O divórcio e o distanciamento entre os partidos políticos e os cidadãos se acentuam no Brasil e no mundo. A realidade tem mostrado que as instituições partidárias conseguem mobilizar e organizar um número inexpressivo de eleitores ou de novos filiados em razão, segundo os especialistas, da falta de identidade programática, da atuação verticalizada, fechada e, ainda, pelas decisões de cúpula. Esta é responsável por manter privilégios e fazer acordos para permanecer no poder, impedindo o debate amplo e a participação política dos militantes e dos cidadãos dentro e fora das chamadas instâncias partidárias.
Descrença – Em consequência, o que se vê é a descrença dos cidadãos nos partidos e em seus parlamentares, o desinteresse pela atuação política dentro dos partidos, que são rejeitados e estão cada vez mais sem crédito com os eleitores. Dentro desse cenário, as pessoas então deixaram de se interessar pelas causas políticas, em vários âmbitos, e desistiram de atuar de forma ativa em questões político-ideológicas? Não, ao contrário, avaliam os especialistas com base em diversas realidades e práticas sociais.
Alá na web – A cidadania política fora dos partidos tem se expressado e atuado por meio do uso das novas tecnologias digitais, em especial pela montagem de redes virtuais. Essas ações desenvolvem-se em menor proporção pelo desempenho dos hackers contra o Estado e pela participação de milhares de internautas em causas específicas ou de alcance nacional, em vários países.
Os exemplos podem ser medidos pela atuação dos muçulmanos nos conflitos no norte e nordeste da África – Tunísia, Líbia e Egito –, ou ainda na Ásia e Oriente Médio – Irã, Iêmen e Jordânia –, nos quais a mobilização para a luta contra governos ditatoriais ocorrem muito a partir de conexões que se formaram com base nas redes sociais digitais na web.
Ações pontuais – No caso do Brasil, há protestos contra assuntos localizados e gerais, envolvendo causas ecológicas ou até a moralização da vida pública. Ainda em relação ao País, alguns movimentos conquistam grandes apoios por meio das redes digitais, mas essa expressiva mobilização pelo ar não se traduz em número destacado de pessoas nos eventos de protesto.
Neste caso, foi o que ocorreu com o movimento que se posicionou contra a intenção de moradores do bairro de Higienópolis, em São Paulo, que eram contrários à existência de estações do metrô no local. O churrasco de protesto contra esses moradores, organizado no próprio bairro, teve pequeno número de pessoas, em comparação com a adesão registrada na web.
Seja como for, ao abordar a questão do distanciamento entre partidos e cidadãos, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), em sintonia com muitos especialistas, reconhece que esses movimentos pelas redes sociais digitais representam, no cenário político brasileiro e mundial, "expressões completamente novas da luta política", caracterizando "uma revolução democrática global".
Inovar – Segundo Genro, os partidos políticos, de todos os matizes ideológicos, precisam pôr em prática projetos inovadores, ousados, pois, sem isso, "ficarão cada vez mais distantes das bases sociais em movimento, que lutam para promover a democratização da democracia".
"O fenômeno é mundial", concorda José Eli da Veiga, economista e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-USP). "Manifesta-se de forma mais intensa nos países em que a legislação partidária e eleitoral bloqueia a expressão política dos cidadãos que estão fora dos partidos."
Mais eficácia – Na avaliação de Veiga, os partidos estão ultrapassados porque o aprofundamento da democracia não mais exige que as pessoas se filiem a entidades permanentes que defendem determinado modelo de sociedade, ou "determinada visão de longo prazo sobre a evolução social." O que se exige para o avanço democrático, de acordo com Veiga, é que as instâncias partidárias e parlamentares funcionem com mais eficácia e agilidade, respaldadas em frequentes e amplas consultas aos eleitores sobre questões concretas.
Primeiros passos – Ao mesmo tempo, acrescenta, os eleitores devem poder exercer real vigilância e controle sobre seus representantes. "Tudo isso vai se tornando cada vez mais possível graças aos avanços tecnológicos das telecomunicações e, em especial, da web", observa.
Para Veiga, no Brasil, os eleitores e os filiados aos partidos políticos engatinham em relação à atuação política por meio da internet. Já no que diz respeito aos partidos, "que se saiba, nem sequer engatinham". Na avaliação de Gabriel Rossi, estrategista em marketing político e digital, os partidos políticos brasileiros ainda "estão em processo de aprendizagem" em relação à internet.
Rossi baseia-se na eleição passada para avaliar a participação política dos cidadãos e dos filiados aos partidos por meio da internet. "Essa participação foi decepcionante em 2010. Vários fatores contribuíram para isso: havia carência de uma banda larga adequada e de uma maior educação digital. No geral, houve evolução, mas não é possível dizer que a web já é utilizada de forma efetiva, embora haja exemplos promissores", diz.
Ex-verdes ensaiam nova proposta nas redes
Ao sair do Partido Verde (PV), na semana passada, um grupo de "verdes", liderados por Marina Silva, anunciou que dará continuidade a um movimento político suprapartidário, a ser desenvolvido principalmente por meio das redes sociais digitais na web. De acordo com o grupo, o movimento debaterá questões nacionais e, em especial, as causas da sustentabilidade, da justiça social e da democracia, abrindo espaço para o surgimento de novas formas de ações políticas no Brasil.
"Não sabemos aonde o movimentará chegará, nem como se desenvolverá. Mas não temos dúvida de que vai evoluir", afirma Marina Silva. "No momento, não pensamos em criar um novo partido baseado no ideário verde, ecológico. No futuro, se os integrantes do movimento decidirem que precisamos criar um novo partido, então será criado. Agora, não temos essa intenção", diz Marina. E acrescenta: "A partir dessa experiência, vamos transformar a maneira de participar da política".
Segundo Alfredo Sirkis, deputado federal agora licenciado do PV, o partido, fechado para a democracia interna, o que levou à saída do grupo da legenda, mostrou-se incapaz de incorporar a experiência vivida pela candidatura da Marina Silva à Presidência da República, nas eleições de 2010, quando ela obteve quase 20 milhões de votos.
Na rede – Segundo Maurício Brusadin, outro desfiliado do PV e ex-presidente do partido no Estado de São Paulo, a internet já se transformou em ferramenta essencial aos políticos. "Durante a campanha, encontramos muitos grupos descrentes da política e dos políticos", conta. "Mas tinham atuação política intensa por meio da discussão na web dos problemas nacionais e da sustentabilidade."
De acordo com ele, vários cidadãos, sem nenhum interesse em atuar dentro dos partidos, também usavam a internet para debater questões nacionais. "Todo esse pessoal se aproximou da Marina. Deu-lhe apoio na eleição", disse Brusadin.
Depois da eleição, segundo ele, Marina e os "verdes" puseram em prática a transição democrática em âmbito nacional. Assim, divulgaram não só o programa do PV, como também participaram de vários debates. "Discutimos muito, inclusive a crise de intermediação entre os partidos e integrantes da sociedade civil, que não se identificam mais com as agremiações."
Os integrantes do movimento "verde" suprapartidário vão intensificar as discussões por meio da utilização das redes sociais digitais. "Com o movimento, queremos transformar a forma de atuação política no País e aprofundar a democracia. Vamos incorporar os insatisfeitos com a política, os interessados em melhorar o Brasil e a nova geração que se comunica de forma direta pela internet", diz Brusadin.