Tue05222012

Atualizado em:12:45:51 AM GMT

Ouro: em alta, mas ainda arriscado

O euro cai, o dólar despenca e o investidor corre para o ouro. Esse comportamento é comum nos Estados Unidos e em países da Europa – sobre os quais hoje pesam as expectativas sobre a crise da dívida norte-americana e o risco de default na Grécia – o que fez com que o metal atingisse cotações recordes neste mês. A onça troy (montante que equivale a 31,1 gramas de ouro) ultrapassou o valor de US$ 1,6 mil no exterior. Nesses países, onde a taxa de juros é menor que 1%, o metal acaba se transformando em um ativo seguro.

Essa realidade é bem diferente da que se vê no Brasil, que hoje tem uma taxa básica de juros de 12,5% ao ano, o que estimula a migração para investimentos com maior possibilidade de ganhos.  Talvez por isso a quantidade de investidores do metal no País seja tão pequena. Segundo dados da BM&FBovespa, em junho, 28.474 contratos de ouro movimentaram R$ 56,4 milhões na bolsa.

É um volume muito reduzido em relação ao total negociado na bolsa, no mesmo mês, de R$ 124,2 bilhões. Por aqui, os investidores só recorreram com mais intensidade aos contratos de ouro em períodos de crise muito grave e desorganização da economia interna. Em 1988, por exemplo, época de hiperinflação, foram transacionados 2,3 bilhões de contratos, número que disparou para 11,9 bilhões em 1990, ano do Plano Collor. A quantidade de contratos arrefeceu em 1995, com 4,2 bilhões, logo após o lançamento do Plano Real e a estabilização.

Ao longo da última década, a cotação internacional do ouro tem subido e essa valorização é acompanhada pelos negócios no Brasil. A cotação do grama, segundo a BM&FBovespa, era de R$ 18 no primeiro dia útil de 2001 e, no dia 3 de janeiro deste ano, foi de R$ 81 – alta de 350%. Embora seja uma alternativa em tempos de turbulência, o investimento em ouro envolve riscos porque seu valor é influenciado pela variação cambial. Ainda assim, o que mais tem impacto sobre o preço do metal é sua variação no exterior, o que dependerá das mudanças de cenário.

Conservadorismo

Para o sócio-diretor da Tendências Consultoria, Nathan Blanche, o ouro não é um bom investimento porque não é lastro da economia. O principal lastro é o dólar, em mais de 60% de reservas no mundo. Para Blanche, o preço da onça troy reflete as inseguranças no momento e só países conservadores como China, Rússia e Índia mantêm altas reservas de ouro. "É uma commodity que se torna ativo em tempos de crise e, por isso, é um investimento inseguro. Se não houver um crash nos Estados Unidos, por exemplo, a cotação do ouro cai", afirma Blanche.

Atualmente, existem três formas de investir no metal, algumas mais complexas nos mercados financeiro e de capitais e outras mais simbólicas, como a compra do metal em pó ou em barras, para posterior venda ou penhor.

Na bolsa

Pode-se investir em ouro comprando e vendendo contratos à vista na BM&FBovespa. Nesse ambiente, a vantagem é poder negociar o ativo pelos preços de mercado com transparência. Outro aspecto importante é a segurança na negociação, na liquidação e na qualidade e pureza do ouro. Para negociá-lo, é necessário estar credenciado a qualquer corretora autorizada pela bolsa. Uma condição é negociar, no mínimo, um contrato de ouro, seja ele o de 250 gramas ou os fracionários de 10 gramas e de 0,225 grama.

Segundo o diretor da Reserva Metais, André Nunes, o tíquete de entrada mínimo para um contrato de 250 gramas é de cerca de R$ 20 mil, o que pode ser uma barreira para o pequeno poupador. "A maioria dos investidores de contratos na bolsa são os de atacado, como os bancos." Ele diz que a liquidez do ouro é maior no mercado de balcão, que é muito procurado por instituições financeiras e fundos de investimentos. Nunes explica que, quando um investidor quer fazer uma negociação na bolsa, primeiro busca uma empresa do setor – um market maker – para garantir a liquidez da operação, antes de lançar uma ordem de compra ou de venda. Ele afirma que só grandes investidores, como bancos e empresas, compram grandes quantidades de ouro e investem nesses contratos na bolsa de valores.

Além de ter uma corretora e um market maker, o investidor terá de arcar com custos de corretagem, impostos e guarda do metal. A bolsa cobra do uma taxa de 0,07% ao mês – calculada conforme o preço do ouro no dia e o saldo em gramas –  para a custódia do metal. O valor é repassado a um banco credenciado e escolhido pelo investidor para para guardar o ouro em cofres. Para se ter uma ideia, o custo para guardar uma barra de 250 gramas é de cerca de R$ 15 ao mês.

Se o investidor preferir retirar o ouro e levar para casa deve ir ao banco. A quantidade mínima para a retirada é de 250 gramas ou múltiplos desse volume (ou a partir de 500 gramas). Mas essa atitude não é uma boa ideia caso o aplicador queira voltar a negociar o metal na bolsa. Ele deverá iniciar um novo processo de certificação do ouro e terá de pagar uma taxa para uma empresa fundidora fazer a análise da barra.

Fundos

Outra forma de investir em ouro é por meio de fundos de capital protegido. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), dos 73 fundos de capital protegido existentes em junho, quatro estão atrelados à cotação do ouro. Os fundos formados pelos bancos HSBC, ItaúUnibanco e Santander abriram para a captação e já estão fechados a novos cotistas. Conforme as regras desses fundos, a retirada só poderá ser feita no término do prazo estipulado pelo fundo.

A diferença desse tipo de fundo é que ele não tem o "come-cotas", que é a cobrança antecipada do Imposto de Renda, feita a cada seis meses, de 15% da rentabilidade. Neste caso, há só o pagamento de IR de 20% sobre o rendimento do fundo quando ele for encerrado. Dessa forma, os fundos fechados não permitem novos investidores e nem resgates durante o período estipulado.

O fundo do HSBC, por exemplo, acompanha o índice do ouro Gold London PM Index e os 241 cotistas fizeram um acordo de que no final do período de investimento (um ano e um mês) os ganhos seriam determinados de acordo com três  cenários. No primeiro, com a variação do ouro positiva (em até 25%), os investidores recebem retorno de 110% da variação. No segundo, se a variação for superior a 25%, o investidor tem retorno absoluto de 27,5%. No terceiro cenário, se a cotação encerrar o período negativa ou igual a zero, o capital investido é preservado. O capital mínimo para entrar foi de R$ 15 mil e os riscos, segundo o HSBC, são os mesmos dos outros fundos, como os de mercado, liquidez, uso de derivativos e concentração. Outros riscos que o fundo tem são os de interrupção, caso o gestor não consiga realizar a operação estruturada, de inflação e de alterações na cobrança de impostos.

Ouro na mão

As negociações com ouro no mercado financeiro são mais comuns aos grandes investidores, mas quem quer ter acesso ao metal a preços mais acessíveis, a partir de R$ 93,15, pode procurar as lojas físicas ou na internet que vendem ouro em cartões ou em barras e entregam em casa. Antes de pesquisar na internet, no entanto, é preciso verificar se a instituição é regulada pelo Banco Central (BC), pois seu funcionamento é parecido com o das casas de câmbio. A lista completa com as instituições autorizadas consta no site www.bcb.gov.br/?IAMCIFO.

Segundo Nunes, da Reserva Metais, o pequeno investidor geralmente quer comprar a barra para guardar, fazer uma poupança para o filho ou neto ou dar de presente. "Desde a crise econômica global de 2008 aumentou o número de ligações de clientes desse tipo querendo investir R$ 1 mil em ouro. Por isso, desenvolvemos barras de cinco, dez e 20 gramas", afirma. A de preço mais acessível é a de cinco gramas, que custa a partir de R$ 500. Os itens mais vendidos para pessoas físicas pela Reserva Metais são as barras de 50 gramas e vale-presentes de 10 gramas de ouro.

Nunes diz que a empresa fornece garantia de recompra do ouro, mas com um pequeno deságio. Se, por exemplo, o grama ouro for vendido a R$ 81 será recomprado a R$ 80. O spread da recompra não é fixo e depende do volume da operação, da quantidade e da cotação do dia.

Na Ouro Minas são vendidos cartões com gramas de ouro que custam a partir de R$ 93,15 (com um grama). De acordo com o operador de mesa da Ouro Minas Roselito Soares da Silva, o ouro fracionado tem custo um pouco maior por causa do preço da embalagem. A venda é feita em uma das 46 lojas ou pela internet. No segundo caso, a entrega é pelo correio e, para valores superiores a R$ 400, é cobrado 1% de seguro.

A Ouro Minas vende cartões com um, dois, cinco, dez, 20 e 25 gramas de ouro. "A maioria dos clientes compra como presente. Quem quer investir, prefere as barras", afirma Silva.
O operador observa que existem diferenças entre comprar cartões e barras e joias. O último, por exemplo, não é investimento. "Na hora de vender a joia, o cliente não vai ter de volta o valor que pagou pelo trabalho artístico feito pelo joalheiro. O que vale é o peso do ouro, que vai ser fundido", destaca o operador.

Penhor

Por isso, o preço do grama do ouro é menor em operações de penhor. A Caixa Econômica Federal, que exclusivamente faz essas operações no Brasil, paga R$ 42 pelo grama. A gerente regional pessoa física da Caixa, Roseli da Costa Freitas Maranghetti, diz que a instituição acompanha os preços internacionais do metal para ter uma base de formação de preço, que não considera toda a volatilidade do mercado. "Temos uma tabela que atualizamos periodicamente." Ela diz que, no primeiro semestre, as operações de penhor cresceram 18% em relação a igual período de 2010.

O penhor é uma forma de obter empréstimo a uma taxa menor e de maneira simples: basta apresentar o CPF, RG e comprovante de residência. Não há consulta cadastral e o valor do empréstimo é fixado pela avaliação das joias. A Caixa empresta quantias equivalentes a 85% e até a 130% do valor da joia. O correntista pode financiar o valor em até 180 meses e pagar juros de 2% a 2,4% ao mês. A maioria dos empréstimos feitos na Caixa pelo penhor foram de menos de R$ 1 mil no último ano. "Muita gente usa o sistema para guardar a joia. E quem não paga ou renova o contrato conosco tem a peça leiloada", diz Roseli.


O negócio informal nas ruas do Centro
 

O mercado informal de compra e venda de ouro em São Paulo se concentra nos arredores da Praça da Sé, na região central, onde homens e mulheres vestindo coletes com a frase "compro ouro" estão prontos para levar consumidores a estabelecimentos de fachada ou a salas escondidas. A negociação costuma ser rápida e sem nota fiscal. Nesses locais, a joia ou peça em ouro é avaliada, pesada e trocada por dinheiro. Em média, a cotação do metal para o negócio é de R$ 50 o grama, um pouco acima do valor de referência no penhor.

A comercialização do ouro nesses locais é considerada ilegal, porque eles não são regulados pelo Banco Central (BC) nem fiscalizados pela Receita Federal do Brasil. Segundo um intermediário, que preferiu não se identificar, o preço muda conforme o quilate do ouro e a cotação do mercado informal acompanha as altas no exterior. Há cerca de duas semanas, por exemplo, o valor era de R$ 42.

Embora possa parecer bom para quem busca dinheiro rápido, vender o ouro no mercado ilegal significa entrar em ambientes suspeitos, frequentados por clientes de todos os tipos que vão em busca também de  dólar. Nos locais, as pessoas também negociam peças roubadas.

A maioria dos que vendem joias nos locais, negocia alianças de casamentos desfeitos. Aí não há como se arrepender, já que a recompra da peça será quase  impossível pois ela é derretida e repassada no mercado informal.

 

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