Exercendo a incompetência
- Detalhes
- Publicado em Quarta, 22 Fevereiro 2012 19:47
- Escrito por José Márcio Mendonça
Já observaram o refinamento, o cuidado, o extremo acabamento – claro, a bom custo – com que nossos dirigentes exercem a incompetência?
(Millor Fernandes em "O Saite")
Com alguma frequência nos últimos tempos, a presidente Dilma Rousseff tem anunciado sua intenção de exercer maior controle sobre a execução dos projetos e serviços de responsabilidade do governo. Escudando-se na assessoria do empresário Jorge Gerdau, Dilma assumiu definitivamente a "eficiência gerencial" como mantra de sua gestão a partir de agora. Ela ficou especialmente agastada depois de descobrir, numa viagem ao Nordeste – para posar de "gerente eficiente" de obras em andamento na região – os atrasos em duas das jóias deixadas para ela por Lula: a transposição do Rio São Francisco e a Ferrovia Transnordestina.
Deixando-se de lado o fato de Dilma estar há nove anos no governo, seis deles como principal gestora do Executivo e mãe do PAC, e um ano na Presidência, "prendendo e arrebentando" (lembrar do general João Figueiredo) quem não mostra eficácia, é mais do que desejável a nova postura presidencial. Isso se bater na carga certa – pois a inapetência estatal já atingiu o limite do suportável e continua crescendo, apesar do modelo de "espancar" projetos e outros tais da presidente – cantado em prosa, verso e, logo logo, num enredo de escola de samba –, segundo seus amigos e auxiliares (vide discurso de despedida no Ministério da Ciência e Tecnologia e a posse, no Ministério da Educação, de Aloizio Mercadante). Não mais dizer "vou fazer", mas simplesmente fazer.
A Telebrás é uma boa ilustração desse estado de "permanente discurso" e escassez de realizações. A empresa foi ressuscitada há mais de dois anos para tocar, preferencialmente, o Plano Nacional de Banda Larga, com internet popular, o qual, segundo a ótica oficial, não interessava às empresas privadas de telefonia. O cronograma do PNBL foi alterado várias vezes e somente agora começou a deslanchar, depois que as companhias de telefônicas entraram em campo após adaptações no projeto. Se dependesse da Embratel tudo estaria ainda no papel, embora a empresa tenha multiplicado algumas vezes seu orçamento.
Outra personagem à procura de uma gestão é a Sudene. Ela também foi ressuscitada cinco anos atrás pelo presidente Lula; gerou grande alegria nos meios políticos – ainda agora é objeto de disputas entre o PSB, PMDB e PT – e, conforme mostra reportagem da revista Exame desta quinzena (nº 3, 22/2/2012) consome quase 90% do seu orçamento para pagar os funcionários. Ineficiente no passado (foi por isso fechada no governo FHC) e foco de corrupção, ela continua ineficiente agora. A Sudeco, seu similar para o Centro-Oeste, também rediviva, está na mesma situação de um vistoso cabide de empregos e mais nada.
Para onde se vire é possível apontar exemplos da má gestão da coisa pública. Em duas edições seguidas, nesses dias carnavalescos, e portanto um tanto quanto ignoradas pela opinião pública de modo geral, o Estadão traz outras tristes histórias desse mundo de desperdício, politicagem e incompetência. A primeira conta a saga do DNIT, autarquia que foi totalmente reformulada quando a presidente Dilma fez aquela "faxina" no Ministério dos Transportes e tirou do lugar o senador Alfredo Nascimento, do PR. O foco maior da crise foram os "malfeitos" no Departamento.
Descobre-se agora, dez meses após a "vassourada" presidencial, que o DNIT é um órgão falido; não tem estrutura nem funcionários suficientes para exercer suas funções com mínima dignidade. A informação é de um auditor, nomeado pela própria Dilma para a diretoria do DNIT.
É por essas e muitas tantas, como mostra a outra reportagem do jornal paulista, que a precária infra-estrutura brasileira eleva o custo logístico do País em R$ 17 bilhões por ano, encarecendo desnecessariamente as mercadorias de consumo dos brasileiros e as exportadas. Isso representa, segundo o estudo da FIESP, cerca de 15% do que o Brasil gasta anualmente em transporte e armazenagem da nossa produção. E nem num caso como no outro existem sinais claros de providências efetivas e de grande alcance em andamento para inverter o quadro. Como sempre, só tapa buracos...
Como todo bom humorista, Millor Fernandes define essa tragédia nacional burocrática em poucas e definitivas palavras.
José Márcio Mendonça é jor nalista e analista político




