Todos somos freiras
- Detalhes
- Publicado em Domingo, 06 Maio 2012 18:51
- Escrito por Nicholas D. Kristof

Elas foram as primeiras feministas, fazendo doutorados ou trabalhando como cirurgiãs bem antes de se tornar chique as mulheres terem emprego. Como administradoras de hospitais, escolas e burocracias complexas, foram as primeiras diretoras-presidentes.
Elas também estão entre as mais corajosas, resistentes e admiráveis pessoas no mundo. Em minhas viagens, tenho visto freiras heroicas desafiarem comandantes militares, cafetões e bandidos. Mesmo quando bispos desonraram a Igreja encobrindo o estupro de crianças, as freiras a redimiram com seu trabalho humilde em prol dos mais necessitados.
Então, papa Bento, tudo o que eu posso dizer é:
Você está louco em mexer com as freiras.
O Vaticano emitiu uma grave repreensão às freiras norte-americanas em abril e determinou que um bispo supervisionasse a reformulação de uma organização que representa 80% delas. Essencialmente, o Vaticano acusou as freiras de se preocuparem demais com os pobres e não o suficiente com o aborto e o casamento gay.
De que Bíblia veio isso? Nos Evangelhos, Jesus várias vezes fala sobre pobreza e justiça social, mas nunca menciona explicitamente nem aborto nem homossexualidade. Caso se queira saber quem reproduz mais atentamente a vida de Jesus, Bento ou uma freira comum, é a freira que ganha.
Desde a repressão papal às freiras, elas têm recebido uma enxurrada de apoios. “As freiras têm sido procuradas por católicos nas missas de domingo em todo o país com uma pergunta simples: ‘O que podemos fazer para ajudar?”, informou o National Catholic Reporter. Ele citou o caso de uma paróquia na qual uma declaração de apoio feita no púlpito foi muito aplaudida e outro em que houve gritos como “Vocês vão vencer, garotas!”.
Pelo menos quatro petições estão sendo realizadas em apoio às freiras. Uma no site Change.org conseguiu 15 mil assinaturas. O título para este coluna (Todos somos freiras) veio de um ensaio de Mary E. Hunt, uma teóloga católica que está desenvolvendo uma proposta aos católicos para redirecionar às freiras algumas das contribuições dos paroquianos locais.
“Como eles ousam perseguir 57 mil mulheres dedicadas cuja idade média é bem acima dos 70 anos e que trabalham incansavelmente por um mundo mais justo?”, escreveu Hunt. “Como ousa o mesmo homem que preside uma Igreja em desgraça absoluta graças à má conduta sexual e acobertamento dos bispos tentar se desviar de seus problemas criando novos problemas para as mulheres religiosas?”
A irmã Joan Chittister, uma importante freira beneditina, disse que ficou preocupada que as freiras tivessem gasto tanto tempo com os pobres que elas não teriam aliados. E completou que a enxurrada de apoio a deixou emocionada. “É espetacularmente maravilhoso”, declarou. “Ver gerações de leigos que sabem onde as irmãs estão – nas ruas, nos restaurantes para os pobres, em qualquer lugar onde haja sofrimento. Elas estão com os moribundos, com os doentes, e as pessoas sabem disso.”
Chittister falou comigo de um gueto em Erie, Pensilvânia, onde sua ordem de 120 freiras administra um restaurante popular, uma gigantesca despensa de alimentos, um programa para depois da escola e um dos maiores programas educacionais para desempregados no Estado.
Eu tenho uma predileção por freiras porque tenho visto em primeira mão que elas sacrificam o amor próprio, a segurança e o conforto para atender algumas das pessoas mais necessitadas da Terra. Lembram-se do vídeo “Kony 2012” que foi um sucesso na internet no começo deste ano, sobre um senhor da guerra africano chamado Joseph Kony? Um dos poucos heróis na longa debacle era uma freira comboniana, a irmã Rachele Fassera.
Em 1996, o exército de Kony atacou uma escola para garotas em Uganda e sequestrou 139 alunas. Fassera andou pela selva procurando os sequestradores – alguns dos homens mais assustadores possíveis, famosos por estuprarem e torturarem suas vítimas até a morte. Finalmente, ela se encontrou com 200 homens armados e exigiu que libertassem as garotas. De alguma forma, ela intimidou o comandante responsável a soltar a grande maioria das garotas.
Estou apostando nas freiras para vencer também desta vez. Afinal, as irmãs podem ser piedosas, mas elas também são astutas. Elias Chacour, um importante bispo palestino da Igreja Católica Grega Melquita, conta nas suas memórias que uma vez ele solicitou a um convento se poderia fornecer duas freiras para um projeto de alfabetização em uma comunidade. A madre-superiora disse que teria de checar com seu bispo. “O bispo foi muito claro em sua recusa a ceder duas freiras”, informou-lhe a madre-superiora. “Não posso desobedecê-lo nisso.” E ela completou: “Vou ceder três freiras!”.
As freiras já triunfaram sobre uma hierarquia errante antes. No século 19, a Igreja Católica excomungou uma freira australiana chamada Mary MacKillop após sua ordem ter desmascarado um padre pedófilo. Mary depois foi convidada de volta à Igreja e se tornou famosa por seu trabalho com os pobres. Em 2010, Bento a canonizou como a primeira santa da Austrália.
“Vamos ser guiados” pelos ensinamentos de MacKillop, declarou o papa na ocasião.
Amém a isso.
Nicholas D. Kristof é colunista do New York Times
Tradução: Rodrigo Garcia




