Wed05232012

Atualizado em:03:09:19 AM GMT

A Última Dança de Fayza Naga

 

Infelizmente, o governo de transição do Egito parece está determinado a dar um tiro em cada um dos pés. Domingo, vai julgar 43 pessoas, incluindo pelo menos 16 cidadãos norte- americanos, por supostamente terem levado ao Egito fundos não registrados, para  promover a democracia sem permissão. 
 
O país tem todo o direito de fiscalizar as  organizações internacionais que operam dentro de suas fronteiras. Mas a verdade  é que quando esses grupos pró-democracia preencheram os formulários de registro,  anos atrás sob a autocracia de Hosni Mubarak, foram informados que os documentos  estavam em ordem e que a aprovação era iminente. O fato de agora – após  Mubarak ter sido deposto por uma revolução – esses grupos estarem sendo  ameaçados de prisão por promover a democracia sem licença é um sinal muito  preocupante. Mostra o quanto foi incompleta a "revolução" no Egito e com  quanto vigor as forças antirrevolucionárias estão contra-atacando. 
 
Essa questão sórdida faz com que nos perguntemos se o Egito vai conseguir mesmo  dobrar a esquina. O Egito está acabando com suas reservas estrangeiras, sua  moeda está se desvalorizando, a inflação cresce e o desemprego perdeu os freios. Contudo, a prioridade de alguns personagens retrógrados pós-Mubarak é  levar a julgamento funcionários do Instituto Democrático Nacional e do Instituto  Republicano Internacional, que são ligados aos dois principais partidos  políticos dos EUA, bem como da Freedom House e de alguns grupos europeus. 
 
O  crime deles foi tentar ensinar aos jovens democráticos do Egito como fiscalizar  as eleições e como lançar partidos para participar do processo democrático  que o Exército egípcio montou após a queda de Mubarak. 
 
Milhares de egípcios  participaram de seus seminários nos últimos anos.  Do que realmente se trata? Esse caso tem sido promovido pela ministra de  Planejamento e Coordenação Internacional do Egito, Fayza Abul Naga, uma antiga  aliada de Mubarak. Abul Naga personifica a pior tendência do Egito nos últimos  50 anos – a tendência que ajuda a explicar por que o Egito ficou bem atrás de  seus colegas: Coreia do Sul, Taiwan, Malásia, Brasil, Índia e China. 
 
É a  tendência de procurar dignidade em todos os lugares errados – de procurar  dignidade não em organizar a capacidade dos jovens talentosos do Egito para que  eles possam prosperar no século 21 – com escolas melhores, instituições  melhores, indústrias exportadoras e um governo que preste mais contas. Não, é a  tendência de procurar dignidade em "ficar contra os estrangeiros".  Esse é o jogo de Abul Naga. 
 
Como me disse um ex-assessor de Mubarak: "Naga está  onde está hoje por causa dos seis anos  em que ela permaneceu resistindo às reformas  políticas e econômicas", em aliança com os militares. "Ela e os militares eram  contra abrir a economia egípcia". Naga e os militares, tendo ficado contra a  revolução, estão procurando se salvar utilizando a carta nacionalista.  
 
O Egito atualmente tem dois predadores: a pobreza e o analfabetismo. Após 30  anos de governo Mubarak e cerca de US$ 50 bilhões de ajuda norte-americana, 33%  dos homens e 56% das mulheres ainda não conseguem ler nem
 escrever.  É um  absurdo. 
 
Mas isso aparentemente não tira o sono de Abul. 
Qual a sua prioridade?  Acabar com o analfabetismo? Articular uma nova visão de como o Egito pode se  engajar com o mundo e prosperar no século 21? É estabelecer um clima positivo  para investimentos estrangeiros a fim de criar empregos que são desesperadamente  necessários para os jovens egípcios? Não, é retornar para a velha regra dourada – de que todos os problemas do Egito são culpa dos estrangeiros que querem  desestabilizar o Egito. Assim, vamos prender alguns ocidentais consultores de  democracia. Isso vai restaurar a dignidade do Egito.   
 
The Times noticiou do Cairo que o dossiê reunido pelo promotor contra os  funcionários da democracia – impulsionado pelo depoimento de Abul Naga – acusou  esses grupos democráticos de atuarem "em coordenação com a CIA", servindo  aos "interesses de EUA e de Israel" e incitando "tensões religiosas entre  muçulmanos e coptas". O objetivo deles, segundo o dossiê, era "derrubar o regime  governante no Egito, não importa qual seja", e ao mesmo tempo "satisfazer ao  Congresso dos EUA, os lobistas judeus e a opinião pública norte-americana".  
 
Surpreendente. O que Abul Naga está dizendo a todos esses jovens egípcios que  marcharam, protestaram e morreram na Praça Tahrir para ganhar voz sobre o próprio  futuro é: "Vocês foram simplesmente instrumentos da CIA, do Congresso dos EUA,  de Israel e do lobby judaico. Eles foram a verdadeira força por trás da  revolução egípcia – não os corajosos egípcios com vontade própria".  
 
Sem surpresa, alguns membros do Congresso dos EUA estão falando sobre cortar US$  1,3 bilhão de ajuda que os EUA dão ao Exército do Egito se esses norte- americanos realmente forem para a prisão. Calma aí. Temos de ser pacientes e ver  isso como o que realmente é (ou espera-se): a última dança de Fayza. São elementos  do antigo regime jogando as últimas cartas que têm tanto para minar as  verdadeiras forças democráticas no Egito quanto para salvar a si mesmos posando  de protetores da honra do Egito.  
 
Os egípcios merecem mais do que esse bando, que está desperdiçando os parcos  recursos do país numa época crítica e desviando a atenção dos verdadeiros  desafios que o Egito enfrenta: dar aos jovens o que eles realmente  desejam: uma voz de verdade sobre seu próprio futuro e os instrumentos  educacionais de que precisam para ter sucesso no mundo moderno. É daí de onde  vem a dignidade permanente.  
 
Thomas L. Friedman é colunista do New York Times e três vezes ganhador do Prêmio Pulitzer 
Tradução: Rodrigo Garcia
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