Thu02232012

Atualizado em:02:41:00 AM GMT

Troque seus amigos virtuais por crédito no banco

No começo era o ICQ. Meu número de usuário tinha apenas quatro dígitos. Antes de mim, o programa de bate-papo da internet tinha cadastrado menos de três mil usuários. Um pouco antes do ICQ, ainda, me lembro de ter aberto uma conta no Clube do CD, em São Paulo, uma locadora de CDs. Meu número era o 66. Pegava emprestado os discos. Copiava no computador. Devolvia no dia seguinte. Descobri muita música ali na rua Capote Valente, coisas que jamais teria ouvido sem a internet. 
Depois vieram os blogs. Junto com os blogs, a mania dos rankings. O primeiro era o Technorati, que dava notas para blogueiros a partir de regras pré-definidas como quantidade e periodicidade dos posts, quantidade de links para outros blogs, e quantidade de links vindos de outros blogs. Meu technorati, como dizíamos, nunca passou do 15. Alguns blogueiros chegavam a ter índice 1000.
 
Eu me dava bem no tempo do quem chegou primeiro. Com os blogs e depois as redes sociais, o mérito passou a ficar com quem é mais articulado. Quer dizer, articulado virtualmente.
 
Era o começo do Orkut. Falava-se em cinco ou dez milhões de brasileiros na rede. Hoje, para comparar, o Facebook já passa dos 800 milhões. Na internet, agora, tudo se conta aos milhões. Ou quase tudo.
 
Além do Orkut e do Facebook, ainda temos o Twitter, o Foursquare, o Instagram, o Google +, entre outros. Todos eles são construídos a partir de grupos de amigos, de redes sociais virtuais. O tal "fulano que amava ciclano, que namorava beltrano...". Só que agora ninguém tira ninguém pra dançar. É tudo online mesmo.
 
Pensando nisso, ou para organizar essa bagunça e criar um novo ranking (essa mania interminável dos seres humanos em insistir que um é melhor do que o outros, não importa o que a cartilha dos direitos humanos diga), apareceu agora o Klout. 
 
Ou o índice Klout. 
Já adianto que o meu é baixo, muito baixo. A ideia é cruzar todas as informações a respeito de suas contas pessoais em redes sociais, misturar os dados de todos os seus amigos, o que uns dizem dos outros, o que dizem a seu respeito, e montar a partir daí um panorama completo de quem é você em relação ao grupo social a que você pertence. Entre outras coisas, é possível descobrir quem você influencia, e se sentir vaidoso. Mas também atestar quem é que te influencia, mesmo que você jure que ninguém tenha visto você clicando naquele botão de "curtir" no Facebook na página daquele seu amigo do colégio que você não vê há anos. No Klout você descobre que as suas sábias frases compartilhadas entre os seus mais de 3 mil amigos virtuais não alcança de fato nem mesmo uns 50 gatos pingados. E também que desses 50, só uns seis é que repassam adiante a sua criatividade. É a tradução do que vem se firmando como a maldição do Facebook: 
 
"fala que eu te oculto".
O Klout recebe todas essas informações das outras redes sociais, de graça, e consegue assim saber mais do que todas elas. Já tem gente vendo oportunidade de negócio. Os usuários com alto índice Klout recebem ofertas de produtos e ganham acesso a promoções exclusivas. Além disso, o Movenbank, uma iniciativa baseada em Nova York,  pretende usar a rede social para avaliar linhas de crédito e criar um banco "sem papel, sem plástico". Você começa conectando sua conta do Facebook e seu índice Klout e terminar adicionando a sua conta corrente física ao Movenbak. Como todas essas informações, o novo serviço deverá tratar os clientes não de acordo com o holerite, como faz o sistema bancário hoje, mas de acordo com o seu índice Klout.
 
O fundador do Movenbank, Brett King, é autor do livro Bank 2.0, que discute as recentes mudanças de comportamento dos usuários do sistema bancário que deixaram de usar dinheiro e cheque e passaram a pagar contas online e a usar terminais de atendimento eletrônico. King aponta outra iniciativa similar nos EUA, o banksimple.com, uma start-up financeira de Portland que promete também ser um banco sem agências, sem papéis e sem plásticos. Antes mesmo de começar a funcionar já levantou U$ 13 milhões e tem 50 mil clientes pré-cadastrados. 
 
Na minha lista de amigos do Facebook, do Twitter, do Instagram, do Linkedin etc, quase todos os meus amigos têm índice Klout maior do que o meu. Se aparecer finalmente 
uma linha de crédito para quem consegue, apesar de todas as facilidades, manter baixo o índice pessoal de sociabilidade digital, aí sim é que eu finalmente garanto a minha casa própria. Por enquanto, fico nostálgico ao lembrar do Clube do CD e do meu número de chegada: 66.
 
Roberto Taddei é escritor e jornalista
AddThis Social Bookmark Button