Wed05232012

Atualizado em:03:09:19 AM GMT

A sacolinha cheia de cada um

 

Vou por um pouco de pimenta no debate que se criou em torno da questão das sacolas plásticas para transportar as compras de supermercado. Como cidadão comum, e com o prazer de paulistano, há mais de três décadas frequento supermercados para fazer as compras de minha família. 
 
Vivi o tempo da inflação, da estabilização, e de algum modo sinto que de dois anos para cá as gôndolas (e o caixa) desses estabelecimentos se tornaram meu referencial de inflação – sempre acima dos índices oficiais.
 
Antes de prosseguir, é bom que se frise : sou a favor da preservação do meio ambiente e desde eras priscas aderi, em meu condomínio, à coleta seletiva de lixo. 
 
É verdade que isso foi votado há muitos anos e só agora tive notícias de que será implementada a tal coleta. 
 
Eu já separo material reciclável de orgânico.
 
Isso posto, para não deixar os ambientalistas amuados, e engajado nas campanhas ambientais, posso perguntar ao leitor (afirmar seria temerário) se ele (e ela, principalmente) entendem como o fato de os supermercados decidirem não mais adotar a tal sacolinha não-biodegradável vai de fato contribuir para algo que não seja o eventual aumento do faturamento – porquanto passou a vender sacolas, carrinhos e que tais?
 
Até disso eu duvido um pouco, leigamente, porque, tomando meu próprio exemplo, reduzi para menos da metade as compras que fazia, para ter condições de carregá-las. Ainda assim, a primeira caixa de papelão que tentei levar para o carro rompeu -se e minhas compras foram todas ao chão. 
 
E chegando (como cheguei) cada morador do meu prédio e de todos os prédios cujos condôminos fazem compras em supermercados, com quantidade semelhante de caixas de papelão (que entupiram a lixeira do meu andar), como ficará a montanha de caixas pela cidade afora? Mais despesas para os condomínios...
 
Enquanto isso, os supermercados, além de não oferecer mais as sacolinhas, estão vendendo sacolas, carrinhos de feira e que tais, tudo a título de colaborar com o meio ambiente.
 
Mas pergunto de novo: e as sacolinhas plásticas em que embalamos os queijos, as carnes, as demais compras? Estas continuam existindo, ou vamos embrulhar o peixe e a carne no jornal velho?
 
Sou a favor da livre empresa, da economia de mercado, do lucro, da racionalidade, da criatividade, enfim, de tudo que faz girar a economia, o desenvolvimento na vida do País.
 
Como consumidor, porém, não gosto de me sentir regredindo, ou enganado. Sem considerar também 
que se trata – a abolição das sacolinhas – de um acordo entre os supermercados, e não uma exigência legal. Acordo que beneficia quem vende e prejudica quem compra, em larga escala, e faz o faturamento do estabelecimento, me parece, ser algo da competência de aplicação do Código de Defesa do Consumidor.  
 
Repito: sou a favor de medidas que ajudem a preservar o meio ambiente. Esta, a das sacolinhas, me parece muito mais uma esperta jogada de marketing, que poderia se aliar à preservação do planeta, não trouxesse tão ostensivo o desrespeito há décadas de hábito de consumo, sem alternativas adequadas. 
 
Se sobra caixa de papelão agora, em casa, no supermercado logo será disputada a tapa ou abandonada pelo consumidir – como abandonarei, de hoje em diante, o programa quinzenal de ir ao supermercado e comprar parte das coisas por impulso, sem necessidade objetiva.
 
Não gosto de espertezas na vida pública. E nem na privada.
 
Paulo Saab é jornalista e escritor
 
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