Wed05232012

Atualizado em:03:09:19 AM GMT

Trabalho nos novos tempos

 

Como se faz um comercial para TV? As respostas podem variar um pouco, mas todas incluirão itens como uma produtora de vídeo, contratação de atores, aluguel das locações, transporte, alimentação, figurino, maquiagem e outras tantas atividades e despesas. O comercial não fica nada barato.
 
Bem, isso era assim até que aparecessem na internet os bancos de imagens, vídeos, sons, ilustrações e animações como Getty e iStockphoto, por exemplo: milhares de arquivos digitais que podem ser baixados em pouco tempo – e com alta resolução – permitem que as agências consigam fazer produções excelentes a um custo reduzido. Isso é conseguido pela combinação de trechos de vários vídeos comprados desses bancos, e uma produção que normalmente bateria em R$ 100 mil, mal passa de R$ 10 mil.
 
Para a narração do comercial, é possível abrir mão de um locutor de São Paulo e contratar outro por uma fração do preço em outra cidade ou estado – basta enviar o texto por email e receber a gravação da mesma maneira. Em setembro passado, a agência paulista Social Circle, que faz monitoramento de redes sociais, abriu uma concorrência no site DesignCrowd para a elaboração de seu logotipo e o vencedor foi um artista do Oriente. Queiramos ou não, isso tem um impacto nos valores pagos a quem trabalha no setor aqui.
 
Muita gente só se deu conta dessas possibilidades depois do lançamento de O mundo é plano, de Thomas Friedman, em 2005 (no Brasil, em 2007, pela Editora Objetiva), mostrando de que modo muitas empresas conseguiam a execução de certas tarefas, terceirizando-as para trabalhadores que às vezes estavam do outro lado do mundo.
 Hoje isso acontece no Brasil: há empresas sediadas em São Paulo cujas centrais de atendimento ficam em lugares como Natal, Recife, Uberlândia ou Porto Alegre. 
 
Esses fatos estão causando impactos, modificando as relações de trabalhistas e, sem dúvida, colocam questões enormes diante de quem tem um trabalho ou um emprego. O próprio Friedman lembra que hoje os recrutadores são obrigados a pensar globalmente, raciocinando sobre proposições como esta: a pessoa que está sendo contratada agrega valor à empresa mais do que um trabalhador em outro país, um robô ou um computador? Pode parecer  cruel escrito assim, mas os recrutadores pensam mais ou menos desse jeito. As formalidades também estão mudando: em lugar de contratações pela CLT, com "carteira assinada", muita gente trabalha sob contrato de prestação de serviços, fornecendo notas fiscais de  microempresas criadas para esse fim.  
 
É  nesse ambiente que profissionais de grande ou nenhuma experiência precisam buscar trabalho - nem sempre emprego. E nesse território a seleção vai levar em conta não só a experiência do candidato na função como também as escolas que frequentou e sua rede de relacionamentos. 
 
Há muitos  casos de gente que conseguiu trabalho ou emprego mais pelo "QI" (não se engane: são as iniciais de 'quem indicou') do que propriamente pelos diplomas ou experiência. Esse aspecto continua valendo, mas agora os recrutadores conseguem cada vez mais detalhes de seus canditatos consultando as redes sociais – Facebook, Orkut, Tweeter, FourSquare e, principalmente, o Linkedin – para confirmar aquilo que leram, escutaram ou suspeitaram.
 
O Linkedin tornou-se uma espécie de repositório universal de currículos e tem sido usado para  intercâmbio de informações profissionais. Ali as pessoas estão relacionadas geralmente por meio de suas relações de trabalho e não é difícil a um recrutador visualizar a rede de relacionamentos de um candidato e obter informações sobre ele.
 
 Reid Hoffman, o fundador do Linkedin, e seu colega Ben Casnocha, escreveram sobre isso em The Start-up of You: Adapt to the Future, Invest in Yourself, and Transform Your Career (em português, a melhor tradução seria "O Lançamento de você mesmo: adapte-se ao futuro, invista em si e transforme sua carreira", editora Crown Business, 272 páginas). 
 
Os dois autores são bons exemplos daquilo que escreveram no livro . Casnocha, por exemplo,  é um empreendedor que aos 14 anos já havia aberto duas empresas e aos 19 estava milionário. 
 
Assim como a rede de relacionamentos na internet pode ajudar o recrutador, pode também ajudar muito o candidato, garante Reid Hoffman. Conhecer muita gente sempre foi essencial para quem procura trabalho, lembra ele, mas quem quer fazer uma carreira de sucesso precisa investir nela exatamente como se investe numa empresa "start up", dessas que nascem de uma hora para outra, são altamente inovadoras e em pouco tempo estão captando recursos nas bolsas de valores. 
 
Hoffman conta que todos os profissionais precisam se tornar especiais, desenvolver recursos que os tornem mais importantes do que seus concorrentes. Segundo ele, alguns anos atrás, na rodovia 101, no Vale do Silício, havia um cartaz com a seguinte frase: "Há um milhão de pessoas que podem fazer o seu trabalho. O que torna você diferente delas?"
 
Uma das coisas que podem torná-las diferentes, Hoffman garante, são suas redes de relacionamento  – é por meio delas que as pessoas conhecem umas às outras e estabelecem os laços de confiança que, em algum momento, podem se transformar em grandes oportunidades. 
 
Essas alianças podem ser fortes ou fracas. Quando fortes, observa Hoffman, elas geralmente são com pessoas próximas, muitas vezes da mesma categoria profissional; entretanto,  é por meio das alianças mais fracas que um profissional entra em contato com outros setores, desenvolve outras aptidões e alcança o sucesso. 
 
Paulo Brito é jornalista, graduado em Economia e mestre em Comunicação e Semiótica
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