O desafio de cumprir promessas de ano novo
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- Publicado em Domingo, 08 Janeiro 2012 21:32
- Escrito por Karina Lignelli
Está aberta a tradicional temporada das promessas: "neste ano eu vou emagrecer", "em 2012 eu vou trocar de carro", "de agora em diante vou parar de gastar sem necessidade". Quantas vezes já ouvimos – ou prometemos – coisas desse tipo? As promessas pessoais ou financeiras para o novo ano em geral mal sobrevivem ao fim das festas. E por vários motivos: falta de foco, de planejamento e até compulsão por gastos são alguns problemas apontados por especialistas em finanças pessoais para explicar a dificuldade da maioria das pessoas em cumprir metas, o que as leva a terminar o ano novo com uma baita frustração.
A complicação está na promessa em si, na avaliação do consultor financeiro do programa Consumidor Consciente da Mastercard, Ricardo Pereira. Segundo ele, se surgem obstáculos ao longo do ano, é normal a pessoa "deixar para lá". "É preciso fazer planejamento em cima dos objetivos, não ficar só na palavra. Ou seja, agir para que a simples vontade se torne um objetivo palpável", observa.
Planejamento e atitude
A falta de foco, que faz a pessoa se animar e fazer promessas na base do consumo, é outro problema, diz o professor de mercado financeiro e cenário econômico e diretor da Faculdade de Administração da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Tharcisio Souza Santos. Para ele, o ideal é subordinar o consumo a um objetivo maior: o longo prazo. "Está na macroeconomia: poupar é adiar consumo. É preciso aprender a poupar, lembrando que não vai dar para consumir no futuro caso se consuma muito no presente. É simplesmente ter foco, estabelecer objetivos claros e compatíveis com o que se quer", ressalta.
Exemplo disso, de acordo com Pereira, da Mastercard, é a compra de um carro. Em primeiro lugar, é preciso escolher o modelo, estabelecer o valor, avaliar o que cabe no bolso, saber quanto será comprometido do seu orçamento... Enfim, ter objetivos estruturados e bem planejados antes de tentar colocar a "promessa" em prática. Caso contrário, o projeto tem grandes chances de naufragar em pouco tempo.
"Só tomando esses cuidados é possível apurar resultados para verificar o que está certo ou errado, e o que se pode melhorar. A simples vontade de 'ter' não quer dizer que o seu objetivo será conquistado. A determinação e a disciplina é que motivam a pessoa a guardar um percentual da renda todo mês para atingir a meta. Não tem segredo: atitude é a palavra-chave", diz Pereira.
O professor da Faap dá outra dica para que a promessa financeira não seja quebrada: não eleger objetivos de consumo que sejam inatingíveis, pois nunca serão cumpridos. E ter claro que existem limites. "Basta 'não querer'. Excesso de consumo no presente significa problemas no futuro e excesso de poupança agora significa mau humor crônico. Moderação é o mais razoável para se atingir uma meta financeira", conclui.
Compromisso por escrito
"Toda dieta é boa, desde que seja cumprida." A frase, do professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Luis Carlos Ewald, ilustra bem a situação. Segundo ele, para fazer a promessa de início de ano virar realidade, toda família deve se comprometer. E por escrito.
"Todos têm que combinar no começo do ano: ninguém compra nada a prazo, só a vista e com planejamento. Cartão de crédito? Só se for para pagar integralmente. Não se deve deixar nenhuma dívida para o ano seguinte. Outra coisa: é totalmente proibido entrar no rotativo ou no cheque especial, exceto em emergências. E a dívida tem que ser quitada logo que entrarem os salários", recomenda.
Para o compromisso se transformar em algo interessante para todos, é preciso que um 'vigie' o outro, brinca o especialista. O ideal, segundo ele, é colocar no papel o sonho de fazer uma viagem, por exemplo. E poupar 10%, 20% da renda para comprar à vista. Isso porque, diz, comprar a prazo traz o problema da taxa de juros, que vem sempre embutida. "Se todos mantiverem o compromisso de separar sua parte, não vão gastar. E se houver um objetivo definido, todo mundo corre atrás", garante.
Pensar a longo prazo ajuda a atingir os objetivos
Uma pessoa que traça metas e cumpre. Assim se define a empreendedora do ramo de construção civil Rosângela Leati de Rossi (foto). Rose, como prefere ser chamada, faz parte daquele seleto grupo que faz planilha dos gastos e separa as contas pessoais e as da empresa. Ela também garante que nunca tem surpresas financeiras desagradáveis.
"Claro que imprevistos acontecem. Mas tento sempre me prevenir", frisa. Sem o hábito de fazer promessas de início de ano de qualquer tipo, Rose conta que suas metas geralmente são para além de 12 meses. Ela sempre se programa para saber aonde pretende chegar. Como há cerca de seis meses, quando começou a diversificar a oferta de serviços de seu empreendimento e viu que o negócio promete. "Em dois anos, espero estar alugando equipamentos para construção civil em geral", afirma ela, que planejou cuidadosamente fazer um financiamento em 2012, para quitar um imóvel e ampliar os negócios.
"Meus pais me ensinaram a passar o mês com determinado valor, assim como eduquei meus filhos para administrarem a própria vida. Para 2012, me planejei para o financiamento baseada na avaliação de que posso pagar. E tenho certeza de que vou dar conta", afirma a empresária.
"Prometer é a arte de ter, de fato, intenção de querer mudar. O problema é que algumas pessoas conseguem cumprir, mas a maioria não." A definição é da professora de psicologia da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) Maria Luisa Guedes. Segundo ela, o ser humano em geral se comporta motivado mais pela expectativa de resultados imediatos do que pelas consequências de suas ações ou omissões.
Exemplo disso é a atitude "compro agora, mas só pago no ano que vem". "É perigoso fazer prestação, dividir contando com o que 'se pode' ter pelo prazer do momento. Nós funcionamos assim. O ideal é trazer a consequência para perto para evitar problemas futuros, pois tendemos a esquecer coisas tardias", explica.
No caso das promessas em geral (e não só de início de ano), contar aos outros o que se pretende fazer é uma forma inconsciente de tentar aumentar as chances de cumpri-las. "Existem pesquisas bem fundamentadas que mostram que tudo o que a pessoa pretende 'é' cumprir. Porém, o imediatismo do consumo, o prazer de comprar, vira problema quando serve para a pessoa se esconder ou fugir de outros problemas. Mas só se faz o que se começa hoje. Ou então, pode esquecer", alerta a professora.




