Sat05182013

Atualizado em:11:39:03 PM GMT

O homem que anima a arte

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Em meio a uma parafernália de ferramentas e materiais diversos, o cotidiano do cenotécnico Maurizio Zelada se desenrola com naturalidade. É ali, na confusão aparente de seu galpão na Mooca, que o profissional dá forma ao caos das ideias e conceitos em máquinas e objetos cênicos que instigam o público.

Quem foi à última Bienal de Arte de São Paulo (e viu a instalação Abajur, do artista Cildo Meireles), ao musical Cabaret de Cláudia Raia (ainda em cartaz: o espelho que se movimenta sobre plateia e palco) ou ao espetáculo teatral da cantora Zélia Duncan experimentou como os sentidos reagem às suas criações. Agora, prepara um boneco gigante (mais de 4,5 metros) em madeira para uma mostra de um dos grandes centros de arte, cultura, esportes e lazer da cidade, que não diz qual para não quebrar a surpresa.

"Minha grande conquista profissional foi conseguir entender o que as pessoas querem", define com simplicidade o enorme desafio que é entender os anseios estéticos dos diretores, arquitetos e artistas com os quais divide suas obras. "Como resolver as coisas eu sempre me dei bem, sempre me entusiasmou muito. Se algo não dobra, não cola, não me incomodo, me instiga a resolver. Na verdade, gosto mais do processo que do produto. Agora, entender as pessoas, gerenciar suas vontades e dentro do orçamento que têm é muito complicado."

O Moto-contínuo – "Desde criança, sempre gostei de desenhar, montar e desmontar coisas. Sempre fui inquieto. Essa arte começou junto comigo", afirma. Para Zelada, esse tipo de personalidade o atraiu para questões fundamentais que sempre impulsionaram os grandes pensadores, como Leonardo Da Vinci e os alquimistas, em busca de fontes infinitas de energia. "Eu tinha nove anos, e me lembro que fiquei alucinado com essa questão. O moto-contínuo move a curiosidade, continuamente. Tem essa coisa romântica de querer o impossível. Lembro que desenhei um monte de protótipos."

Zelada assegura que "sempre gostei de física e dessas áreas do aprendizado, e fui muito comparado ao personagem Professor Pardal. Mas quando se estuda termodinâmica percebe-se que, lamentavelmente, é uma conquista impossível".

Ele lamenta que "nunca construí nada que tenha chegado perto disso. Até da Vinci disse que quem procura por isso, deve esquecer", (risos).

Sabe-se que qualquer processo tem perdas. Não se tira energia do nada, apenas transforma. "Mas se você pegar uma criança e não falar isso, ela vai cair nessa falácia maravilhosa, até se dar conta de que não é possível. Mas aí já pensou em um monte de coisas."

Ele aproveita para criticar a maneira como a curiosidade é instigada atualmente pelo sistema educacional. "A matemática é maravilhosa, raiz de dois, número imaginário, teorema de Fermat (Pierre de Fermat viveu entre 1601-1665, jurista, foi um matemático conhecido pelo trabalho na teoria dos números. Seu famoso 'Último Teorema' levou mais de 350 anos para ser equacionado). Não sei o que as escolas fazem para transformar isso em uma coisa chata."

Segundo Zelada, destruir a magia da curiosidade "é a maior conquista da estupidez humana. E acontece todos os dias".  Por isso, afirma, atormento meus quatro filhos (uma de 22 e trigêmeos de 17) desde que nasceram. Nunca dei uma resposta simples, para que aprendessem a pensar.

O mau jeitinho – Ele discorda da propalada sagacidade local. "Não acho o brasileiro criativo. O Brasil praticamente não registra patentes, as coisas que vemos por aqui não são eminentemente brasileiras. O dia a dia das pessoas não contempla esse ato de fazer, ninguém constrói uma prateleira, pinta a própria casa. Geralmente, chama alguém e paga. Criar não é um traço da nossa cultura."

Para Zelada, "quem trabalha nas grandes empresas, geralmente, não desenvolve nenhuma tecnologia, atua apenas como vendedor. Não conheço uma pessoa que esteja em área de pesquisa e desenvolvimento". Ele acredita que "os grandes criativos da nossa era são os norte-americanos. Só a IBM registra mais patentes do que todo o Brasil e América Latina juntos. Os brasileiros criativos não estão aqui. No Brasil não se prega a criatividade, nem se paga por ela".

Para compor seus projetos, ele defende que a internet é grande fonte de inspiração e lamenta que "fantásticos recursos não tenham surgido mais cedo" em sua vida. E indica, para quem quiser se aventurar, o software gratuito, sketch shop e as dicas da Make Magazine, no Youtube.

Uma máquina de escrever, com caneta.

 

Traquitana escreve em latim sua única palavra: nada mais a dizer.

 

Uma máquina que escreve em latim foi outra criação curiosa de Zelada. Ao girar uma manivela, a caneta se move e cria a palavra Nihil: e a expressão do nada se materializa. "Estava sem fazer nada e, de repente, comecei a conceber a máquina de escrever. Tinha que escolher uma palavra, fiz uma extensa pesquisa e nada me convenceu, então ela escreve nada." Questionado se o equipamento representa seu próprio posicionamento filosófico, ele dispara: "Ateu eu sou com certeza, mas não nihilista."

Zelada diz que "acredito na paixão, no amor, na vontade de fazer as coisas, e deus não tem nada a ver com isso, nem precisa".

O funcionamento é explicado, mais ou menos assim: "Os discos de acrílico acionam o movimento da caneta. São três, um faz com que suba e desça, outro a movimenta para direita e esquerda e um sequente faz com que ela se afaste ou se aproxime do papel. A conjugação dos três forma a palavra.

Para fazer a letra N, por exemplo, há um disco que 'manda' a caneta subir, depois descer, enquanto um segundo encaminha o movimento para a direita. No final, o de subir entra em ação e a 'mágica' da escrita mecânica se materializa.

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