Fri05242013

Atualizado em:03:11:50 AM GMT

Perdidos e felizes

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Eu ia dar como procedência deste artigo "na Trilha Pacific Crest, Oregon". Mas essa procedência não seria muito  correta. Não deveria ser "na" Trilha porque minha filha e eu nos afastamos do caminho e terminamos completamente perdidos no meio de neve, montanhas e florestas.  Sem telefone. Sem e-mail. Sem trabalho. Uma experiência perfeita para a relação entre pai e filha.  
 
As aventuras começaram após minha filha de 14 anos e eu termos iniciado uma  caminhada de 322 quilômetros pela Trilha Pacific Crest, em julho passado. Fazer  caminhadas é um dos rituais de verão de minha família, mas dessa vez nos deparamos com os  picos altos    excepcionalmente nevados para o mês de julho. 
 
Durante os primeiros 80 quilômetros conseguimos nos manter em cima de montes de  neve de 1,5 metro e continuar na trilha. Mas, quando chegamos a elevações mais  altas, na Three Sisters Wilderness e depois na Mount Jefferson Wilderness, a  trilha desapareceu completamente sob trechos de neve que  se estendiam por quilômetros.  Desistimos da trilha e passamos a seguir o mapa e a bússola.
 
Ficamos maravilhados ao  descobrir algumas pegadas,  que seguimos ansiosamente. Depois as pegadas se tornaram mais  nítidas e percebemos que elas tinham dedos. E garras. "Papai, acho que é um urso o que você está seguindo!"  Então voltamos ao mapa e à bússola, subindo cristas íngremes e tombando em encostas nevadas, passando por vastos campos de lava e pedregulhos, procurando faixas de terra nua para acampar quando caía a escuridão.  
 
Durante grande parte do caminho, fomos massacrados pelos bichos mais  sanguinários da natureza norte-americana – não os  ursos pardos, mas mosquitos.  Minha filha tinha repelente e uma máscara protetora, mas não ajudaram muito.  "Acabei de contar, papai! Tenho 49 picadas de mosquito só em minha testa!"  
Essa viagem, bem mais do que arrastar-se com uma mochila, foi uma lembrança de que nós, humanos, somos simples tijolos em uma enorme catedral natural. Quando  tropeçávamos em montes de neve, quando a chuva batia em nós, refletíamos que não  somos os donos de nosso planeta, nem mesmo seus inquilinos preferenciais. Somos  apenas convidados.  
 
Em resumo, a natureza nos torna humildes e é por isso que ela é indispensável. Em nossa sociedade moderna, estruturamos o mundo para que ele nos obedeça; muitas vezes usamos um teclado ou um controlo remoto para alterar o nosso meio.  Mas todas essas engenhocas focadas em nosso conforto nem sempre nos deixam mais  satisfeitos ou seguros.
 
É impressionante o número de vezes que pessoas que estão se sentindo atordoadas ou com problemas procuram alívio na natureza. Essa é a  questão do novo best-seller Wild (Selvagem), de Cheryl Strayed, sobre como ela  escapou da heroína e do luto pela morte da mãe caminhando pela Trilha Pacific  Crest.  
 
Wild é uma história fantástica, que começa no momento em que Strayed perde uma essencial bota de caminhada em um precipício – e depois, com raiva, joga a  outra fora. Com o tempo, as florestas a tornam humilde, fornecendo-lhe terapia grátis e preparando-a para a maturidade. 
 
O livro de Strayed tem sido um sucesso, em grande parte pela divulgação boca a boca, mas também em parte porque reflete uma verdade reconhecível. Durante décadas, programas para jovens têm se mostrado bastante benéficos ao enviar  adolescentes problemáticos para beber nos riachos da natureza e escutar verdades  sobre si mesmos. 
 
A organização Outward Bound tem uma proposta do gênero, dirigida tanto para crianças em risco como para veteranos de guerra e executivos de empresa.  
 
Talvez a natureza seja um antídoto para a  nossa auto absorção. Trata-se de um local para sermos rebaixados, humilhados e admirados, tudo ao mesmo tempo. É uma janela  para um mundo bem maior do que nós mesmos, um que não responde a controles  remotos. É uma olimpíada para todos nós. 
 
Porém, cada vez mais, é só para uma minúscula minoria de nós. Ficar perdido na natureza costumava ser rotina para gerações criadas entre caçadas e pescarias;  entretanto,  esses passatempos tornam-se  cada vez mais raros. 
 
O Serviço de Pesca e da  Natureza dos Estados Unidos informa que o número de norte-americanos pescadores caiu 15% entre tempos  passados 1996 e 2006. No mesmo período, o número de caçadores caiu um pouco mais  de 10%.  Da mesma maneira, o número de campista nos nossos parques nacionais diminuiu cerca de 30% desde 1979.  
 
Vejam, caminhar morro acima passando por nuvens de mosquitos não é mesmo para todo mundo. Mas se desconectar por algum tempo, para encontrar a natureza, é menos  assustador e mais fortalecedor do que as pessoas esperam. 
 
Minha filha e eu nunca  corremos risco e eventualmente ficamos perdidos nos 322 quilômetros de  nossa caminhada. Mas após 10 dias exaustivos e estimulantes, surgimos da floresta –  e minha filha rapidamente contou a seus irmãos histórias de neve e percalços que os deixaram ansiosos por queimaduras de frio.  
 
Para respeitar a natureza no longo prazo primeiro precisamos garantir que haja clientes para ela. Ambientalistas focam em preservar a natureza porque essa é a prioridade imediata, mas eles talvez devessem ser tão enérgicos assim também para  conseguir que os jovens interagissem com ela. 
 
Precisamos de mais norte-americanos se ocupando de seus desafios, como Cheryl Strayed, jogando suas botas  no precipício. Precisamos que mais escolas e universidades ofereçam aulas na natureza – e com pontos extras para os estudantes que se perderem.
 
 
Nicholas D. Kristof é colunista do New York Times.
Tradução: Rodrigo Garcia

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