Thu05232013

Atualizado em:02:29:20 PM GMT

A economia como política

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Em recente artigo no jornal Valor Econômico, o experiente e muito ouvido pelo governo hoje economista Delfim Netto, também colaborador deste jornal, fez um discreto alerta às autoridades brasileiras, sem explicitar naturalmente o endereço do recado. Dizia o ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e ex-deputado, um insuspeito fã dos governos petistas e Lula e Dilma: "Devido à finitude dos fatores de produção internos e do limite do crédito para financiar as importações, não é permanentemente possível maximizar, ao mesmo tempo, o crescimento econômico e a inclusão social sem produzir ou um aumento da taxa de inflação, que anula e torna uma ilusão a inclusão social, ou um déficit em conta corrente não financiável, que acaba matando ao mesmo tempo o crescimento e a inclusão. O problema é físico e não ilidível por mágicas monetárias, fiscais ou cambiais".
 
É básico  explicar que em economia  os  números de um determinado levantamento periódico é indicativo de uma tendência – uma andorinha só, diz o popular, não faz verão. Mas há indícios de que a política econômica que a presidente Dilma Rousseff está levando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o Banco Central a administrarem pode estar levando o governo a cair na armadilha apontada por Delfim Netto. 
 
O sinal mais evidente está na surpreendente – para todos os analistas privados e mais ainda para o governo – inflação oficial (IPCA do IBGE) de abril. Ela praticamente triplicou de março para o mês passado, saltando de 0,21% para 0,64%. Os números, segundo a medida do instituto, foram influenciados negativamente pelos alimentos, empregos domésticos, cigarros e remédios, estes dois últimos controlados pelo governo.
 
As autoridades de Brasília e os analistas não oficiais esperavam um soluço dos preços em abril, não, porém, tamanho susto. De maio em diante, pelo menos por uns meses, acredita-se numa acomodação. Contudo, para este mês alguma inflação já está contratada, ainda por culpa dos preços administrados – energia elétrica, água, esgoto e táxis em várias cidades pesquisas tiveram reajustes que vão bater no IPCA de maio. 
 
Na conta de abril ainda não entraram, de acordo com especialistas, repasses da elevação do dólar sobre os importados. Em pouco mais de um mês a moeda americana saltou de uma média de R$ 1,70 para o nível de R$ 1,90. Anteontem, pela primeira desde junho de 2009, quando a economia estava sob os efeitos da crise financeira internacional desencadeada no fim de 2009, o dólar passou dos R$ 1,95. E sem nenhuma ação do Banco Central para desvalorizar o real, coisa que ele andou fazendo até recentemente.
 
Desde anteontem, quando o IBGE informou o repique inusitado da inflação, alguns analistas do mercado começaram a balançar a certeza que demonstravam desde a última ata do Copom e principalmente desde a mudança nas regras de remuneração das cadernetas de poupança, de que o Banco Central puxará a taxa básica de juros para um mínimo de 8% até o fim do ano, com chances de deixar a Selic até abaixo disso para começar com dias de ouro 2013. Já se especula que o BC deve por um freio nesse movimento de baixa no fim de maio, parando nos 8,5%.
 
É possível, mas não muito provável, se outras "circunstâncias" como este IPCA mais alto de abril não vierem atropelar os plano da presidente Dilma. Como está visível e ensinou quase didaticamente o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, em entrevista ao jornal Brasil Econômico, "não ter inflação é um pressuposto para o crescimento, mas este não pode ser só o fim. Aí eu não faço mais nada? Agarro a meta de inflação e fico por ali". Ou seja, em livre e objetiva tradução: a política monetária deve mirar o crescimento, não a inflação. A meta oficial é de inflação, a real, de Dilma é o PIB – não inferior a 4% e bem próximo de 4,5% este ano; em dezembro crescendo no ritmo anualizado de 5%.
 
Todas as medidas adotadas nos últimos meses, em especial o ataque aos juros altos, têm este objetivo. A presidente precisa sustentar sua popularidade e acredita ela e acreditam seus consultores políticos que só esse caminho garante isso. Teme-se que se a economia ratear, o emprego e a renda comecem também a patinar – e a presidente comece a enfrentar dificuldades políticas no Congresso e insatisfações na sociedade.
 
A economia deixou de ser uma questão meramente econômica no Brasil no momento. É um componente da política.
 
José Márcio Mendonça é jornalista e analista político

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