Tue05222012

Atualizado em:11:57:55 PM GMT

Aventura com o Cobalt

 

Este carro, o Cobalt, não tem um design arrojado ou futurista; ao contrário, é conservador, puxado ao clássico, com a traseira deixando um pouco a desejar e as lanternas lembrando o Astra. Enfim, um automóvel médio que, em apenas quatro meses, assumiu seu lugar entre os dez mais vendidos do País e levou, junto com o Cruze, a GM à liderança do mercado nacional em janeiro, deixando na esteira Volks e Fiat. Se vende tanto, deve ter seus motivos.
 
Vamos a eles. Primeiro uma aventura pela ex-rodovia Fernão Dias; agora apenas uma avenida de longa distância, na qual as ultrapassagens são quase impossíveis em vários trechos. Grande parte por causa de motoristas de caminhão, senhores de todas as pistas, trançando por elas com desenvoltura e respeito zero aos demais veículos. Em subidas longas, tomam as três pistas e disputam o posto de mais lento. Atrás, quilômetros de congestionamento. Quando com carrocerias vazias, praticam o automobilismo, como se estivessem no cockpit da Red Bull de Sebastian Vetell.
 
Mas depois de Atibaia, Bragança e Extrema, já em Minas,as coisas melhoram um pouco; dá até para pisar mais fundo, fechar todos os vidros para testar seu silêncio (que é absoluto, não se ouve nem o ronco do motor); e em segundos se atinge velocidades acima dos 120 km/h. E aí mora um perigo, convém se armar de cautela e caldo de galinha: pista perigosa. Nisto, a 120 por hora, somos ultrapassados por um Veloster prata, bem próximo de uma subida congestionada de caminhões. O motorista sai em ziguezague entre eles, usa o acostamento e faz ultrapassagens inimagináveis. Uma visão dantesca da irresponsabilidade.
 
Leve e confortável –  E agora, 300 quilômetros depois da partida, a estrada está mais livre para o Cobalt mostrar algumas razões de seu sucesso. É grande o prazer de dirigir, com os comandos à mão e pedais bem leves. O motor 1.4 de 102 cv (etanol) e 97 cv (gasolina) responde bem na estrada, o câmbio manual de cinco marchas tem uma relação curta e a sensação de leveza impressiona; parece que o carro flutua no asfalto e vai decolar em instantes. Mas responde bem nas curvas mais fechadas. 
 
Entretanto, talvez a maior das razões esteja gravada no computador de bordo, quando termina a primeira etapa desta viagem de 600 quilômetros: 14.2 quilômetros por litro de gasolina, boa parte do percurso com o ar ligado. Sem dúvida, merece figurar entre os carros mais econômicos do mercado. Outro motivo de sucesso é o porta-malas, com seus 563 litros, o que joga o Logan (até então imbatível nesse quesito, com 510 litros) para o segundo lugar.
 
Também é um carro confortável, com bancos anatômicos; três pessoas viajam com tranquilidade no banco traseiro. O acabamento poderia ser melhor; o excesso de plástico nas portas tira um pouco a nobreza do espaço interno. Outro defeito: o encaixe do cinto de segurança do motorista é colado no freio de mão. Um incômodo.
 
Mas é um automóvel com um bom custo/benefício, com preços atraentes e bem próximos da concorrência, em especial do Renault Logan e do Nissan Versa. A versão básica, a  LS, custa R$ 39.980, já com ar-condicionado e direção hidráulica de série. A intermediária, LT, vem com air bags frontais, freios ABS, vidros elétricos dianteiros e detalhes cromados no exterior por R$ 43.780. A top de linha, LTZ, de R$ 45.980, traz ainda rodas de liga leve, faróis de neblina e sistema de som com conexões bluetooth e entrada USB. Todos com câmbio manual.
 
Continuemos então a aventura numa viagem em direção a uma parte da Estrada Real, cortada pelos colonizadores portugueses do Rio de Janeiro aos sertões de Minas Gerais em busca de ouro, diamantes e outras riquezas. São 167 quilômetros de Belo Horizonte a Conceição do Mato Dentro, cidade histórica no caminho de Ouro Preto a Diamantina. O carro sobe com desenvoltura pela íngreme e linda Serra do Cipó (com seus picos de 1.600 metros) e os freios a disco com ABS respondem com precisão na longa descida.
 
Em Conceição, outros desafios: a cidade é formada em grande parte por ladeiras muito íngremes. Fica nos contrafortes da serra e as ruas são calçadas de pedra (como nas demais cidades históricas). E em algumas delas o Cobalt não sobe; procura-se outro caminho mais suave. O motor mostrou pouca potência em Belo Horizonte, cidade também de sobe e desce. A segunda marcha não responde como deveria. O que prova que seu DNA urbano é para cidades mais planas. Será?
 
Na sequência da viagem, de Conceição do Mato Dentro a Guanhães, ainda na Estrada Real, o Cobalt surpreende: ultrapassa com rara bravura o maior de todos os desafios, aquele caminho de 71 quilômetros, no começo de asfalto, depois só de buracos e poeira vermelha, dessas que se depositam até na alma. Incrível como este carro, uma máquina de quatro rodas, passa valente por um caminho mais apropriado a quatro patas; e o governo de Minas ainda chama aquilo de estrada. De todo modo, a suspensão do Cobalt passou com méritos pelo pior teste. Ponto para o projeto.
 
Na volta, um susto atrás do outro, pela BR-381 (trecho Belo Horizonte-Vitória), uma das mais perigosas do País. Mas o Cobalt mantém o bom desempenho na estrada e também na volta pela avenida Fernão Dias. Na cidade, um carro ágil, com uma direção hidráulica incrivelmente leve. Na volta a São Paulo, trânsito congestionado, o teste diário de paciência dos motoristas.
 
O Cobalt encerra sua aventura: foram 1.760 quilômetros e o computador de bordo exibe a marca registrada do carro, com 13.8 quilômetros por litro de gasolina. É a soma da leveza com a economia.
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