Cenas do crime que mais pareceu um filme
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- Publicado em Domingo, 26 Junho 2011 21:19
- Escrito por Valdir Sanches

Cenas reais ou de filme? Um grupo de homens armados, comandados por um mascarado com uma pistola Parabellum em cada mão explode os trilhos de um trem com dinamite e invade o carro pagador. Sem dar chance aos quatro homens que ali estão, os invasores matam um deles e ferem os outros três. Fogem com o equivalente, hoje, a R$ 1 milhão, destinados ao pagamento dos funcionários da ferrovia.
A realidade: O assalto ao trem pagador ocorreu há meio século, em junho de 1960. Ganhou manchetes dos jornais e deixou perplexo o País que, naquele ano, inaugurava Brasília, sua nova capital. A polícia, desnorteada, passou meses seguindo pistas falsas, batendo cabeça. Foi então que o detetive Perpétuo Freitas da Silva entrou em ação.
O filme: apenas dois anos depois, em 1962, as cenas ficcionais do roubo explodiam em preto e branco nas telas do cinema. O Assalto ao Trem Pagador, direção de Roberto Farias, e roteiro dele e de Luiz Carlos Barreto, fez sucesso e ganhou prêmios. Foi exibido no Palácio da Alvorada, para o então presidente João Goulart.
O cenário da história, e do filme, é uma pacata região montanhosa do subúrbio do Rio de Janeiro, cortada pelos trilhos da Central do Brasil. O trem partira da Estação de Japeri às 8h30 de 14 de junho, uma terça-feira. No carro onde ia o dinheiro, 27,6 milhões de cruzeiros, havia um cofre. Mas estava vazio.
Inferno
As cédulas, na verdade, amontoavam-se em umas caixas, para que o funcionário pagador, e um auxiliar, pudessem contá-las. Havia ali três vezes mais do que o usual, porque, além do salário, pagavam-se dois meses de abono. No lugar chamado Garganta do Diabo o inferno se instalou a bordo. A explosão descarrilou a locomotiva Maria Fumaça e os vagões. Mal o trem parou, uma voz ampliada por um megafone anunciou o assalto. E começaram os tiros.
O pagador e seus dois auxiliares dispunham de duas dúzias de balas. Dezoito em uma carabina Winchester, e seis em um revólver. Se pensaram em usá-las, não tiveram tempo. Um negro forte, 1,80 metro de altura, invadiu o carro segurando, em cada uma das mãos enluvadas, uma pistola Parapellum. O rosto estava coberto por uma meia de náilon feminina. Era quem dava as ordens.
O que parecia ser seu segundo não escondia o rosto. Falava o tempo todo sobre seu propósito: matar os três funcionários que, feridos a bala, haviam sobrevivido. Sua lógica, contada pelos sobreviventes: "Morto não fala".
Scotch
Uma picada havia sido aberta pelos assaltantes, para poder chegar - e sair - de carro, do local do assalto. Nela, a polícia encontrou o que parecia ser a primeira pista. Um maço de cigarros importados, uma garrafa de scotch (na época bebida consumida por pessoas abastadas) e um talão de cheques de viagem, com folhas de dez dólares. Uma quadrilha internacional! Ou simplesmente esperteza dos bandidos para confundir as investigações?
Palmilhada a região, "um cenário deserto e romântico para o desenrolar do espetáculo sangrento", como diria o jornal carioca O Globo, chegou-se a uma testemunha.
Um lavrador do lugar vira homens da quadrilha abrindo a picada. Eles explicaram ao curioso que tinham comprado uma fazenda por ali, e abriam um caminho até os trilhos, certamente para escoar a produção. Muito natural...
Com os olhos da população postos sobre si, o delegado do caso, Amil Ney Rachid, disse que em 48 horas o caso estaria esclarecido. Contava com os resultados da caçada que um grande contingente de policiais, armados até com granadas, fazia na cidade e no subúrbio.
Buck Jones
Além disso, havia a garrafa de scotch. Ela tinha um número gravado pelo fabricante escocês. A polícia foi aos importadores da bebida, tentar descobrir quem comprara aquela, entre milhares de garrafas. Três dias depois do assalto, o delegado Amil viu-se obrigado a admitir que não saíra da estaca zero. Os policiais se esforçavam. Detinham dezenas de suspeitos, iam atrás de bandidos que haviam alcançado notoriedade, como um certo Buck Jones. Estes, prudentemente, haviam sumido.
Cinema
Decorrido meio mês de corrida atrás de pistas falsas, o delegado Amil recebe uma informação. Um dos assaltantes estava no cinema Paz do Pacificador, em Duque de Caxias, cidade do subúrbio.
O delegado age imediatamente: convoca a imprensa e 28 policiais armados com metralhadoras e fuzis. Os jornalistas cumpririam uma exigência: para não chamar a atenção, deixariam seus carros com o letreiro Reportagem longe, e passariam para as viaturas branco e preto com sirene escrito POLÍCIA. Amil avisou que não se responsabilizava por suas vidas.
Fiascos
A estratégia policial era seguir o suspeito para chegar ao covil dos assaltantes. O suspeito saiu do cinema, conversou com outro homem, cada um se foi em um táxi e a polícia não prendeu ninguém.
Apesar disso, Amil anunciaria ter encontrado o esconderijo da quadrilha. Um apartamento, em um prédio de Copacabana. O bairro foi cercado por barreiras (só a imprensa podia entrar), a estação rodoviária e a ferroviária, vigiadas, bares e inferninhos fechados.
Na hora marcada - 22h30 - veio a informação de que nada podia ser feito. O chefe de polícia não fora encontrado para autorizar a operação noturna. Com isso, remarcou-se a ação para seis horas da manhã. Nessa hora, uma formidável força policial invadiu o prédio, acordou e interrogou moradores, vasculhou tudo para... novo fiasco. Aos poucos, o noticiário sobre o assalto ao trem pagador foi desaparecendo. Em poucos meses, o crime faria um ano.
Detetive Perpétuo, o farejador de bandidos
O detetive Perpétuo tinha uma qualidade essencial para um caçador de bandidos: faro. Por esse motivo, e por conhecer bem o submundo do crime, havia sido chamado para ajudar nas investigações do assalto ao trem pagador.
A convocação fora um pedido do delegado Amil Ney Rachid, que estava com o caso. Perpétuo Freitas da Silva, o delegado e um comissário, Rufino Messias, partiram para um minucioso trabalho de investigação que os levou para outros Estados do País. Até ao Pará foram. O que buscavam, no entanto, estava nos morros do Rio de Janeiro.
O estalo veio para o detetive (em São Paulo o cargo seria investigador) quando mais uma vez olhava para os desenhos dos rostos de alguns dos assaltantes. Retratos falados, feitos pelos sobreviventes do assalto.
Subitamente, lembrou-se de Zezinho, bandido que havia prendido por assalto a um banco de Itaboraí, no interior fluminense. O sujeito tinha um medo terrível de falar, porque, dizia, seu bando havia feito um pacto de morte. Se alguém abrisse a boca, sua família seria morta.
Mas, ao contar sua participação no assalto, acabou falando dos cúmplices. O chefe era um negro alto e forte, com grande poder de mando. Costumava esconder o rosto com uma meia de nylon. Havia outro – grande piloto dos carros usados nas ações criminosas – e um facínora, pronto para matar.
Perpétuo não teve dúvidas: descobrira os assaltantes do trem. Mas antes que pudesse agir, foi afastado do caso. Aos jornais, chegou a informação de que o desligamento fora por razões administrativas. Fosse o que fosse, o detetive não se abalou. Como nos modernos filmes de televisão, passou a investigar por conta própria.
Pistas
Em abril de 1961 (dez meses haviam se passado desde o crime) uma informação chegou aos ouvidos de Perpétuo, trazida por um informante. Este ouvira, em uma rodada de pif-paf (um jogo de cartas), no Morro da Mangueira, que um dos moradores, Nilo Magno de Melo, o Nilo Peru, havia desaparecido. Uma das versões era de que teria ido se encontrar com um tal Manuel Godinho, e nunca mais fora visto.
As pistas foram ligando umas nas outras. Perpétuo descobriu que Nilo Peru e um companheiro, Anastácio de Souza, tinham sido processados por assalto a banco. E que Anastácio, por sua vez, tinha três irmãos – Sebastião, Zeferino e Manuel. Na sequência das investigações, chegou a uma certeza. Os irmãos eram assaltantes do trem pagador e do banco de Itaboraí.
Sebastião era o chefe, o homem da meia no rosto. Entraria para a história do crime como Tião Medonho, apelido dado pela imprensa. Seu irmão Manuel era aquele com quem Nilo Peru foi se encontrar, e sumiu.
Já era maio quando Perpétuo contou suas descobertas para o delegado Amil e o comissário Rufino. Tratava-se, agora, de localizar e prender os bandidos.
Prisão
Na Mangueira, todos sabiam que, de uma hora para outra, Manuel Godinho passara a viver muito bem. Comprara vários barracos, mobiliara o seu. Godinho estava deitado em sua cama nova, quando Perpétuo, o delegado e o comissário invadiram seu barraco. A seu lado, o assaltante tinha uma pistola 7.36, mas prudentemente não se mexeu.
Na delegacia, deu o serviço. Disse que o motorista do carro usado no assalto ao trem, Joel da Silveira, tinha sido morto por Tião Medonho e seus irmãos. Nilo Peru, o que desaparecera, provavelmente estava morto. Falou sobre o dinheiro roubado: Tião havia ficado com quase tudo.
E foi citando esse bandido que Godinho passou aos policiais uma informação de ouro. Tião Medonho e seu irmão Zeferino queriam falar com ele. Haviam marcado encontro: na terça-feira que se aproximava, às cinco e meia da tarde, sob a ponte de Coelho Neto, no subúrbio.
Antes dessa hora, na terça-feira, Amil, o comissário Rufino e policiais de apoio colocaram-se em pontos estratégicos, à espera dos bandidos. Perpétuo trazia Godinho algemado, com um casaco entre os dois para disfarçar.
Às cinco e meia, uma caminhonete verde estacionou sob a ponte. Tião Medonho, ao volante, e Zeferino, permaneceram nela. A versão mais verossímil do que aconteceu, a seguir, diz que Perpétuo tirou as algemas de Godinho e este caminhou para o lado esquerdo da caminhonete.
Perpétuo avançou, mas pelo lado direito. Os irmãos perceberam que havia algo errado, mas nesse momento o detetive abre a porta do carro, lança-se dentro, e começa a lutar com Zeferino. Este dispara seu revólver, mas o detetive havia desviado a arma. A bala acerta seu polegar e a perna do próprio Zeferino.
Tiros
Os policiais abrem fogo contra a caminhonete, embora Perpétuo estivesse dentro dela. Um tiro acerta Tião Medonho nas costas. O detetive joga-se no asfalto, agarrado a Zeferino. Tião sai disparado com a caminhonete e foge.
Três dias depois, um informante passa ao delegado Amil um endereço em Barros Filho, na zona norte. Lá havia uma casa magnífica, contrastando com o casario miserável. O delegado e seus homens invadem. Acham Tião Medonho inerte, ferido, na cama. No forno do fogão, são descobertos 285 mil cruzeiros (moeda corrente da época).
O bandido morava com Djanira, sua amante, mas tinha outra mulher, Edite, em outra casa. As duas descobriram a existência uma da outra e resolveram se vingar de Tião.
Escavação
Djanira indicou à polícia o fundo falso de um armário. Ali estavam 5,6 milhões de cruzeiros. Por indicação de Edite, o jardim de sua casa foi escavado. Não havia dinheiro, mas muitas armas e munições. Mais tarde, outros quatro milhões foram pegos com um comerciante. Seriam de Nilo Peru, o desaparecido.
O esclarecimento do caso ampliou a fama do caçador de bandidos. O detetive Perpétuo era respeitado e admirado pelo povo. Entre alguns de seus colegas, provocava ciúmes.
Três anos depois de prender Tião Medonho e sua gangue, vai com outros policiais à Favela do Esqueleto. Um bandido queria entregar-se, desde que fosse para ele. Na favela, estoura uma discussão entre o detetive e outro policial, Jorge Galante. Este saca sua arma e mata Perpétuo.
O corpo do herói fica estendido na rua da favela. Essa história merecia mesmo um filme.







