de serviço e até tratam seus hóspedes com certo grau de individualidade.

Mas estamos na exuberante Miami, na Flórida da Disney, das viagens espaciais e da invasão de brasileiros, nos EUA que cultuam excessos e grandiosidade. Então temos hotéis que ostentam a maior piscina do mundo, o Biltmore, por onde vaga ainda o fantasma de Al Capone; o Delano, que tem artistas como Gaudí, Salvador Dalí, Man Ray e Mark Newson em seu acervo; um que foi pintado com as cores de Matisse, The Shore Club; o Thompson, ex-Victor, que oferece um oásis subterrâneo de rejuvenescimento; a mansão de Versace, em que ele foi assassinado, agora Villa By Barton G, também conhecida como "não acredito que fiquei aqui"; e excentricidades tipo música em fundo de piscina, e haja fôlego para escutar, e o atual point da balada e da badalação, o FDR, ou Franklin Delano Roosevelt, o 32° presidente americano. É como se no Brasil a moçada fosse dançar na boate FHC, ou JK, iniciais que não acendem vibrações, "vibes", a palavra hoje mais impressa nas colunas sociais.

E chegamos ao Mondrian, "o castelo da Bela Adormecida". É uma aposta em hotel-temático. "Queremos encantar o hóspede", explica o vice-presidente do grupo Morgans Hotel, JP Oliver. Foi um premiado artista holandês, Marcel Wanders, quem teve a ideia e a executou. Não à toa o New York Times o batizou de Lady Gaga do design. Todo branco brilhante na entrada vazia, minimalista, ao fundo do lobby surge, contrastante, uma escada negra circular, talvez a usada pela bruxa. Os lustres lembram sinos gigantes. E uma mesa comprida seria a dos anõezinhos, em cada ponta cadeiras maiores. A loja que nunca fecha é uma parede inteira que funciona como máquina de vendas eletrônica: joias, relógios, headphones e gadgets. Mas os hóspedes recebem um cartão desconto para compras em Miami.
A Bela Adormecida do Lady Gaga está mais para Barbie. As adolescentes que surgem em bandos dos elevadores na noite de sexta se vestem como Barbies. Na parede diante de cada cama dos 335 "estúdios" uma Barbie Adormecida observa e assusta o Hóspede Despertando. É um incentivo a pular da cama mais rápido e se extasiar com a vista fantástica de Biscayne Bay. Aí você abre a torneira para uma ducha. E descobre onde o Lady Gaga pôs o chuveiro: dentro do lustre.
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