Tue05212013

Atualizado em:03:09:05 PM GMT

Nunca houve outra como ela

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A cultura brasileira, o jornalismo pátrio e a memória nacional acabam de ganhar inestimável presente e estímulo com a edição patrocinada pela Imprensa Oficial de São Paulo e trabalho de pesquisa e organização dos jornalistas Ruy Castro e Maria Amélia Mello, de obra de referência e leitura obrigatória a respeito da Revista Senhor, publicada no País entre 1959 e 1964.

São dois volumes: um, com textos dos selecionadores e de pessoas que estiveram diretamente ligadas à publicação, contando um pouco a sua origem e sua história; o outro, com a reprodução de pouco menos de uma centena dos mais representativos textos que ela publicou enquanto floresceu. Ambos ricamente ilustrados com reproduções de suas capas, ilustrações, páginas diagramadas e até anúncios exclusivos, cuja alta qualidade e inventividade foram uma de suas características, numa convivência harmônica e inseparável com a escrita.

Provavelmente, esta Senhor (nascida SR.) com seus escassos 39 números, não foi a mais completa publicação periódica conhecida entre nós por revistas (ou magazines), antes e depois de sua curta existência. Seus próprios jornalistas, como se poderá ler nos textos desta edição, reconhecem seus defeitos e fraquezas. Mas dela pode-se afirmar, como daquela personagem interpretada por Rita Hayworth em Gilda, da qual se dizia, com unção, que "nunca houve uma mulher como ela" que também nunca houve uma revista como a Senhor.

E como foi esta publicação? Sofisticada, audaciosa, criativa, um casamento perfeito entre texto e projeto gráfico, pela qual passaram, como editores, alguns dos jornalistas mais valorosos do Brasil na época. Criada por Nahum Sirotski, com o apoio financeiro do grupo que editava a Enciclopédia no Brasil, teve à frente da redação Paulo Francis, Luis Lobo, Newton Rodrigues, Odylo Costa Filho e Reynaldo Jardim, entre outros.

Sua qualidade plástica foi garantida pelos pintores Carlos Scliar e Glauco Rodrigues, entre outros, e por Bia Fleiter, que saiu de suas páginas para brilhar na imprensa norte-americana. Na revista, Jaguar deslanchou seu traço e seu humor.

Nela contribuíram boa parte dos talentos da escrita e do jornalismo do Brasil na época, numa lista interminável, de Otto Maria Carpeaux a Jorge Amado, passando por Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Roberto Campos, Vinicius de Morais, Antonio Callado, Campos de Carvalho, José Guilherme Merquior, Sérgio Porto... Uma lista invejável, interminável. Para ela, com exclusividade, Rosa escreveu o conto Meu tio Iauretê e Amado A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água. Publicava escritos de Jean Paul Sartre, Faulkner.

O segredo de seu sucesso – de crítica; de público, nem tanto, tanto que não conseguiu viver das próprias pernas e morreu por absoluta inanição financeira – não é difícil de se explicar. Além da qualidade editorial e gráfica, a pluralidade de temas que abordava e a disparidade de opiniões e conceitos que recebia em suas páginas. "Os autores teriam liberdade total de opinião" dizia Sirotsky quando gestava a revista. E inegavelmente tiveram.

Foi fator essencial, ainda, o fato de ter nascido naquele período de grande efervescência política, cultural, econômico e social que o Brasil vivia na passagem dos anos 1950 para 1960, tão decantado já em prosa e verso. Nasceu nesse auge e morreu emblematicamente às vésperas do nascimento dos anos negros pós-golpe de 1964. Ficou moderna até hoje.

 

 

Uma reformulação  das Leis de Kafka

Roberto Campos

"A sexta lei reza que, tendo sido a lógica inventada pelos gregos no hemisfério norte, não tem aplicação ao sul do equador. Divertia-se enormemente o Kafka (Alexandre, economista austríaco representante do Brasil no FMI) ante a minha aflição de escolástico, face ao comportamento inesperado da economia brasileira e à calma segurança dos 'intuitivos' e 'palpiteiros'. 'Afinal de contas – dizia ele – que direito tem você de esperar um comportamento lógico na realidade brasileira? Aristóteles codificou a lógica na orla do Mediterrâneo. Depois ela se tropicalizou um pouco quando Avicena e Averróis transpuseram para o mundo árabe frangalhos da matemática e lógica sobrenadando as invasões bárbaras. Mas ainda assim tudo se conduziu acima do equador. Tomás de Aquino ressuscitou-a através da escolástica. Descarte escreveu sobre o método. Peano e Russel consumaram, em dias modernos, o casamento da matemática com a lógica. Tudo, velhinho, entre os paralelos 23 e 60, ou, mais precisamente, acima do Trópico de Câncer! Quanto a nós, vivemos no reino próprio do instinto. Às vezes, promovendo-o à dignidade da instituição. Às vezes, ficando na província do palpite...'"

 

Cuba: o assunto é revolução.

Rubem Braga

"Seu vício é o charuto, um vício patriótico, gosta de Coca-Cola (é verdade: não estou dizendo isso para agradar ao Departamento de Estado), mas toma sua cerveja e às vezes um conhaque. Tem uma inescapável capacidade de trabalhar e de falar, e de sua resistência e coragens físicas deu provas cabais. Contaram-me que na véspera de nossa chegada  à  Cuba ele fora à televisão para responder a 12 perguntas de quatro repórteres. Feita a primeira pergunta, ele falou durante quatro horas sem parar. Em nossa entrevista coletiva na Embaixada do Brasil, tivemos os jornalistas brasileiros a interrompê-lo muitas vezes para que cada um pudesse colocar a sua pergunta. Assim mesmo ele conseguiu falar sozinho mais de 15 minutos; sua oratória é fluente, muito raramente brilhante. Lógica, paciente, persuasiva; repete as coisas para marcá-las bem; embala-se um pouco no que ele mesmo diz e, provocado, é capaz de um gesto de arrebatamento e impaciência, mas logo se contém e volta à calma. Uma grande parte de seu fascínio vem de seu ar de sinceridade, de sua convicção, de seu sentimento generoso. Lidos, seus discursos são má literatura."

 

O homem que passa. Didi é lógico.

Armando Nogueira

"Didi, craque felino, que calça 40 no pé esquerdo e 41 no pé direito; que tem um par de chuteiras num museu do Peru e outro, modelado em gesso, numa vitrine de troféus de futebol na Suécia; que, um dia, encerrou uma batalha campal entre jogadores brasileiros e uruguaios (Buenos Aires, 1959) surgindo no ar, como um gato, e desferindo um pontapé que aterrou três desafetos de uma vez, que jamais sofreu uma distensão muscular e, por amor ao futebol, amarra as chuteiras com um simples laço de sapato. Didi, um homem esquivo, de chute oblíquo e dissimulado como o olhar de Capitu."

 

Pequena história da República

Graciliano Ramos

"Oswaldo Cruz achava que era vergonhoso uma pessoa apresentar marcas de bexigas. Pensando como ele, o Congresso tornou obrigatória a vacina. E muita gente se descontentou. Estávamos ou não estávamos numa terra da liberdade? Tínhamos ou não tínhamos no direito de adoecer e transmitir nossas doenças aos outros? A 14 de novembro de 1904, houve um motim: sublevou-se a Escola Militar; o general Travassos morreu. Lauro Sodré, senador, e Alfredo Varela, deputado, foram presos. Assim, além das vítimas, que ordinariamente causa, a varíola produziu essas."

 

Mineirinho

Clarice Lispector

"É, suponho que é em mim, como um representante de nós, que devo procurar porque está doendo a morte de um facínora. É por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me, talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem nada sabe que Minheirinho era criminoso? Mas tenho certeza que ele se salvou e entrou no céu'. Repondi-lhe: 'Mais do que muita gente que não matou.'"

 

O povo do bero-ô-cã

Darcy Ribeiro

"Por quanto tempo mais os carajás resistirão à avalanche civilizadora? É difícil prever, mas já se antevê o caminho que se abre à sua frente. O rio Araguaia se povoa cada vez mais de sertanejos em busca de novos campos de pastagem para seus rebanhos. Muitas praias onde os carajás acampavam para as pescarias de verão, desde o passado mais remoto, lhes estão vedadas hoje porque têm donos. Amanhã estarão ilhados no mar da ocupação nova que dará aos campos do Araguaia a fisionomia pacata das velhas zonas sertanejas. Então as imposições à mudança de seus costumes serão irresistíveis. Perderão aos poucos a singularidade de povo único, com uma cultura e um língua próprias para conformarem-se a novos papéis e lugares que lhes serão atribuídos como integrantes da sociedade nacional. Serão certamente papéis e lugares ainda mais miseráveis que os dos sertanejos mais pobres e ignorantes e darão muito pouca oportunidade à alegria de viver e ao gosto de serem eles próprios, que os Carajás têm ainda hoje."

 

Os prazeres do crime

Otto Maria Carpeaux

"O Watson do grande detetive é ligeiramente estúpido. Quer dizer, o autor do romance policial finge ser estúpido, para que o leitor se sinta inteligente, compreendendo melhor os raciocínios do grande homem e participando mentalmente da solução do mistério: da descoberta de 'quem fez'. Whodunit.  Da escolha mais ou menos hábil do who, do criminoso, depende o interesse do romance policial, suas originalidade. Ou melhor: depende do lugar em que o criminoso esteve localizado antes de o detetive desmascará-lo, de modo que ninguém o tenha percebido ali. Essa localização do criminoso é a chave para escrever um novo romance policial."

 

Jorge Amado por ele mesmo

Jorge Amado

"Aqui no Rio se faz mais vida literária do que literatura. Isso não é muito mau porque não engana o público. Só engana os escritores cuja fama repousa nessas reuniões entre amigos, onde todo mundo é simpático, onde se satisfaz a vaidade do autor, cuja obra vende quase nada nas livrarias. É verdade que essa rotina talvez confunda os jovens. Eles podem pensar que literatura é vida literária. Mas logo aprendem,ou se não aprendem é porque não dão mesmo para outra coisa."

 

 

 

 

 

 

 

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