Thu02232012

Atualizado em:02:41:00 AM GMT

O que vem primeiro: o leitor ou o livro?

Que alguém se orgulhe de ter um acervo de 15 mil músicas no iPod ou iPhone, é fácil entender. Mas é pouco provável que o mesmo aconteça com uma biblioteca de livros digitais. Qual a vantagem de se ter no computador, celular, leitor digital ou tablet uma coleção de 15 mil livros? Façamos as contas: se você lê ao menos um livro por semana (o que já é 11 vezes mais do que a média brasileira), e começou a ler nesse ritmo aos 15 anos de idade, quando estiver comemorando seus 85 anos bem vividos, ainda assim não terá lido mais do que 3.640 livros. Sobrariam 11.360 livros não lidos na sua biblioteca digital. E isso se você ler mesmo 52 livros por ano e não os 4,7 da média nacional.
 Para que, então, uma biblioteca virtual de 15 mil livros se o brasileiro só lerá 300 livros durante toda uma vida? Essa é uma das razões pela qual a revolução digital que mudou radicalmente o mercado fonográfico e audiovisual apenas começa a incomodar o mercado editorial. 
 
O caso da música e dos vídeos deixou uma coisa clara: a revolução digital é feita pelos usuários, e não pela indústria. Já que livros não são consumidos como músicas ou vídeos, a mudança nas letras deve demorar a acontecer. Em países com muitos leitores, como os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão, a mudança já está a caminho. O diretor da Feira do Livro de Frankfurt, Juergen Boos, disse que 2011 é o ano do ebook, o livro digital. No Brasil, como de costume, isso deve acontecer por volta de 2013.
 
O mercado editorial brasileiro sempre foi pequeno, vive de vendas modestas, e investe recursos tímidos em novos escritores e na formação de novos leitores. Há exceções, é claro, como os livros didáticos, acostumados a vendas de centenas de milhares de exemplares. E há, ainda, um sem número de oportunidades para os livros infantis, com aplicativos que tentam de tudo para distrair as crianças na intenção de 
fazê-las se interessar por uma narrativa escondida dentro dos livros virtuais. 
 
Mas é pouco real esperar que o advento dos tablets produzidos em território nacional com isenção de impostos altere imediatamente o cenário brasileiro. O que os tablets nacionais e a oferta de banda larga farão será antes uma revolução de primeira ordem; a revolução do acesso.
 
Historicamente, o livro e a literatura são pouco cobiçados no Brasil. Durante a colônia, muitos foram para a fogueira por terem livros em casa. Não se podia imprimir e publicar livros por aqui até a vinda de Dom João VI, em 1808. Em 1925, Pau Brasil, o primeiro livro de poemas de Oswald de Andrade, ainda trazia a inscrição "impresso pelo Sans Pareil de Paris".
 
Com a música, o cenário é muito diferente. Em qualquer vilarejo brasileiro a música está e esteve sempre presente. Seja ecoando do campanário das igrejas, saindo das festas de aparelhagem, das duplas caipiras ou sertanejas, ou das bancas de CDs piratas. Com a imagem é o mesmo. A televisão chega a 99% dos lares nacionais, os celulares capturam imagens e a troca de vídeos é intensa país a fora (basta ver as pegadinhas de programas de auditório e os vídeos que fazem sucesso no youtube). 
 
No passado e no presente, a equação da economia da cultura nacional fecha sem a participação dos livros. Livro, no Brasil, é para teóricos e diletantes. Antes de achar o caminho que impulsionará as letras rumo à revolução digital, é preciso primeiro resolver um simples dilema: o mercado editorial precisa decidir se o que nasce primeiro é o leitor ou é o livro.
 
O mercado e seus entornos (universidades, escolas e bibliotecas) não aumentam a oferta de livros digitais porque, dizem, a demanda é muito pequena (segundo a Livraria Cultura, o faturamento com ebooks não chega nem a 1% das vendas dos livros físicos). Os editores não aumentam o número de títulos eletrônicos porque têm medo de pirataria e de infringir a lei brasileira dos direitos autorais, uma das mais restritivas do mundo. Também não o fazem por falta de gente especializada que saiba trabalhar com epub, o formato dos livros digitais. Outro motivo é bastante peculiar: muitos dos títulos em circulação foram impressos antes da reforma ortográfica e relançá-los implicaria fazer revisões título a título, o que encarece em muito as iniciativas.
 
O mercado do livro precisa passar pela mesma revolução que o Brasil passou nos últimos 10 anos ao conseguir inserir na economia formal 18 milhões de cidadãos (o equivalente à população do Peru), gente que antes não podia comprar uma geladeira, um fogão, e nem mesmo financiar a casa própria. Com a ajuda dos que antes estavam excluídos, o Brasil 
cresceu e sobreviveu a duas crises mundiais.
 
Agora é preciso incluir outras dezenas de milhões de cidadãos no universo do livro e da literatura, na economia da cultura. Só assim o mercado poderá oferecer mais títulos, a preços mais baixos, com mais comodidade, aumentando a variedade e tornando o livro e a literatura bens tão relevantes no mercado como a música e o audiovisual. 
 
O que falta, enfim, é definir que no Brasil de hoje o que deve vir primeiro é o leitor.
 
Roberto Taddei é escritor e jornalista.