O momento exige atenção aos números
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- Publicado em Domingo, 06 Maio 2012 23:57
- Escrito por Rejane Tamoto

Poupança com nova regra de remuneração, juros em queda e dólar em alta. Os assuntos que dominaram o noticiário econômico da semana passada devem permanecer no radar dos pequenos investidores. De acordo com especialistas em finanças, é preciso acompanhar de perto esses indicadores, que têm impacto no rendimento das aplicações.
Para o sócio e economista-chefe da gestora de recursos Quantitas Asset Management, Gustav Gorski, com um cenário de queda para a taxa básica de juros (Selic), a rentabilidade dos fundos de renda fixa e de títulos públicos e privados tende a ser menor. Esses investimentos remuneram pela Selic e pelo Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que, por sua vez, segue a taxa básica.
É também um momento de atenção às reduções das taxas de administração dos fundos, iniciadas pela Caixa Econômica Federal. Nesta semana, o Banco do Brasil promete fazer o mesmo. A expectativa do governo é de que os bancos privados acompanhem o movimento, mas isso ainda não aconteceu. Executivos de Bradesco e HSBC disseram recentemente que o assunto está em avaliação interna.
Quem pretende migrar o fundo para outro banco não deve fazê-lo de forma brusca. "É um movimento de transição e não adianta sair correndo. O aplicador tem de avaliar o prazo porque quando você muda de fundo começa a contar o prazo do IR (Imposto de Renda) novamente. Às vezes o resgate estava programado para alíquota de 15% e a pessoa muda e paga 22,5%", afirma o administrador de investimentos Fábio Colombo.
O sinal mais forte de que a Selic vai cair neste ano foi a publicação, na sexta-feira, de uma Medida Provisória que altera a remuneração da caderneta de poupança. Mas os depósitos feitos desde 4 de maio serão remunerados sob novas regras apenas se a Selic cair dos atuais 9% para 8,5% ao ano ou menos. Nesse cenário, o poupador será remunerado com 70% da Selic mais a Taxa Referencial (TR). Depósitos anteriores continuam seguindo a regra anterior, de juros de 0,5% ao mês (o equivalente a 6,17% ao ano) mais TR.
Poupança fica mais complexa
Para o educador financeiro Mauro Calil, a poupança deixou de ser um investimento simples. Ele lembra que a maioria dos poupadores não deixa o dinheiro rendendo na caderneta: sempre faz saques para despesas emergenciais.
Com a nova regra, o poupador precisará prestar atenção aos valores ao fazer retiradas, para não sacar desnecessariamente o dinheiro da aplicação antiga, com rendimento maior se a Selic cair a 8,5% anuais. Segundo o Ministério da Fazenda, o saque sairá do depósito mais recente. Mas, com Selic igual ou menor que 8,5% ao ano, saber de onde sai o dinheiro vai exigir controle das aplicações – será necessário saber se o montante a ser retirado está na regra antiga ou na nova.
Organizar esse fluxo pode ser mais complicado do que se imagina. Por isso, a recomendação de Calil ao pequeno investidor é abrir uma caderneta de poupança em um banco diferente daquele com que já tem relacionamento. "Comece a depositar nesta conta nova e, se precisar do dinheiro, retire dela. Tente deixar o saldo já depositado anteriormente na conta antiga parado. Você terá um rendimento superior na poupança antiga, acima de 100%, em relação a outras aplicações, caso a Selic caia para 6%, por exemplo", observa Calil.
Para o educador, as novas regras só beneficiam quem é muito organizado financeiramente, o que não é o caso da maioria dos poupadores, que depositam e sacam sem um critério específico ou estratégia de investimento.
Um pouco mais de risco
Como a rentabilidade da renda fixa tende a diminuir com a Selic, especialistas em finanças orientam os investidores – mesmo os mais conservadores – a correr um pouco mais de riscos. "Quem ficar só na renda fixa tem a certeza de que a rentabilidade será cada vez menor", diz Calil, que recomenda ao pequeno investidor estudar outros investimentos, como os títulos do Tesouro Nacional no Tesouro Direto, as Letras de Crédito Imobiliário (LCI), os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), as debêntures e os fundos imobiliários.
Para o professor de cenários econômicos da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), Celso Grisi, não apenas o juro, mas a inflação também deve ser acompanhada por quem investe em renda fixa. "A inflação pode comer um investimento prefixado, ou apenas ser coberta por uma aplicação pós-fixada. Como essas opções estão cada vez menos rentáveis, é hora de ir para a renda variável", afirma.
Para o professor, o País tem fundamentos econômicos sólidos e a expectativa é de aquecimento do consumo no segundo semestre deste ano, o que aponta uma possível expansão do varejo, das indústrias de alimentos e farmacêutica, a recuperação da construção civil e da habitação. "Acredito que até os bancos vão ganhar mais com juros menores, em escala. É um cenário que estimula a bolsa de valores. Mas, ainda assim, o investidor precisa ter cautela e comprar ações de primeira linha, porque ainda há um cenário internacional difícil."
Dólar já perto de R$ 2
Para Gorski, da Quantitas, a alta de 1,8% do dólar na semana passada (para cotações superiores a R$ 1,90) mostra que está havendo uma mudança estrutural na relação cambial. Neste ano, a moeda norte-americana se valorizou 2,78%. "O câmbio está descolado dos fundamentos porque as moedas do mundo todo estão se valorizando, ao contrário da nossa, que perde valor. Acredito que a situação voltará ao normal no médio prazo."
Na avaliação do gerente da mesa de operações do Banco Confidence, Felipe Pellegrini, a alta do dólar na semana passada mostra que o mercado entendeu o recado do governo, já que desta vez não foi motivada por leilões de compra que são realizados pelo Banco Central (BC) periodicamente. "O que mudou foi a posição dos grandes bancos sobre o dólar. Acredito que a moeda ainda vai testar a barreira dos R$ 2 nas próximas semanas", afirma Pellegrini. Na avaliação do gerente, o BC deve agir para que o mercado suba o dólar, mas com cautela, para que fique entre R$ 1,90 e R$ 1,88. "Mas, se vier notícia ruim da Europa e dos Estados Unidos, o dólar pode subir mais, sem intervenções do BC", completa.




