Com juro em queda, poupança bate fundos e pode criar problema
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- Publicado em Domingo, 22 Janeiro 2012 19:14
- Escrito por Rejane Tamoto
Fácil de entender, flexível em relação ao prazo de resgate e isenta de impostos e outros custos bancários, a caderneta de poupança também pode se tornar mais competitiva na comparação com os fundos de Depósito Interbancário (que seguem o Certificado de Depósito Interbancário, vinculado à taxa básica de juros Selic). A decisão do Comitê de Política Monetária de reduzir a Selic de 11% para 10,5% anuais já tornou a aplicação na caderneta mais interessante no curto prazo, em até um ano, segundo cálculos do Instituto Assaf, de análises financeiras, e pode provocar mudanças em seus ganhos.
Especialistas alertam, para qualquer cenário, que o dinheiro não deve ser aplicado apenas na poupança, que ainda oferece uma rentabilidade baixa em relação a outros investimentos. Além disso, se a Selic continuar em queda, o governo pode voltar a estudar mudanças nas regras de remuneração da poupança, o que já causou polêmica em maio de 2009 (leia abaixo).
Segundo o Instituto Assaf, se a Selic chegar a 10% ao ano a caderneta de poupança se torna mais rentável do que o fundo DI com prazo de resgate de até dois anos e que tenha taxa de administração de 1% anuais. A tabela com a simulação (veja quadro) mostra que, conforme a taxa de juros cai, mais os fundos DI perdem a competitividade em relação à poupança.
O levantamento mostra o ganho do fundo DI com o desconto do Imposto de Renda (IR), que varia de acordo com o prazo da aplicação: de 22,5% para até seis meses, de 20% de seis meses a um ano, de 17,5% de um a dois anos e de 15% acima de dois anos. Além disso, também retira dos ganhos do fundo a taxa de administração.
A taxa máxima cobrada no fundo DI apurada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em novembro de 2011, foi de 3,5% ao ano para a aplicação de até R$ 1 mil. Quanto maior o valor a ser investido neste tipo de fundo, menor é a taxa de administração. Assim, quem aplicou de R$ 1 mil a R$ 10 mil pagou, em média, 2,11% ao ano. O percentual caiu para 1,05% anual para o investimento de R$ 25 mil a R$ 50 mil.
O levantamento também compara o fundo DI com a rentabilidade da caderneta de poupança apurada no ano passado, que foi de 7,5%. Com esse rendimento anual, o ganho mensal da poupança considerado no estudo seria de 0,6045%.
De acordo com a simulação feita pelo Instituto Assaf, se a Selic alcançar 9,75% – como espera parte dos analistas do mercado financeiro – o fundo DI com taxa de administração de 1% de curto e longo prazos renderá menos do que a poupança. Quem paga, por exemplo, uma taxa de administração de 1,5% ao ano neste tipo de fundo já deixa de ganhar em relação à poupança com a Selic em 10,5% ao ano, seja qual for o prazo da aplicação.
Planejar e negociar
Na avaliação do pesquisador do Instituto Assaf Fabiano Lima, responsável pelo trabalho, é importante que o investidor faça um planejamento antes de investir em fundos, além de negociar a taxa de administração com o banco para evitar perdas em relação à caderneta de poupança. "É preciso planejar e saber quanto tempo o dinheiro ficará parado, além de negociar com o banco, que costuma ser flexível para garantir a fidelidade dos clientes", observa.
O planejamento também serve para evitar a troca de aplicações "no meio do caminho". "Por isso existe a alíquota regressiva do Imposto de Renda. Quem aplica em Certificados de Depósito Bancários (CDBs) e se arrepende antes de 30 dias paga IR e Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). É preciso pesquisar e entender melhor os investimentos antes de escolher um", recomenda.
Ideal para curto prazo
Além de planejar os prazos e estudar as aplicações, o poupador deve diversificar. Quem fica na poupança acaba deixando todos os ovos na mesma cesta e apenas protege o dinheiro da inflação. No ano passado, o ganho real da caderneta foi de 1% se descontada a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 6,5%.
Para o educador financeiro Mauro Calil, pela própria forma de cálculo – 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR), índice que muda a cada dia e reflete o custo do dinheiro para os bancos – a poupança não é recomendada para quem quer ver o dinheiro crescer. Ele diz que se trata de uma aplicação ótima para quem precisar usar o dinheiro em até seis meses, já que em outro tipo de investimento há incidência de 22,5% de IR sobre os ganhos.
"A vantagem da poupança é que você pode depositar R$ 1 se quiser, mas não é uma aplicação para quem quer enriquecer. Hoje há CDBs que rendem quatro vezes mais, oferecendo a mesma segurança, caso o banco quebre, do pagamento de até R$ 70 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC)", afirma Calil.
Lima, do Instituto Assaf, diz que se a aplicação é de longo prazo, de dois a três anos, a melhor opção são os títulos do Tesouro Nacional. Neste prazo de resgate a incidência de IR é menor, de 15%, e a rentabilidade é maior, porém definida pelo tipo de papel, se pré ou pós-fixado.
O professor de finanças da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV), Samy Dana, diz que os títulos públicos são seguros e que a rentabilidade aumenta conforme o valor, mas devem ser de longo prazo. Dana afirma preferir os títulos públicos atrelados à Selic e ao IPCA pós-fixados, que afastam risco inflacionário. "Se a quantia a ser investida for de até R$ 100 mil, o CDB é mais recomendado." Na cesta indicada pelo professor não entra a poupança – mesmo com a Selic em queda. "Se o juro cair mais é possível que o governo mude a rentabilidade da poupança para evitar migração. É importante para o governo captar com a venda de títulos do Tesouro."
Migração para caderneta afeta economia
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já descartou mudanças na poupança desta vez, mas em maio de 2009, quando a Selic estava em 10,25% ao ano, ele chegou a anunciar a taxação da aplicação, com a cobrança de Imposto de Renda para depósitos superiores a R$ 50 mil (com uma complexa fórmula). A medida seria necessária para impedir que a caderneta rendesse mais que os fundos, provocando migração de recursos para a poupança. Esse cenário seria prejudicial porque o dinheiro aplicado nos fundos financia indiretamente investimentos, fazendo a economia girar. Além disso, o governo precisa vender títulos (que formam os fundos) para se financiar. Os recursos da poupança são mais "travados": parte deles deve ser, obrigatoriamente, destinada a outros fins.
Na opinião do educador financeiro Mauro Calil, dificilmente o governo teria coragem de mexer na remuneração da caderneta. É importante lembrar que esse assunto atinge em cheio a memória de muitos brasileiros, traumatizados com o confisco do governo Collor.
Calil diz que o governo deveria retomar o estudo, mas de maneira a estimular o poupador a aplicar na caderneta em curtíssimo prazo. "É importante que a discussão volte mais por uma questão macroeconômica. Se a Selic chegar a 6%, todo mundo vai para a poupança e ninguém mais empresta dinheiro para o governo por meio dos títulos públicos", avalia.
O vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Demósthenes Pinho Neto, disse, em entrevista coletiva no último dia 10, que a entidade não dialogou com o governo sobre o assunto. "Não sei se é uma discussão urgente neste ano porque há a perspectiva de o juro voltar subir em 2013. É uma discussão que deve ser postergada", afirmou Pinho Neto na ocasião.
No ano passado, a poupança teve a menor captação líquida (depósitos menos saques) desde 2006. Foram R$ 14,1 bilhões em 2011, valor 63,3% menor do que os R$ 38,6 bilhões de 2010. O professor de finanças da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV), Samy Dana, atribui a captação menor ao gasto maior das famílias no ano passado com despesas fixas, como luz, telefone, além das compras de final de ano. "A inflação maior também contribuiu", diz.




