Putin e a nova Europa
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- Publicado em Quarta, 09 Maio 2012 20:43
- Escrito por Roberto Fendt
Vladimir Putin foi reeleito e tomou posse como quarto presidente da República Russa na segunda-feira, quando o noticiário estava tomado pelos resultados das eleições presidenciais na França e parlamentares na Grécia.
Na Europa, a reeleição de um presidente está se tornando uma exceção, como mostraram os eleitores franceses; a revolta dos eleitores derrubou também as maiorias governantes na Grécia e na Holanda. Os resultados das eleições regionais na Alemanha também não estão favorecendo a coalizão da chanceler Angela Merkel. Como o senhor Putin levará adiante a sua estratégia de ressurgimento da Rússia diante da nova realidade política europeia?
Em seus mandatos anteriores – como presidente, entre 2000 e 2008, e como primeiro-ministro, de 2008 a 2012 – o senhor Putin construiu um círculo de relacionamentos pessoais com os principais atores políticos do continente. Tratava-se de transformar em estável e seguro um país quebrado, fraco e caótico que havia recebido após a renúncia de Boris Yeltsin.
Não se tratava de tarefa trivial. A República Russa é não somente o maior país em extensão como tem em várias de suas fronteiras áreas de conflito que potencialmente ameaçam sua segurança. Internamente, a implosão do podre regime comunista também não favorecia a consolidação de uma maioria favorável às reformas implantadas em seu primeiro governo.
Talvez o presidente Putin tivesse em mente a experiência do Império Britânico de lidar com as potências do continente europeu no período 1871-1914 ao formular a sua estratégia de relacionamento com os principais países a oeste da República Russa.
Entre 1871 e 1914, a política do Reino Unido – então o maior império do mundo – buscou impedir que qualquer nação se tornasse forte o suficiente no continente europeu a ponto de ameaçar a sua segurança.
Os riscos que a expansão francesa opunham ao Império Britânico na Ásia e na África levou a uma aproximação britânica com a Rússia tzarista. Mais tarde, quando a Alemanha do kaiser Guilherme II iniciou seu programa de construção naval, percebido como ameaça potencial à marinha britânica, então a maior do mundo, aproximou a Grã-Bretanha da França.
O senhor Putin percebeu, corretamente, que a República Russa não poderia persistir na política imperial da extinta União Soviética. Não havia recursos para tal. Foi essa incompatibilidade entre os recursos disponíveis e as ambições imperiais que implodira a União Soviética e levado ao fim do Império Britânico.
A estabilidade e a segurança da Rússia dependiam e dependem de um relacionamento amistoso como seus vizinhos relevantes no ocidente. A opção de um relacionamento estreito com a Grã-Bretanha não estava disponível, pelo tradicional relacionamento muito estreito e pela aliança desse país com os Estados Unidos.
O mesmo não ocorria nem ocorre com os três países mais importantes da Europa continental: Alemanha, França e Itália. A estratégia de Putin com esses países baseou-se em um relacionamento pessoal com seus dirigentes.
Não importava muito a filiação partidária desses dirigentes. Com o então chanceler social-democrata alemão Gehard Schröder estabeleceu um íntimo relacionamento, que culminou, após a queda do gabinete social-democrata, com a aceitação por Schröder de uma posição na estatal russa de energia Gazprom.
Aproximou-se também pessoalmente do presidente francês Jacques Chirac, eleito pela União por um Movimento Popular, partido de tendência conservadora, democrata- cristã e gaulista especialmente criado para a sua eleição. Não menos bem sucedida foi sua aproximação com o então primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconi, de quem tornou-se amigo pessoal.
Com essa teia de relações, o presidente Putin foi capaz, em seu primeiro mandato, de minimizar os possíveis impactos negativos da política de envolvimento da República Rússia pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Muitos questionam hoje quais são as opções abertas a Vladimir Putin na nova Europa social-democrata que está a emergir da crise da dívida europeia. Essa nova social-democracia pretende a todo custo manter o Estado de "bem-estar social" que faliu em toda parte. Ela tem por companhia, por ora minoritária, as diversas tendências neonazistas, xenófobas e nacionalistas extremadas.
Será da capacidade de Vladimir Putin de conviver com as novas lideranças que emergem que dependerá a manutenção da estabilidade interna na República Russa – assunto de interesse de todos, para a manutenção da paz no cenário internacional.
Roberto Fendt é economista




