A Amazon e a revolução editorial
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- Publicado em Quinta, 10 Novembro 2011 18:49
- Escrito por Roberto Taddei

Apple, Google e Facebook são fenômenos de crescimento comercial. Mas a empresa que mais chama a atenção, hoje, é a Amazon. Não porque tenha os melhores produtos (estes são da Apple), nem a maior rede (do Facebook) nem o melhor algorítimo de indexação (Google). Mas por ser a empresa de tecnologia que mais arrisca. Enquanto as outras empresas nadam com boias nos braços, a Amazon faz kite surf. E com conteúdo.
Há 4 anos a Amazon lançou o Kindle e provocou uma reviravolta no mercado editorial. No próximo dia 15, a Amazon começa a entregar o novo modelo Kindle Fire, com tela multitoque para concorrer com o iPad, da Apple. Segundo estimativas, a fatia de mercado que o Kindle e os produtos associados a ele podem render à Amazon em 2012 chega a US$ 6 bilhões, ou 10% do total do faturamento esperado da empresa.
Até aí, pode-se argumentar, não há nada de arriscado. O detalhe é que desse faturamento expressivo, não há lucro nas operações do Kindle. Mais provável é que o prejuízo seja grande, e isso já se arrasta por alguns anos. Assim, de todos os produtos associados ao Kindle, isto é, o equipamento físico, livros digitais, músicas, vídeos e aplicativos, a Amazon não obtém nenhum lucro. Se fosse uma padaria, a divisão do Kindle já estaria fechada.
Mas não é. E a aposta é que o Kindle, dentro de alguns anos, será justamente a salvação da Amazon. A estratégia está baseada na ideia de que o mercado de entretenimento e cultura está migrando do suporte físico para o virtual. Hoje 45% do faturamento da Amazon vem de mídias físicas. Se a Amazon não for a líder nesse momento de passagem para o virtual, o certo é que outra empresa assumirá o protagonismo (a Apple e o Google estão na disputa) e a Amazon acabará virando uma padaria como outra qualquer. Por isso a empresa aposta tanto no Kindle. Por isso está disposta a investir tanto dinheiro, e por tantos anos.
Mas a Amazon não é só isso. Não é apenas uma reunião de cérebros fazendo contas e projeções. Se fosse, jamais teria mexido com literatura, um mercado só menos inconstante do que o das previsões meteorológicas. Justamente por esse motivo, tem mais chances de liderar as mudanças, assim como fez a Apple no mercado de computadores e telefones celulares.
Quando a Amazon lançou o leitor digital, Steve Jobs chegou a brincar que o Kindle nunca daria certo porque as pessoas simplesmente não lêem mais livros. Estava errado e com o iPad teve que aceitar o fato de que sim, a leitura não só continua entre os interesses dos cidadãos norte-americanos como, em últimas pesquisas, têm crescido a procura por livros devido à proliferação de leitores digitais. Quem tem um leitor digital, diz a Amazon, lê três vezes mais do que a média.
A Amazon também montou um serviço de rede social para os leitores.
É um Facebook, mas só de livros. Também criou um sistema que contabiliza todas as passagens selecionadas por leitores em livros digitais e passou a compartilhar isso entre os usuários do Kindle. Assim, enquanto você lê aquele livro do Foucault para a faculdade, também fica sabendo o que os outros leitores do mesmo livro estão achando mais interessante. Um pouco como a experiência de pegar um livro todo sublinhado e anotado na biblioteca da escola e sentir-se parte, pelo menos por uma página, de algo maior.
Depois, a Amazon abriu um canal para que os escritores pudessem publicar seus livros diretamente no Kindle. Alguns ficaram milionários, como a escritora Amanda Hocking, que agora vende cerca de 100 mil exemplares de seus livros por mês.
O contrato com a Amazon prevê que o autor fique com 70% do preço de venda dos ebooks. Como ela os vende por entre US$ 1 e US$ 3, na média levanta US$ 140 mil mensais. Hocking, de apenas 26 anos, escrevia histórias fantásticas em um blog antes do Kindle. Mesmo sendo apenas um ponto fora da curva, muitos escritores se aproveitaram da chance oferecida pela Amazon de chegar aos leitores sem precisar de um editor, editora, distribuidora, livraria, etc...
Recentemente, a Amazon anunciou a contratação de um famoso editor de livros de Nova York, Larry Kirshbaum, para chefiar a sua editora. Kirshbaum logo anunciou duas contratações de peso: assinou com o autor de livros de auto-ajuda Timothy Ferriss e fez um contrato de US$ 800 mil com a atriz Penny Marshall para um livro de memórias. Nesta próxima temporada, a Amazon deve publicar mais de 120 livros, impressos ou não.
Para mostrar que o namoro da Amazon com a literatura não é apenas nos números, a empresa também financia pequenas editoras independentes, centros de estudo, residências artísticas e revistas literárias espalhadas pelos EUA. Recentemente, doou US$ 44 mil para o site Words Without Borders e US$ 26 mil para a residência de escritores internacionais Ledig House.
Por fim, sinalizando que no mundo das letras a revolução está sendo mesmo promovida pela Amazon, a empresa abriu para todos os escritores o acesso a um serviço que monitora a venda de livros impressos em pelo menos 75% do mercado norte-americano. Com isso, os autores podem acompanhar a venda de seus livros e comparar depois com a parcela de direitos autorais que recebem de suas editoras, além de planejar estratégias de divulgação.
Ao que tudo indica, o mercado brasileiro ainda está esperando para ver onde é que tudo isso vai dar.
As editoras continuam reticentes com o livro digital e com a vinda da Amazon para o Brasil. Tem gente que ainda insiste em vender livro no formato PDF. Além disso, por aqui não há sistema de controle para as vendas do mercado editorial e os autores têm que confiar nos números apresentados pelas empresas. As livrarias investem pouco nos leitores digitais e os tablets nacionais ainda devem demorar a chegar.
O medo das editoras norte-americanas de que a Amazon se transforme em um monopólio e domine todo o mercado editorial parece ser mais contagiante do que o entusiasmo com as inovação promovidas pela empresa. Mas, segundo a lógica dos negócios, quem espera para rir por último corre o risco de acabar pagando mais caro.
Roberto Taddei é escritor e jornalista




