Tue05222012

Atualizado em:12:18:56 AM GMT

Berlim: Quando Voltaire admirava a Dinamarca

O filme A Royal Affair (Um Caso de Estado) coloca nas telas uma época pouco conhecida da Dinamarca, nos meados do século XVIII, quando o chefe do Conselho de ministros promoveu reformas sociais e de direitos humanos antes da Revolução Francesa e chegou a receber uma carta elogiosa do revolucionário francês Voltaire. Filme com sérias chances de ganhar algum prêmio no domingo. O ano era o de l768 e o rei Christian VII retornava de uma viagem de um ano pela Europa, acompanhado de seu médico alemão Friedrich Struensee. Fazia um ano, o rei dinamarquês tinha se casado com Carolina Mathilde, de 15 anos, filha do príncipe de Gales, porém tinha se revelado péssimo esposo, um tanto desinteressado sexualmente pela esposa e um tanto maluco, contam os historiadores. 
 
 
Comentava-se na Corte que provavelmente o rei tinha se masturbado demais desde a infância e isso lhe acarretara uma certa insanidade, pois sua busca de prazer era evidente, mesmo sendo rei passava a maior parte do tempo com prostitutas
 
Pobre de espírito ou fraco, o rei Christian era um joguete nas mãos do Conselho de ministros e a Dinamarca vivia um reacionário regime feudal ainda da Idade Média. Foi quando o médico Struensee, próximo dos Iluministas, ateu e leitor de Rousseau e Voltaire, tornou-se amigo do rei e conseguiu libertá-lo dos aristocratas da Corte.
 
Houve uma pequena revolução que desagradou o clero e a nobreza e que incluiu diminuição nas horas de trabalho para o povo, fim da tortura e medidas laicas no país. A rainha de origem inglesa, casada com apenas 15 anos, que se sentia opressa numa corte dinamarquesa tão reacionária, ajudou Struensee nas reformas e acabou se tornando sua amante, a ponto de sua segunda filha não ser filha do rei.
 
Descontentes por terem perdido suas mordomias, os antigos membros do Conselho de ministros, demitidos pelo rei, imaginaram um golpe de Estado, depois de lançarem junto ao povo uma campanha de difamação contra Struensee. E conseguiram influenciar o rei para assinar um mandado de prisão contra Struensee que, encarecerado e submetido a torturas, confessou ser amante da rainha, que foi banida e morreu aos 24 anos. Sob promessa dos golpistas de que seria expulso da Dinamarca, se retratou e se reconciliou com a Igreja, mas mesmo assim foi decapitado.
 
O cineasta Nikolah Arcel, amigo de Lars von Treier, conta que, há muitos anos, tinha vontade de transformar em filme essa história de política e de amor-adultério na corte real, mesmo porque o povo que, manipulado pelos clérigos e nobres, pediu, na época a cabeça de Struensee, reconheceu, mais tarde seu valor e seu espírito de vanguarda em matéria social. O filho de Caroline Mathilde ao assumir o poder com a maioridade reabilitou Struensee e revalidou as leis por ele promulgadas.
 
Nikolah Arcel nega ter pretendido fazer um filme subversivo, pois o anticlericalismo é evidente, quis simplesmente realçar a personalidade do antigo vanguardista chefe do Conselho de ministros. As filmagens foram feitas num castelo real na Tchequia.
 
Lars von Trier, o premiado cineasta dinamarquês que detesta a família real, não participou da escritura do roteiro mas agiu como consultor, expressando suas opiniões e dando sugestões. Embora dinamarquês, o filme é falado em alemão, mesmo porque na Corte dinamarquesa se falava alemão.
 
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