A Última Dança de Fayza Naga
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- Publicado em Quarta, 22 Fevereiro 2012 20:02
- Escrito por Thomas L. Friedman
Infelizmente, o governo de transição do Egito parece está determinado a dar um tiro em cada um dos pés. Domingo, vai julgar 43 pessoas, incluindo pelo menos 16 cidadãos norte- americanos, por supostamente terem levado ao Egito fundos não registrados, para promover a democracia sem permissão.
O país tem todo o direito de fiscalizar as organizações internacionais que operam dentro de suas fronteiras. Mas a verdade é que quando esses grupos pró-democracia preencheram os formulários de registro, anos atrás sob a autocracia de Hosni Mubarak, foram informados que os documentos estavam em ordem e que a aprovação era iminente. O fato de agora – após Mubarak ter sido deposto por uma revolução – esses grupos estarem sendo ameaçados de prisão por promover a democracia sem licença é um sinal muito preocupante. Mostra o quanto foi incompleta a "revolução" no Egito e com quanto vigor as forças antirrevolucionárias estão contra-atacando.
Essa questão sórdida faz com que nos perguntemos se o Egito vai conseguir mesmo dobrar a esquina. O Egito está acabando com suas reservas estrangeiras, sua moeda está se desvalorizando, a inflação cresce e o desemprego perdeu os freios. Contudo, a prioridade de alguns personagens retrógrados pós-Mubarak é levar a julgamento funcionários do Instituto Democrático Nacional e do Instituto Republicano Internacional, que são ligados aos dois principais partidos políticos dos EUA, bem como da Freedom House e de alguns grupos europeus.
O crime deles foi tentar ensinar aos jovens democráticos do Egito como fiscalizar as eleições e como lançar partidos para participar do processo democrático que o Exército egípcio montou após a queda de Mubarak.
Milhares de egípcios participaram de seus seminários nos últimos anos. Do que realmente se trata? Esse caso tem sido promovido pela ministra de Planejamento e Coordenação Internacional do Egito, Fayza Abul Naga, uma antiga aliada de Mubarak. Abul Naga personifica a pior tendência do Egito nos últimos 50 anos – a tendência que ajuda a explicar por que o Egito ficou bem atrás de seus colegas: Coreia do Sul, Taiwan, Malásia, Brasil, Índia e China.
É a tendência de procurar dignidade em todos os lugares errados – de procurar dignidade não em organizar a capacidade dos jovens talentosos do Egito para que eles possam prosperar no século 21 – com escolas melhores, instituições melhores, indústrias exportadoras e um governo que preste mais contas. Não, é a tendência de procurar dignidade em "ficar contra os estrangeiros". Esse é o jogo de Abul Naga.
Como me disse um ex-assessor de Mubarak: "Naga está onde está hoje por causa dos seis anos em que ela permaneceu resistindo às reformas políticas e econômicas", em aliança com os militares. "Ela e os militares eram contra abrir a economia egípcia". Naga e os militares, tendo ficado contra a revolução, estão procurando se salvar utilizando a carta nacionalista.
O Egito atualmente tem dois predadores: a pobreza e o analfabetismo. Após 30 anos de governo Mubarak e cerca de US$ 50 bilhões de ajuda norte-americana, 33% dos homens e 56% das mulheres ainda não conseguem ler nem
escrever. É um absurdo.
Mas isso aparentemente não tira o sono de Abul.
Qual a sua prioridade? Acabar com o analfabetismo? Articular uma nova visão de como o Egito pode se engajar com o mundo e prosperar no século 21? É estabelecer um clima positivo para investimentos estrangeiros a fim de criar empregos que são desesperadamente necessários para os jovens egípcios? Não, é retornar para a velha regra dourada – de que todos os problemas do Egito são culpa dos estrangeiros que querem desestabilizar o Egito. Assim, vamos prender alguns ocidentais consultores de democracia. Isso vai restaurar a dignidade do Egito.
The Times noticiou do Cairo que o dossiê reunido pelo promotor contra os funcionários da democracia – impulsionado pelo depoimento de Abul Naga – acusou esses grupos democráticos de atuarem "em coordenação com a CIA", servindo aos "interesses de EUA e de Israel" e incitando "tensões religiosas entre muçulmanos e coptas". O objetivo deles, segundo o dossiê, era "derrubar o regime governante no Egito, não importa qual seja", e ao mesmo tempo "satisfazer ao Congresso dos EUA, os lobistas judeus e a opinião pública norte-americana".
Surpreendente. O que Abul Naga está dizendo a todos esses jovens egípcios que marcharam, protestaram e morreram na Praça Tahrir para ganhar voz sobre o próprio futuro é: "Vocês foram simplesmente instrumentos da CIA, do Congresso dos EUA, de Israel e do lobby judaico. Eles foram a verdadeira força por trás da revolução egípcia – não os corajosos egípcios com vontade própria".
Sem surpresa, alguns membros do Congresso dos EUA estão falando sobre cortar US$ 1,3 bilhão de ajuda que os EUA dão ao Exército do Egito se esses norte- americanos realmente forem para a prisão. Calma aí. Temos de ser pacientes e ver isso como o que realmente é (ou espera-se): a última dança de Fayza. São elementos do antigo regime jogando as últimas cartas que têm tanto para minar as verdadeiras forças democráticas no Egito quanto para salvar a si mesmos posando de protetores da honra do Egito.
Os egípcios merecem mais do que esse bando, que está desperdiçando os parcos recursos do país numa época crítica e desviando a atenção dos verdadeiros desafios que o Egito enfrenta: dar aos jovens o que eles realmente desejam: uma voz de verdade sobre seu próprio futuro e os instrumentos educacionais de que precisam para ter sucesso no mundo moderno. É daí de onde vem a dignidade permanente.
Thomas L. Friedman é colunista do New York Times e três vezes ganhador do Prêmio Pulitzer
Tradução: Rodrigo Garcia




