Thu05232013

Atualizado em:03:00:54 AM GMT

A 1ª viagem ao exterior não se esquece

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Em 1974, o Banespa inaugurou uma agência na cidade de Frankfurt, na Alemanha. Eu cobria as atividades do Palácio dos Bandeirantes, como repórter político da Jovem Pan. Na época ainda estavam em vigor o AI-5 e o Decreto 477, que proibiam atividades políticas fora do controle do governo militar. Recebi convite do banco, que a direção da emissora aprovou, para fazer parte da comitiva que cobriria a inauguração, fato econômico auspicioso para São Paulo. 

Laudo Natel era o governador nomeado; o secretário da Fazenda era Carlos Antonio Rocca (que depois presidiria o Mappin) e o presidente do Banespa, Pedro de Moura Maia.

Coordenava o grupo de jornalistas o assessor de Rocca, Antonio Sérgio Orciolo (pai do ator Emilio Orciolo). Só lembro que estavam lá os jornalistas Joelmir Betting, pela Folha de São Paulo, Vinicius Orlandi, da Secretaria da Fazenda e Anorsi Sacomanni, do Diário Popular, mas havia outros.

Foi minha primeira viagem internacional. Os jatos de então precisavam fazer escala em Dacar, no Senegal: não tinham autonomia para ir direto à Europa. Foi assim que conheci o famoso "calor senegalesco", na saída do avião durante a escala, e vi as caravanas, pontos negros na imensidão de areia, ao sobrevoar (bem baixo) o deserto do Saara.

Inaugurada a agência e sem conseguir ligar para o Brasil para um simples boletim de transmissão (nossa telefonia estava na era do sinal de fumaça), esperava pela ligação no saguão do Frankfurter Hof quando Joelmir me disse: "Vou esticar até a Holanda. Quer ir comigo?".

Fiz contas de todos os lados, pois não queria perder a oportunidade. Sem conseguir falar com a rádio e assumindo a dívida, em vez de voltar com o grupo, fui com Betting para Amsterdã, onde nos hospedamos num hotel familiar chamado Paap.

Os donos nos entregavam a chave, mas possuiam também a do quarto que alugavam. E foi ali que aprendi com Joelmir um truque que uso até hoje para saber se alguém entrou no quarto na minha ausência. Não conto de público, para não alertar os ladrões.

Ele foi fazer o que precisava e eu saí a passear pela cidade. No meu livro Moura Louca, quando falo da Companhia das Índias Ocidentais e do bairro das Lanternas Vermelhas, usei minhas lembranças para situar o leitor na capital holandesa de então. Ainda pura, limpa, organizada. O pior veio à noite. Fomos ao cinema. Fazia um frio de matar pinguim.

 Eu usava cabelos e barbas bem grandes; de capuz, gorro enterrado até a boca, roupa escura e cheio de blusas, era o próprio estereótipo de terrorista, uma ameaça na época em toda a Europa. Com o frio congelante, entramos em alta velocidade num restaurante do centro de Amsterdã, cujas portas, claro, tinham calefação.

A entrada foi tão triunfal que a maioria dos clientes se levantou assustada olhando para os dois "terroristas" que invadiam o ambiente. Joelmir não vai admitir, mas ele também estava feio de doer.

Assustamos-nos também e quase fiz um strip tease para mostrar que não portava nada além de roupas tropicais no inverno europeu. Quando Joelmir tirou a parafernália, todos viram aquele loiro civilizado e voltaram a jantar. A turma da mesa ao lado da nossa gastou a língua nos xingando, falando da falta de classe, das roupas, da minha barba ridícula – em bom português. Pelo sotaque, eram gaúchos.

Sem combinar, falamos apenas em inglês macarrônico durante o jantar. Na saída, Joelmir, nós dois já em pé, indo embora, se dirigiu à mesa ao lado e disse algo assim, com sua voz de locutor da Rádio de Tambaú: "Boa noite, apreciem seu jantar".

Ah. Sim. Voltei ao Brasil sem um boletim, uma reportagem, um nada. Se Fernando Vieira de Melo fosse vivo, até hoje eu estaria gaguejando, dando explicações a ele. Só de "marra", voltei a Frankfurt e Amsterdã, algumas vezes, cabelo aparado, barba curta – mas sempre ao estilo tropical.

Paulo Saab é jornalista e escritor

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