Ano 31, coluna 1: batismo de fogo
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- Publicado em Domingo, 24 Junho 2012 14:11
- Escrito por Paulo Saab
Na primeira coluna após os trinta anos registrados na sexta-feira passada, dia 22, como havia prometido aos pacientes leitores de três décadas, na base do I Juca Pirama de Gonçalves Dias, ("Meninos, Eu Vi!") como uma espécie de ativo fixo da história recente da vida política do País, através de minha trajetória como jornalista – quarenta e um anos, neste momento – vou compartilhar episódios dos quais participei. Neles, relato a História aos amigos que aqui me acompanham. Eu estava lá. Eu vi.
O ano era 1971. Dia 24 de abril. Manhã de sábado. Cedinho eu já estava na redação da Jovem Pan , para preparar os boletins informativos daquela manhã. Tinha ingressado na rádio um mês antes (vou contando aos poucos). Chovia que Deus mandava... Fernando Vieira de Melo, todo-poderoso diretor da rádio, ao lado do dono, Tuta, entrou na redação, olhou para mim e sentenciou: "Garoto, vá fazer um boletim ao vivo do enterro do Boilesen.
O Marco Antonio está afônico, sem voz, não virá para o plantão". Marco Antônio Gomes era o repórter de plantão. Fico gelado até hoje ao lembrar a paralisia que me deu. Hening Albert Boilesen, presidente do Grupo Ultra, tinha sido assassinado por terroristas no dia anterior, acusado de financiar a Operação OBAN, que combatia os grupos armados que se opunham ao regime militar (Dona Dilma fazia parte de um deles).
Numa folha (lauda) escrevi à mão mesmo um texto que imaginei poderia ler direto do cemitério, narrando o que estava acontecendo. "Está sendo sepultado neste momento, no cemitério Campo Grande em Santo Amaro, o corpo do empresário Hening"... e por aí afora. Nada mais do que um minuto de previsível descrição do que iria ao ar, ao vivo. Peguei a prancheta de liberação do veículo na técnica central da rádio e fui para o cemitério (o enterro era às dez da manhã) numa "viatura" Rural Willys dirigida por Paulo Vieira para transmissão via FM num gerador elétrico.
Recusei a capa amarela de coveiro oferecida pelo xará – vergonha pura de aparecer. Subi num túmulo a uma distância em que podia ver tudo sem chamar atenção na hora de falar ao vivo. Água de chuva na altura do tornozelo. Veio a vinheta...."Isto também é notícia"... Em seguida minha missão era abrir o microfone (estava com escuta de ouvido) e ler o que escrevera, descrevendo a cerimônia fúnebre.
O gerador era elétrico. A chuva desmanchou o que eu havia escrito à mão e meus óculos de seis graus de miopia ficaram embaçados. Quando abri o microfone, ouvi o retorno de meu respiro no ouvido – e comecei a tomar choque. Quando desliguei o microfone, pensei : "Já vou ficar por aqui, enterrado. Estou acabado. Nunca mais volto para a rádio."
Mas voltei, molhado, nervoso, acuado. Ninguém, desde a garagem até a entrega da prancheta de devolução da viatura, disse nada. Só o Paulo Freire, que era o chefe da equipe técnica interna e coordenava as viaturas da rádio me perguntou: "Ei garoto, você foi transmitir enterro ou jogo de futebol?". Até hoje não sei o que falei no ar, e nem em que ritmo... Assim nasci, num batismo de água e choque, para a reportagem política, em pleno regime ditatorial vigente no País.
BRASIL HOJE
1-Leitores me pediram – o que é raro – para elogiar Luiza Erundina, pelo seu comportamento no triste episódio Lula-Maluf. Em destaque, algo inexistente no Brasil de hoje: vergonha na cara.
2-Estou feliz com o Ministério Público, por dar fim a uma falácia dos supermercados, que, a pretexto de preservar o meio ambiente, passaram a vender sacolinhas ditas retornáveis, em desrespeito total à inteligência dos consumidores.
3 - Eu não avisei aos leitores, semana passada, que a campanha paulistana deste ano seria uma verdadeira salada? Está só começando...
Paulo Saab é jornalista e escritor




