CPMI do Cachoeira: Grupo agia como 'metástase', diz delegado
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- Publicado em Quarta, 09 Maio 2012 22:47
- Escrito por Agência Estado e Folhapress
O delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques Souza classificou a atuação do grupo comandado pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, como uma "verdadeira metástase". A comparação foi feira em depoimento reservado da CPMI do Cachoeira.
Nas seis horas de reunião com os parlamentares, na terça-feira, Souza detalhou a forma de agir do grupo que, aos moldes das máfias, pagava regularmente propinas a servidores públicos por informações e não admitia que os integrantes se apropriassem de recursos do esquema.
Segundo parlamentares que acompanharam o encontro, o delegado afirmou que a Operação Vegas teve 55 alvos entre 2008 e 2009. Foram realizadas 61.803 ligações, em um total de 1.388 horas de gravação durante os 60 dias de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça. Isso dá, nas contas do delegado, 1.030 ligações feitas por dia. O chefe do esquema, Carlinhos Cachoeira, teve 234 horas de conversas interceptadas – média de quatro horas/dia.
Segundo Souza, o grupo tinha grande preocupação com o vazamento de informações. Por precaução, o bicheiro sempre trocava de telefones para tentar fugir dos grampos. O delegado, segundo relatou integrantes da CPMI, admitiu que essas constantes trocas dificultavam a continuidade das apurações. Mas a sorte virou quando o grupo passou a usar aparelhos que não são imunes à interceptação.
As investigações descobriram o envolvimento de dois integrantes da PF com o vazamento de batidas policiais nas máquinas caça níqueis no Estado de Goiás e no entorno do Distrito Federal, área de atuação do grupo. Eles recebiam propina, assim como, segundo o delegado, policiais e outros servidores públicos estaduais e municipais. Era a rede de proteção do contraventor. A guarida era tamanha, disse, que eles abordavam carros oficiais antes de realizarem batidas. Ou até se antecipavam às operações, trocando máquinas novas por velhas.
O delegado disse que Cachoeira só liberava a entrada de novos exploradores do negócio mediante o pagamento de comissões que alcançavam 30% do faturamento. Em abril de 2009, as investigações descobriram que um integrante do grupo de Cachoeira foi mantido em cárcere privado porque o contraventor desconfiava que ele teria se apropriado de parte dos ganhos do esquema.
Cachoeira delegou a tarefa de dar uma "prensa" nesse integrante aos arapongas Jairo Martins e Idalberto Matias Araújo, o Dadá. "Era uma verdadeira metástase", comparou o delegado.
O delegado disse que a apuração da PF foi parada no momento em que apareceram as conversas com parlamentares com prerrogativa de foro, como o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO).
O caso foi remetido ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em meados de 2009. Mas a mulher dele, a subprocuradora Cláudia Sampaio, avaliou que não havia indícios para que a apuração continuasse no Supremo Tribunal Federal (STF).
"Não tenho conhecimento de devolução para a primeira instância", afirmou o delegado. Ele disse ter colaborado posteriormente com a Operação Monte Carlo, que prendeu Cachoeira e seu grupo.
Câmara quer discutir redução de poderes dos procuradores
O delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques Souza, titular da Operação Vegas, deflagrada contra o bicheiro Carlinhos Cachoeira e seu grupo, será chamado pela Comissão da Câmara dos Deputados responsável pela PEC (proposta de emenda constitucional) nº 37/2011, que acaba com os poderes de investigação do Ministério Público na área criminal e define que as apurações desse tipo só podem ser feitas pela polícia.
O objetivo dos deputados é ouvir Souza sobre a suposta inércia da Procuradoria-Geral da República após a operação. A paralisação teria compreendido o período entre setembro de 2009 e março deste ano.
Souza será convidado a falar à comissão e poderá recusar o pedido da Câmara. A presença de Souza na comissão foi pedida pelo deputado federal Lourival Mendes (PTdoB-MA), que é delegado da Polícia Civil e o autor da PEC.
Apesar de a Operação Vegas não ter envolvido a questão dos limites de investigação do Ministério Público no campo criminal a apuração foi feita em inquérito da PF o presidente da comissão, o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), entendeu ser conveniente ouvir o delegado da PF.
"A Procuradoria amarrou o trabalho da PF e queremos que isso seja esclarecido para nós", disse Faria de Sá.
Para o procurador Mário Bonsaglia, do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) a medida "está dentro da lógica daqueles que querem atacar a atuação investigatória".






