Wed05232012

Atualizado em:03:09:19 AM GMT

Os partidos já se preparam para o desafio de 2012

Os partidos brasileiros começam a se preparar para as eleições municipais de 2012. Alguns políticos mudam de partido, na esperança (ou com a promessa) de serem os escolhidos para disputar cargos de prefeito. Outros tentam brigar por espaço no próprio partido. A conquista do voto do eleitor, entretanto, é a disputa mais difícil. E para isso os candidatos precisam estar preparados e usar todos os recursos à disposição. Um deles é a internet, que já entrou para o arsenal de armas dos políticos, principalmente na última eleição presidencial.
 

Por iniciativa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o PSDB já tomou a iniciativa, porém o lançamento do site Observador Político,  previsto para o sábado, data do aniversário de 80 anos de FHC, foi adiado e deverá acontecer dentro de, no máximo, um mês. O portal terá a contribuição de tucanos e intelectuais para discutir ideias políticas e econômicas para o Brasil e reforçar a imagem de oposição do partido ao atual governo federal. E essa poderá ser uma importante ferramenta para as próximas eleições, em 2012. O objetivo é estabelecer um padrão de rede social e reunir um milhão de usuários, com extensões para o Facebook e o Twitter.
Uma das questões que será lançada junto com a rede é  Que bicho político você é? E quem vai aguardar todos os bichos políticos é a Radium Systems, que vai participar deste projeto com o planejamento de ações de articulação da rede.
A lição de 2010 – Para os políticos que pretendem concorrer a um cargo de prefeito ou vereador no próximo ano, a última campanha política, de 2010, está inexoravelmente arquivada para sempre na internet, e pode ser uma lição prática para os futuros candidatos.
Muitos recorreram à web em 2010 para divulgar suas ideias políticas e captar os "bichos políticos" espalhados pelo país. Um exemplo marcante foi a campanha presidencial, que envolveu Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio. Conectaram-se, relacionaram-se e, terminada a eleição, quase todos deixaram a sensação real de que deletaram o mundo virtual de seu currículo político.

 "Pura imaturidade", explica Gabriel Rossi, estrategista de marketing digital. "Usaram a internet apenas para o chamado jogo sujo", constata Aldo Fornazieri, cientista político e diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

O eleitor, mais uma vez, não foi tão inapto ao fazer o uso da nova tecnologia. A mais recente pesquisa sobre o assunto, encomendada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que a internet foi uma das principais ferramentas usadas pelo eleitor para se informar sobre política durante a campanha de 2010. A web, com 9,9% da preferência, perdeu  para conversa entre amigos e parentes, com 18,4%; e para a televisão, citada por 56,6% dos entrevistados. Na primeira campanha regulamentada na web, o movimento foi intenso e a decepção não foi menor. 
Efeito Obama – Durante a eleição presidencial no Brasil, havia a expectativa de que ocorreria por aqui o chamado efeito Barack Obama, cuja campanha à presidência dos Estados Unidos, em 2008, foi potencializada pela internet, ora alavancando sua candidatura, ora colocando-a em risco. No final, mais ajudou do que atrapalhou. E nada disso ocorreu aqui, de acordo com Rossi. "Primeiro, porque a banda larga no País não está tão evoluída; depois, porque não temos a cultura digital americana."
O estrategista conta que toda campanha moderna de marketing político parte do que é entendido como princípio da realidade, que é, no caso, a mudança ou a continuidade. "No Brasil, a conjuntura na eleição de 2010 foi de continuidade."

Jogo sujo – Para Fornazieri, a expectativa também se revelou frustrante. "Foi mais uma caixa de ressonância do que acontecia no âmbito externo a ela. Não foi um instrumento, um meio, não originou fatos, não provocou debates." De acordo com Rossi, a campanha entre Dilma e Serra "foi de militância contra militância, uma batalha de surdos". Na visão de Fornazieri, os estrategistas de campanha "não usaram a internet como deveriam" – foi mais uma "caixa receptora".
Para os dois analistas, o que sobressaiu foi o que Rossi chama de lado B da internet. "Prevaleceu o boato e, de certa forma, as equipes de campanha pecaram um pouco. As gestões das crises poderiam ser mais rápidas." Isso, para Fornazieri, é o "jogo sujo". Do ponto de vista político, a internet cumpriu função negativa. "Ela exacerbou o jogo sujo. Não aconteceu na televisão ou no rádio, por que há o controle da Justiça Eleitoral. No caso da internet, quem tem de fazer o controle é a própria sociedade; mas, até o final, o debate ficou negativo."
Sem volta – Essa rede, com seus prós ou contras, é uma estrada sem volta. Rossi lembra que no Brasil são 70 milhões de usuários. O computador já está disponível não apenas para as classes A e B, mas para a C também; e o acesso da D é uma questão de tempo. Mesmo assim, é preciso ressaltar que os vencedores nas redes sociais não foram os ganhadores nas urnas. E o que conta são as urnas. "Nem sempre quem faz uma campanha bonita na tevê, no rádio ou na internet ganha", diz Rossi. "É preciso ter personalidade, propostas, projetos. A internet é só mais um meio. O candidato pode usar bem a ferramenta, mas se não tem algo relevante para dizer, não ganha."
Rossi e Fornazieri concordam que, dos presidenciáveis, quem melhor tirou proveito foi a candidata Marina Silva. Na visão de Rossi, ela usou o Facebook para conversar com intelectuais, o Twitter para falar com os jovens e o Orkut para se relacionar com a classe média. "A partir daí, a onda verde cresceu e levou a eleição para o segundo turno. Achava a proposta da Marina interessante, porém sem força para ganhar." Na opinião de Fornazieri, sem dúvida a candidata do Partido Verde foi quem melhor se sobressaiu. "Talvez ela tenha se salvado do que foi um naufrágio geral político em 2010."
Riscos da internet – A internet, ao possibilitar o voto, oferece também outros riscos, como sublinha Rossi. "Fica naquele Fla-Flu. A informação viaja muito rápido, mas pode ser distorcida, descontextualizada. E isso é perigoso." Por isso, Rossi sugere mais profissionalismo. "O marketing político pode aprender, pode trabalhar o militante para o convencimento e não para a disputa."
Segundo Fornazieri, "com o amadurecimento da democracia, a sociedade vai cobrar mais, e a internet poderá assumir um papel de difusão positiva; porém é preciso atribuir certa responsabilidade aos centros nevrálgicos – que beneficiam o jogo sujo. Na verdade, o problema todo se concentra no fato de como ela foi usada. Só que não podemos esquecer que os estrategistas de campanha têm capacidade direcionadora. Isso ajuda."
De qualquer forma, a melhor dica que Rossi pode dar a todos os políticos, eleitos ou não, é a de que "pensem mais no comportamento do eleitor, do internauta e não na tecnologia". Enfim, o aprendizado foi bom, só que precisa melhorar, e rápido, como a web pede. 

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