Dá para viver "de renda" na bolsa de valores
- Detalhes
- Publicado em Domingo, 12 Fevereiro 2012 20:53
- Escrito por Rejane Tamoto

Se, para um proprietário, manter um imóvel vazio não compensa, para um investidor conservador do mercado de ações deixar os papéis "parados" também pode não valer a pena. Assim como fazem os donos de casas e apartamentos que vivem de renda, muitas pessoas físicas já emprestam, mediante pagamento de um aluguel, suas ações a outros investidores.
Segundo o gerente de Risco de Contraparte Central da BM&FBovespa, Daniel Granja, a alta de 57% no volume movimentado pelos empréstimos de ações entre 2010 e 2011 mostra o amadurecimento do investidor. "Ele encontrou uma possibilidade de ganho adicional com as ações." Granja acrescenta que a comparação entre alugar imóveis e ações tem só uma diferença: o segundo ativo é mais líquido, ou seja, o proprietário pode vendê-lo mais rápido.
A analista financeira Roberta Vaz de Marque, de 28 anos, descobriu o aluguel no começo deste ano. "Invisto na bolsa desde 2006 e agora um corretor me explicou sobre esse tipo de operação. Decidi colocar disponíveis para alugar ações em que não pretendo mexer por pelo menos dez anos", diz Roberta.
Em janeiro, a analista alugou papéis do setor de energia elétrica, que geram bons dividendos. "Será bom porque antes elas só rendiam o que valorizavam. Agora receberei os dividendos e os rendimentos do aluguel", comemora a analista. Ela cobrou um percentual menor do que poderia por ter colocado no contrato uma cláusula que lhe garante o direito de ter as ações de volta quando quiser. "Mesmo com uma taxa menor, achei mais seguro. Assim, não fico presa no papel", afirma.
Bom para longo prazo
O aluguel de ações representa uma possibilidade de ganhos maiores tanto para o dono quanto para o tomador. A diferença é que quem paga o aluguel normalmente tem mais qualificação e experiência nas operações de renda variável.
"Em geral, quem aluga tem uma carteira de longo prazo, na qual pretende mexer só daqui a dez ou 20 anos, e da qual não pretende se desfazer", afirma a estrategista de investimentos e sócia-fundadora da Eugênio Invest, Claudia Augelli. "O único risco, nesse caso, é de eventualmente surgir uma notícia ruim no mercado e os preços na bolsa caírem sem que o investidor possa operar, por estar com suas ações alugadas", ressalta.
De acordo com Granja, da BM&FBovespa, os investidores sempre têm a segurança de que seus papéis serão devolvidos no fim do prazo estipulado. "Isso é garantido pela bolsa", assegura. Quem quiser colocar suas ações em empréstimo deve procurar a corretora com que opera – é ela que fará a intermediação com a bolsa. E não há custos para o investidor, ao contrário: durante o período de locação, ele continua recebendo proventos, dividendos e juros sobre capital.
O prazo e o valor do aluguel são estabelecidos pelo proprietário do papel. Segundo Granja, o prazo médio tem sido de um mês. A taxa média aplicada é de 1,5% a 2% do valor da ação por ano. Para contratos de meses, basta fracionar esse percentual.
O sócio-titular da Título Corretora, Márcio Cardoso, diz que a taxa depende da liquidez do papel e da oferta e da demanda do mercado.
"O valor anual tanto pode ser de 0,25% quanto de 20%, percentual normalmente cobrado para ações com pouca oferta e grande procura. Tudo depende da necessidade do mercado", observa Cardoso. Assim, ações de maior liquidez, como as de Vale e Petrobras, tendem a ter um aluguel menor, inferior a 1% ao ano, pois são fáceis de se encontrar.
Disputa no mercado
Outro fator que influencia a taxa é o número de pessoas dispostas a alugar. "Acontece de 500 pessoas que querem alugar competirem entre si, jogando a taxa para baixo. O tomador escolhe a menor", diz o diretor-acadêmico da XP Educação (braço da XP Corretora), Silvio Hilgert.
Claudia, da Eugênio Invest, afirma que uma opção interessante é ofertar ações de empresas que pagam bons dividendos e que costumam ter menor volatilidade. "Elas também são ações de longo prazo e de menor liquidez. Por isso, oferecem rentabilidade maior na taxa. É como se você anunciasse o aluguel de um apartamento na Patagônia em vez de um no Guarujá", compara Claudia.
Tomador precisa ser experiente
Colocar as próprias ações para alugar na bolsa é uma operação simples e que exige pouco trabalho do investidor. Na outra ponta, entretanto, a situação é completamente diferente. Quem paga para ficar com os papéis de outros aplicadores é conhecido no mercado como tomador, de quem a operação exige muito.
Para esse tipo de agente do mercado, o aluguel funciona como uma ferramenta para amplificar os ganhos. E a complexidade começa bem antes de o investidor assinar um contrato. De acordo com o gerente de Risco de Contraparte Central da BM&FBovespa, Daniel Granja, antes de se candidatar a "locatário", o tomador deve ser, necessariamente, um investidor qualificado. Além disso, ele precisa apresentar garantias à bolsa (valem dinheiro, títulos públicos, ações e aplicações).
"O tomador deve dispor de 100% do valor da operação e mais um percentual relativo à potencial valorização da ação negociada. No caso de papéis mais líquidos, esse percentual é de 14% a 15%; para os de menor liquidez, de 30% a 40%", afirma o gerente da BM&FBovespa. "Essa é uma maneira de a bolsa garantir que o tomador vai honrar o contrato e que o dono da ação vai recebê-la de volta", acrescenta.
O tomador também paga os custos de emolumentos da bolsa, o valor do aluguel no fim do prazo e o Imposto de Renda (IR) sobre os rendimentos da ação no período, como em uma operação de renda fixa.
Todo esse rigor existe porque a maioria dos tomadores aluga o papel para vendê-lo a um preço maior e, depois, comprá-lo a um valor menor para devolvê-lo ao dono. "Em geral, os tomadores são grandes fundos, que ganham justamente na diferença entre a variação de preços. Eles alugam o papel e, em um momento de alta, o vende a R$ 50. Espera a queda para comprar a R$ 48 e devolver ao dono", explica Granja.
Como ninguém tem bola de cristal, é preciso qualificação para operar dessa forma. Por isso, 73% dos tomadores são fundos de investimentos e 15% são investidores estrangeiros. Segundo Granja poucas pessoas físicas fazem esse tipo de papel na operação.
Para Silvio Hilgert, diretor acadêmico da XP Educação, da XP Corretora, em tempos de volatilidade, alugar ações pode ser interessante, mas ele faz um alerta. "Não é uma operação para amadores, é perigosa. Há o risco de se comprar a ação por um preço maior do que o de venda. É preciso ter experiência e conhecimento para operar contra a lógica do mercado."




