Wed05232012

Atualizado em:03:09:19 AM GMT

Classe média, valores e política

 

Há um evidente descompasso entre a realidade socioeconômica do País, com o aparecimento de novos valores, e os partidos políticos, presos a concepções ultrapassadas ou a práticas carentes de qualquer princípio. Acrescente-se ao contexto vigente a inteligência do governo em levar adiante uma política de tornar o Brasil um país de classe média, para que se tenha uma visão mais abrangente do quadro social e político que se delineia.
 
As transformações sociais e econômicas dos últimos anos, fazendo emergir uma nova classe média, com novos valores e aspirações, estão mudando o cenário nacional.
 
A dita classe C emergente já não é mais a clientela do bolsa-família que vive de benesses e dons do Estado, mas um grupo social que vive do seu trabalho, esforço, baseado em sua liberdade de escolha e no mérito daquilo que faz. Aspira a ter um maior espaço próprio de decisão, procurando progredir na vida e fornecer aos seus um padrão mais digno de vida. 
 
Isto implica aspirações como moradia própria, um carro, eletrodomésticos, mas, também, progressivamente, viagens turísticas, internet, computadores, aparelhos celulares, inclusive smartphones, IPad, entre outros. 
 
Uma pessoa que começa a ascender socialmente busca igualmente serviços de outro tipo como educação e planos de saúde particulares. Almejam formar os seus filhos, não mais em escolas públicas de baixa qualidade, mas em escolas particulares de qualidade que lhes reservem um futuro mais promissor. 
 
As filas do SUS querem ver pelo espelho, como um passado ao que não planejam retornar. 
 
Os valores que traduzem essa nova situação social já não são mais os que se veiculam a uma dependência do Estado. Posicionam-se contra a carga tributária, pois essa lhes retira recursos que poderiam ser mais bem aproveitados por eles mesmos. Valores que passam, então, a ser mais prezados são a liberdade de escolha, o direito de propriedade, o mérito, a autonomia e a recompensa do esforço próprio. São muito menos afeitos aos valores da dependência, da subordinação e do clientelismo, como esses emergem em um programa como o bolsa-família.
 
O governo Dilma está perfeitamente ciente dessa situação, o que se traduz pela formulação da presidente da República de que tem como objetivo fazer do Brasil um país de "classe média". O seu discurso já não é mais o lulopetista dos "trabalhadores contra as elites", dos oprimidos contra os opressores, dos pobres contra os ricos, em uma reprodução, empobrecida, do discurso e da concepção marxista da luta de classes. Há uma mudança de concepção propriamente dita, voltada para essa "nova classe média" e, logo, para os seus valores.
 
Uma nova classe média veicula, por exemplo, no que diz respeito a valores, uma concepção tradicional da família, assim como uma valorização da religião em seus moldes clássicos, desvinculada das tendências esquerdizantes ainda em voga na Teologia da libertação e nas pastorais da Igreja Católica. 
 
Preza igualmente a segurança física e a jurídica, lutando pela preservação de sua integridade física e de seus bens, manifestando pouquíssima tolerância para com a criminalidade, sendo, na verdade, uma de suas primeiras vítimas. 
 
Note-se que o governo Dilma, nesse quesito, está se distanciando bastante do governo de seu predecessor, que tinha como foco a clientela do bolsa-família e dos "deserdados", não perdendo a ocasião em estigmatizar as elites, com as quais, fora do palanque, se compunha perfeitamente. Quisera aqui ressaltar uma mudança de concepção e de valores em curso entre os dois governos, a criatura não seguindo o criador. 
 
Se o ex-presidente Lula mantinha um discurso, divorciado, aliás, de seu "neoliberalismo" na condução da política macroeconômica, esquerdista, alicerçado na história e tradição de seu partido, tal não é o caso da presidente Dilma. Se tivesse de usar um linguajar marxista diria que o governo petista é cada vez mais "pequeno burguês" e menos "revolucionário".
 
O PT defronta-se com um dilema. Doutrinariamente, representa-se ainda como um partido socialista, fazendo abundante uso de conceitos marxistas. 
 
Nos últimos anos, apesar de seus sucessivos governos, não produziu nenhuma revisão doutrinária. Convém aqui observar que não se trata, apenas, de um problema de pragmatismo, embora também o seja, mas um problema de concepção que envolve valores. Na verdade, o governo petista é "pequeno burguês", convivendo esquizofrenicamente com uma ideologia "revolucionária".
 
Pelo andar da carruagem, o governo Dilma está não só pragmaticamente enfrentando esse dilema, adotando equacionamentos técnicos dos problemas, mas segundo uma linha de valorização da classe média, devendo se adequar aos seus valores e aspirações. Acrescentará ao eleitorado já cativo do bolsa-família, o novo da nova classe média. 
 
Note-se que o prestígio pessoal da presidente Dilma e de seu governo está se deslocando, consoante com essa situação, para as regiões Sudeste e Sul. Um quadro desse tipo se traduzirá muito provavelmente por condições muito boas de reeleição quando do pleito de 2014. 
 
Os setores mais radicais do partido, queiram ou não, deverão se adequar cada vez mais a essa situação, sendo obrigados a abandonar suas bandeiras mais tradicionais, inclusive via distanciamento de movimentos sociais. O ganho, no entanto, será grande, traduzindo-se pelo crescimento partidário e por posições cada vez mais importantes de apropriação do aparelho estatal. 
 
A questão mais importante, principalmente para os partidos de oposição, consiste em como dar resposta tanto ao governo Dilma como às aspirações e valores de uma nova classe média. 
 
Poder-se-ia mesmo dizer que esses novos valores, ao se afastarem dos valores tradicionais petistas, criariam uma situação política propícia a esses partidos, não fosse o fato de o governo Dilma já 
ter se adiantado, vindo a encarnar esses valores. Acrescente-se, ainda, a incapacidade das oposições em se posicionaram, continuando presas a esquemas que não expressam essa nova configuração econômica, política, social e, sobretudo, ética, relativa aos valores. 
 
Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRS
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